Benefícios do consumo moderado de bebidas alcoólicas parecem cada vez mais questionáveis

John Watson

Notificação

11 de janeiro de 2022

Recentemente, ao tentar comprar bebidas alcoólicas em lojas de bairro para as festas de fim de ano, muitos consumidores se depararam com prateleiras cada vez mais vazias.

Apesar de parcialmente atribuível a questões de distribuição de suprimentos ocorrendo em todo o mundo, também é mais um indício do aumento da procura por bebidas alcoólicas entre adultos durante estes difíceis anos de covid-19. Essa tendência vem preocupando quanto a uma pandemia correlata de morbidades causadas por bebidas alcoólicas, que começou a emergir sob forma de aumento da incidência de doença gastrointestinal e hepática, internações hospitalares por hepatite alcoólica e incidentes de violência doméstica relacionados com o uso da substância.

Quem bebe pouco ou moderadamente pode não se identificar com essas histórias, que mostram o alto preço de beber. Em vez disso, essas pessoas estão seguindo as recomendações de saúde vigentes, que indicam que a beber um pouco de vez em quando traz grandes benefícios para a saúde. No entanto, os últimos dois anos trouxeram um notável desgaste a esta ideia, à medida que novos dados questionam se o uso moderado de bebidas alcoólicas deve realmente continuar a ser exatamente o que muitos médicos orientam.

Para além da curva: redução do valor cardioprotetor das bebidas alcoólicas

Talvez o argumento mais eloquente sobre os benefícios do consumo leve a moderado de bebidas alcoólicas – geralmente definido como uma a duas doses por dia – seja o suposto valor cardioprotetor. Assim, as bebidas alcoólicas se diferenciam do tabaco, que é perigoso em qualquer nível. Os efeitos cardioprotetores propostos para as bebidas alcoólicas muitas vezes são representados como uma curva em forma de J, com o consumo moderado ocupando o ponto certo entre a abstenção e o consumo excessivo em termos de redução da mortalidade.

Na realidade, essa associação é mais provavelmente "um artefato estatístico", derivado em grande parte de estudos observacionais de baixa qualidade, segundo o Dr. Christopher Labos, epidemiologista e cardiologista do Queen Elizabeth Health Complex, no Canadá.

"Quando você analisa estudos que ajustam por coisas como a causalidade reversa ou pelo fato de que alguns abstêmios costumavam beber antes, então você percebe que o benefício protetor do álcool é mínimo ou inexistente, e que as bebidas alcoólicas trazem mais prejuízos do que benefícios para a nossa sociedade", disse Dr. Christopher, que detalhou a origem da indevida reputação cardioprotetora do álcool em um comentário no Medscape em 2020.

Esta limitação estatística foi evidenciada em julho, quando o periódico BMC Medicine publicou resultados de metanálises sugerindo que consumidores de bebidas alcoólicas não precisam parar de tomar pequenas doses como forma de prevenção secundária de doenças cardiovasculares. Os próprios pesquisadores do estudo observaram que provavelmente superestimaram a redução do risco de doenças cardiovasculares, ao computar pessoas que costumavam beber muito como abstêmias.

Mesmo que a curva em forma de J exista, sua simplicidade é enganosa. O risco de doenças cardiovasculares aumenta junto com o consumo de bebidas alcoólicas, tendo uma complexa variedade de fatores genéticos e de estilo de vida. A curva também é um pouco paradoxal. Se você gosta de tanto de álcool, a ponto de beber todos os dias, manter-se no nadir da curva onde você poderia obter mais benefícios pode ser complicado.

Outro fator que empalideceu a reputação cardioprotetora das bebidas alcoólicas veio de dados recentes relacionando episódios de fibrilação atrial ao consumo de pontual de bebidas alcoólicas. Um ensaio clínico randomizado e controlado publicado no periódico New England Journal of Medicine concluiu que a abstinência de bebidas alcoólicas reduziu as recidivas de arritmia entre os pacientes com fibrilação atrial que bebiam regularmente.

"Se conseguirmos replicar isso, acho que vamos descobrir que reduzir o consumo de bebidas alcoólicas pode ser muito eficaz para prevenir e tratar a fibrilação atrial", disse Dr. Christopher.

