Estudo não encontra associação entre o uso de contraceptivo oral pela mãe e os tumores do SNC nos filhos

Walter Alexander

Notificação

11 de janeiro de 2022

Um grande estudo feito com crianças e adolescentes na Dinamarca não identificou associação estatisticamente significativa entre a contracepção hormonal materna e o aumento do risco de tumores do sistema nervoso central (SNC) na prole.

O estudo foi realizado com dados de um registro populacional, e incluiu 1,1 milhão de crianças e adolescentes de até 19 anos de idade, nascidos na Dinamarca entre 1996 e 2014.

O estudo realizado pela Dra. Marie Hargreave, Ph.D., Centro de Pesquisa de Sociedade e Câncer Dinamarquês, e seus colaboradores, foi publicado on-line em 04 de janeiro no periódico Journal of the American Medical Association.

A exposição aos hormônios sexuais no útero é uma causa reconhecida de câncer na prole afetada, observaram os autores. Além disso, a incidência de tumores do SNC, entre os tipos de câncer infantil mais comuns e letais, parece estar aumentando. Assim, os autores procuraram avaliar a possibilidade de haver uma relação entre esses dois fatores.

Durante um acompanhamento médio de 12,9 anos, a equipe observou que 725 crianças e adolescentes foram diagnosticados com tumor do SNC (47,2% do sexo feminino). A média de idade ao diagnóstico foi de sete anos. A equipe observou que 11,5%, 65,7% e 22,8% das crianças e adolescentes diagnosticados nasceram de mães com uso recente, anterior ou sem uso de anticoncepcional hormonal, respectivamente.

A taxa de incidência ajustada de tumores do SNC foi de 5,0 por 100.000 pessoa-anos para crianças e adolescentes nascidos de mães com uso recente de contracepção hormonal (razão de risco, RR, de 0,95); 4,5 por 100.000 pessoa-anos para crianças e adolescentes nascidos de mães com uso anterior (RR de 0,86); e 5,3 por 100.000 pessoa-anos para crianças e adolescentes nascidos de mães que não faziam uso de contraceptivos.

Embora o uso recente de implantes (RR de 0,9) e dispositivos intrauterinos (RR de 1,5) não tenha mostrado associações estatisticamente significativas para os subgrupos de contracepção hormonal com progestágeno não oral isolado avaliados, a equipe identificou que as injeções de progestágeno isolado foram significativamente associadas a um aumento do risco em comparação com ausência de uso (RR de 6,7). Além disso, em todas as análises de sensibilidade post hoc, o uso recente do grupo principal de produtos de progestágeno isolado não oral foi significativamente associado a tumores do SNC.

Os autores observaram que uma associação entre o uso materno de contraceptivos injetáveis e o aumento do risco de anomalias cromossômicas e malformações significativas em crianças e adolescentes já havia sido relatada. Esses resultados para produtos injetáveis, no entanto, foram baseados em um pequeno número de casos, o resultado do teste de verossimilhança foi nulo e não foram feitos ajustes para comparações múltiplas. Mesmo que os resultados para esse subgrupo sejam confirmados, apontam os autores, como os tumores do SNC em crianças e adolescentes são incomuns, as estimativas de alto risco relativo se traduziriam em discreto aumento do risco absoluto.

Apesar de o grande número de pessoa-anos e tumores aumente a precisão estatística, e o desenho nacional de base populacional aumente a capacidade generalização dos resultados, os autores alertaram que a raridade de tumores do SNC em crianças e adolescentes, e o baixo número de casos na coorte estudada limitam as análises de subgrupo e a precisão estatística de certas estimativas.

Em um editorial que acompanha o estudo, o Dr. Logan G. Spector, Ph.D., o médico Dr. Christopher L. Moertel, ambos da University of Minnesota Medical School; e a Dra. H. Irene Su, médica da University of California, nos EUA, concordaram com as conclusões dos autores, e declararam: “Portanto, as mulheres devem ser tranquilizadas sobre o uso de contracepção hormonal, inclusive de injeções de progestágeno isolado, e sobre a ausência de qualquer elevação do risco de tumores do SNC em sua prole”.

O estudo foi financiado pelas instituições: Fundação de Pesquisa do Câncer da Dinamarca, Fundação Arvid Nilssons, Fundação Gangsted, Fundação Harboe e Fundação Johannes Clemmesens. Uma das autoras do trabalho, a Dra. Lina S. Mørch, Ph.D., informou vínculo trabalhista com a Novo Nordisk de 2017 a 2019 e o recebimento de subsídios da mesma empresa para um projeto de pesquisa colaborativo sem relação com o trabalho submetido. O Dr. Christopher informou o recebimento de taxas pessoais da OX2 Therapeutics, uma spin-off da University of Minnesota, nos EUA, que atua no desenvolvimento de tratamentos para tumores cerebrais.

JAMA. Publicado on-line em 04 de janeiro de 2022.  Abstract Editorial

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