Escore de cálcio pode ser mais eficaz na avaliação da necessidade de uso de estatinas

Jim Kling 

Notificação

11 de janeiro de 2022

Um estudo de viabilidade constatou que o rastreamento para a presença de cálcio na artéria coronária pode identificar melhor os pacientes que realmente precisam de terapia com estatinas, reduzindo prescrições desnecessárias e melhorando a adesão ao medicamento, em comparação com o atual padrão: usar equações de coorte agrupadas para determinar o risco de doença cardiovascular aterosclerótica.

Pesquisadores da University of Utah e de Intermountain Healthcare, uma rede hospitalar com 25 unidades em Utah, nos Estados Unidos, relataram que a taxa de uso de estatinas em pacientes com calcificação da artéria coronária (CAC) foi 25% menor do que naqueles cujas decisões terapêuticas foram tomadas a partir de equações de coorte agrupadas. Nenhum paciente estava em uso de estatinas no momento da inscrição na pesquisa, que foi publicada on-line no periódico JACC: Cardiovascular Imaging.

“Este estudo demonstra que a realização de um grande estudo de desfechos é viável, e há uma probabilidade razoável de talvez ser um ensaio clínico positivo para o uso de CAC”, disse em uma entrevista o líder do estudo, Dr. Joseph B. Muhlestein, médico e codiretor de pesquisa cardiovascular da Intermountain Healthcare e professor da University of Utah.

Os achados abordam as diretrizes de 2018 do American College of Cardiology em conjunto com a American Heart Association (ACC/AHA), que afirmam que as equações de coorte agrupadas são uma “ferramenta mais robusta para estimar o risco em 10 anos de adultos estadunidenses de 40 a 75 anos de idade”. No entanto, as diretrizes também preconizam que a decisão sobre a prescrição das estatinas seja compartilhada entre o paciente e o médico, e recomenda a avaliação para CAC quando houver dúvida sobre o tratamento com estatinas ou o risco for intermediário, a fim de ajustar a necessidade da medicação.

Os resultados também estimularam a condução de um estudo randomizado maior, conhecido como CorCal, que visa inscrever 5.500 pacientes e comparar CAC com as equações, disse o Dr. Joseph. Até agora, 3.000 pacientes foram inscritos.

CAC × equações de coorte agrupadas

O estudo de viabilidade inscreveu 601 pacientes randomizados para CAC (302) ou equações de coorte agrupadas (299), dos quais, 504 foram incluídos na análise final. No grupo CAC, 35,9% iniciaram uso de estatina versus 47,9% do grupo das equações de coorte agrupadas (P = 0,005). Os médicos participantes aceitaram a recomendação do estudo de iniciar o uso de estatina em 88,1% dos pacientes no braço CAC vs. 75,0% no braço das equações.

O Dr. Joseph observou que o estudo de viabilidade não avaliou desfechos importantes, como acidente vascular cerebral ou infarto do miocárdio, mas que serão desfechos fundamentais no estudo randomizado maior. “Descobrimos neste estudo de viabilidade que a diferença entre as recomendações no braço do CAC e as no braço das equações de coorte agrupadas são suficientemente significativas para que haja um desfecho distinto”, disse.

“Houve casos em que as equações de coorte agrupadas não indicaram uso de estatina, mas o paciente tinha muito cálcio coronariano, então nós recomendamos a medicação naquele paciente”, explicou. “Ao mesmo tempo, também houve pacientes para os quais as equações de coorte agrupadas indicaram uso de estatina, mas eles tinham zero cálcio coronariano, então não nós desaconselhamos o uso”.

Em comparação com as recomendações baseadas nas equações, os pacientes no grupo CAC tiveram as estatinas suspensas em 36% dos casos e iniciaram estatinas em 5,6% dos casos. “Achamos que as equações indicam estatinas a muitos pacientes que não precisam realmente delas”, disse o Dr. Joseph.

O estudo de viabilidade também descobriu que a adesão dos pacientes à terapia foi maior nos casos de cálcio nas coronárias do que entre aqueles avaliados pelas equações de coorte agrupadas – 63,3% vs. 45,6% em um ano (P = 0,03). “Pacientes e médicos são mais propensos a se preocupar o suficiente para começar a terapia preventiva quando sabem que não estão apenas em risco de contrair a doença, mas que na verdade têm a doença; isso é o que a pontuação de CAC lhes diz”, explicou.

Ele observou que, embora as evidências observacionais tenham adotado o escore de CAC, os planos de saúde hesitam em cobrir o exame. “Essa é uma das nossas principais motivações para o estudo”, destacou o Dr. Joseph. “A avaliação do CAC não é muito cara; custa menos de 100 dólares, que é mais ou menos o que custa um painel de lipídios, mas o convênio não vai pagar, porque não provamos que o escore de CAC realmente muda os desfechos, e essa é uma alegação legítima. Mas, é claro, também nunca houve um ensaio randomizado provando que a equação de coorte agrupada mudava os desfechos”.

Os achados validam as diretrizes do ACC/AHA de 2018, “e abrem caminho para um uso mais amplo do escore de CAC para a avaliação do uso de estatinas”, disse o Dr. Neil J. Stone, médico, presidente do comitê redator das diretrizes do ACC/AHA de 2013 e vice-presidente do comitê de 2018. “O estudo confirma um grande conjunto de informações de que uma abordagem determinística, ou seja, o escore de cálcio, supera uma abordagem probabilística no âmbito individual”. O Dr. Neil é Bonow Professor of Medicine da Northwestern University e diretor clínico do Centro Vascular do Bluhm Cardiovascular Institute do Northwestern Memorial Hospital, ambos nos EUA.

“Eu aplaudo os pesquisadores por usarem isso como um estudo gerador de hipóteses e por planejar um ensaio maior e mais definitivo”, disse ele. “Este estudo incentivaria reguladores e planos de saúde a apoiarem o uso do escore de cálcio, conforme recomendado pelas diretrizes de 2018”.

A Intermountain Healthcare é a única fonte de financiamento do estudo de viabilidade CorCal. Os Drs. Joseph e Neil informaram não ter conflitos de interesses.

Este conteúdo foi originalmente publicado em MDedge.comMedscape Professional Network.

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