Entretanto, os defensores da curva J indicarão a recente publicação de dados do estudo do UK Biobank, indicando que os baixos níveis de consumo de álcool conferem maior redução do risco de fibrilação atrial.

Um cancerígeno que deixou de ser negligenciado

As pesquisas indicam que menos de metade dos estadunidenses sabem que as bebidas alcoólicas aumentam o risco de câncer. Isso pode ter mudado um pouco este ano. No início de 2021, uma análise epidemiológica estimou que as bebidas alcoólicas contribuíram para 4,8% dos casos de câncer e 3,2% das mortes por câncer nos Estados Unidos. A seguir, no verão do hemisfério norte o periódico Lancet Oncology publicou os resultados de um excelente estudo populacional sobre o ônus do câncer no mundo inteiro como resultado das bebidas alcoólicas. Embora a principal mensagem tenha sido que 4% dos novos casos de câncer em todo o mundo em 2020 foram atribuíveis às bebidas alcoólicas, também é notável que o consumo moderado tenha respondido por 103.100 casos dos 741.300 casos anuais projetados.

"O risco de câncer aumenta mesmo com níveis baixos ou moderados de consumo", disse a primeira autora do estudo, Harriet Rumgay, bióloga do Centre international de recherche sur le cancer, na França. "Beber menos significa que o seu risco de câncer será mais baixo do que beber muito, mas não existe nenhum limite seguro de ingestão de bebidas alcoólicas".

O estudo relacionou o consumo de álcool com o aumento do risco de neoplasias de pelo menos sete tipos diferentes: câncer de cavidade oral, faringe, laringe, esôfago, cólon, reto, fígado e mama.

Embora nos Estados Unidos os homens tenham representado cerca de dois terços do ônus do câncer por ingestão de bebidas alcoólicas, Harriet acrescentou que "níveis baixos e moderados de consumo (uma ou duas bebidas alcoólicas por dia) contribuíram relativamente para mais casos de câncer entre as mulheres do que entre os homens".

No entanto, mais notícias negativas para as pessoas que tomam quantidades moderadas de bebidas alcoólicas chegaram mais tarde, quando uma equipe de pesquisadores sul-coreanos publicou dados mostrando que em termos do risco de diferentes tipos de câncer gastrointestinal, até mesmo o consumo exagerado ocasional pode ser preferível ao consumo regular, porém moderado.

Talvez a percepção cambiante do potencial cancerígeno das bebidas alcoólicas seja mais bem resumida pela American Cancer Society , que ao atualizar suas diretrizes em 2020, após um período de oito anos, trouxe a seguinte orientação sucinta: "é melhor não beber".

Implicações neurotóxicas

A ingestão moderada de bebidas alcoólicas também foi reconsiderada para a saúde do cérebro.

Um recente artigo com dados multimodais de ressonância magnética de crânio e testes cognitivos com mais de 25.000 participantes no estudo UK Biobank indicam que talvez não exista uma dose segura para o consumo de bebidas alcoólicas. Até a ingestão de quantidades moderadas reduziu o volume da massa cinzenta e a conectividade funcional, associações negativas que foram mais pronunciadas entre aqueles com hipertensão arterial e índice de massa corporal elevado.

Falando com o Medscape em maio de 2021, um pesquisador disse: "O tamanho do efeito é pequeno, embora maior do que qualquer outro fator de risco modificável", observando que as mudanças foram relacionadas com a diminuição da memória e a demência.

A Dra. Louise Mewton, Ph.D., do Center for Healthy Brain Aging na University of New South Wales na Austrália, disse que estes resultados oferecem uma comparação interessante com outros no que tange a associação entre a ingestão de bebidas alcoólicas e a demência.

"Um estudo recente com mais de um milhão de casos de demência na França indicou que o uso problemático de bebidas (transtorno do uso de bebidas alcoólicas) foi um dos fatores de risco mais fortes de demência – ainda mais do que a hipertensão arterial sistêmica e o diabetes", disse Dra. Louise ao Medscape. Em comparação, "as revisões mais recentes indicam que quatro doses de bebidas alcoólicas por semana estão associadas a menor risco de demência, por isso estamos falando de níveis muito baixos de ingestão de bebidas alcoólicas em termos da preservação da saúde do cérebro".

"Compreender porque quantidades muito pequenas de bebidas alcoólicas parecem ser protetoras em termos de demência, porém lesivas quando olhamos os exames de imagem do cérebro é algo que seria realmente interessante".

Dra. Louise e colaboradores publicaram recentemente dados sugerindo que há três períodos em que o cérebro pode ficar particularmente suscetível aos efeitos neurotóxicos do álcool: na gestação (da concepção ao nascimento), na adolescência (dos 15 aos 19 anos) e na terceira idade (depois de 65 anos). Direcionar intervenções comportamentais para pacientes nessas faixas etárias pode, portanto, ser benéfico.

E nunca é cedo para promover a abstinência entre as pessoas com transtorno de uso de bebidas alcoólicas, porque foi demonstrado que danos cerebrais ocorrem mesmo no logo após a cessação.

Embora seja mais um argumento para a relevância da curva em forma de J, dados do Massachusetts General Brigham Biobank recentemente indicaram que o consumo moderado de bebidas, diferentemente do consumo leve ou intenso, reduziu tanto a atividade neurofisiológica relacionada com o estresse quanto os eventos cardiovasculares adversos maiores.

Fazer com que os pacientes reconsiderem os "benefícios" das bebidas alcoólicas

Estes novos achados significam que os médicos vão precisar veicular uma mensagem com mais nuances sobre os impactos para a saúde do consumo moderado de bebidas alcoólicas do que nos anos anteriores. Para ajudar esses esforços, Harriet aconselha que os médicos consultem uma edição especial do periódico Nutrients com artigos de revisão sobre as consequências das bebidas alcoólicas em vários desfechos de saúde.

Harriet também preconiza mudanças políticas mais amplas.

"Existem algumas evidências de que colocar avisos sobre o câncer no rótulo das bebidas alcoólicas, semelhantes aos maços de cigarro, possa dissuadir a compra de bebidas alcoólicas e conscientizar a população sobre a relação de causalidade entre as bebidas alcoólicas e o câncer", disse a pesquisadora. Porém, segundo ela, as formas mais eficazes de reduzir a ingestão de bebidas alcoólicas na população são: aumento do preço das bebidas por meio do aumento dos impostos, limitação da disponibilidade de compra e diminuição da propaganda de bebidas alcoólicas.

A Dra. Louise Mewton recomenda várias intervenções para os pacientes que ainda têm dificuldade em reduzir seu consumo.

"Para o uso menos grave e problemático, coisas como a terapia cognitiva comportamental e a terapia motivacional são muito eficazes na redução do consumo de álcool", disse a especialista ao Medscape.

Pois toda a discussão sobre como a pandemia de covid-19 exacerbou o consumo problemático, também trouxe uma oportunidade para as pessoas repensarem sua relação com as bebidas alcoólicas. Um artigo de junho de 2021 publicado no Medscape traz um apanhado geral de como os pacientes estão incorporando com sucesso alternativas às bebidas alcoólicas em suas vidas.

E, como observou o cardiologista Dr. Christopher, novos dados sobre os efeitos negativos das bebidas alcoólicas provavelmente não serão considerados como abalos estruturais pela maioria dos pacientes.

"No fundo, acredito que a maioria das pessoas saiba que as bebidas alcoólicas não são saudáveis, mas é algo que faz parte da nossa cultura, e assim encontramos maneiras justificar o comportamento," disse o médico.

O Dr. Christopher sugere que os médicos reformulem a ideia sobre bebidas alcoólicas na cabeça dos seus pacientes, mostrando o que de fato são: "um agrado, que não deve ser consumido em grandes quantidades ou frequência".

"Tal como os alimentos ultraprocessados, não significa que não possamos desfrutar de pequenas quantidades ocasionalmente, mas precisamos deixar de achar que nos faz bem, porque não faz."

John Watson é escritor freelancer e reside na Filadélfia, Estados Unidos.

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