Idosos que praticam atividade física, mesmo leve, podem ter menos risco de demência

Batya Swift Yasgur

Notificação

11 de janeiro de 2022

Idosos que praticam atividade física, mesmo de leve intensidade, podem ter menos risco de demência, sugerem novas pesquisas.

Em uma análise retrospectiva que avaliou mais de 62.000 pacientes com 65 anos de idade ou mais e sem demência, 6% evoluíram para demência.

Em comparação às pessoas inativas, as pessoas "pouco ativas", "ativas" e "muito ativas" tiveram risco 10%, 20% e 28% menor de demência, respectivamente. E essa associação foi homogênea independentemente de idade, sexo, presença de outras comorbidades ou após os pesquisadores terem censurado por acidente vascular cerebral.

Até o nível mais baixo de prática de atividade física leve foi associado a um risco de demência menor, observaram os pesquisadores.

"Entre os idosos, praticar mais atividade física, inclusive um pouco de atividade física de leve intensidade, foi associado à redução do risco de demência", escreveram Dr. Minjae Yoon, médico da Divisão de Cardiologia do Severance Cardiovascular Hospital da Yonsei University, na Coreia do Sul, e colaboradores.

"Promover a prática de atividade física de leve intensidade pode reduzir o risco de demência em idosos", acrescentaram os pesquisadores. Os resultados foram publicados on-line em 16 de dezembro no periódico JAMA Network Open.

Causalidade reversa?

Já foi demonstrado que a prática de atividade física está associada a menor risco de demência. As atuais diretrizes da Organização Mundial da Saúde recomendam que adultos com cognição normal pratiquem atividades físicas para reduzir o risco de declínio cognitivo.

Entretanto, alguns estudos não corroboram essa constatação, e sugerem que “achados anteriores mostrando menor risco de demência em pessoas fisicamente ativas podem ser atribuídos a causalidade reversa", observaram os pesquisadores. Além disso, pesquisas sobre a intensidade do exercício são "heterogêneas" no que diz respeito ao papel da atividade física leve na redução do risco de demência, escreveram os autores.

Muitos idosos com fragilidade e comorbidades não podem praticar atividade física intensa ou nem mesmo moderada, portanto, "esses idosos teriam que obter os benefícios da atividade física com a atividade física leve", observaram os pesquisadores.

Para esclarecer a possível associação entre a prática de atividade física e o novo quadro demencial, os pesquisadores se concentraram especificamente na "associação entre a dose e a resposta" da atividade física e da demência, especialmente da atividade física de leve intensidade.

Entre 2009 e 2012, os pesquisadores recrutaram 62.286 idosos (60,4% mulheres; média de idade de 73,2 anos) com dados de avaliação de saúde disponíveis no banco de dados do Serviço Nacional de Seguro de Saúde Sênior coreano. Nenhum participante tinha história de demência.

A prática de atividade física recreativa foi avaliada por meio de questionários que utilizaram um método de sete dias de memória, contendo três perguntas sobre a frequência habitual (em dias por semana):

  • Atividade física vigorosa durante pelo menos 20 minutos

  • Atividade física moderada durante pelo menos 30 minutos

  • Atividade física leve durante pelo menos 30 minutos

Atividade física vigorosa foi definida como exercício intenso, que fez com que a pessoa ficasse significativamente ofegante; atividade física moderada foi definida como exercício que fez com que a pessoa ficasse levemente ofegante; e atividade física leve foi definida como "caminhar calma ou vagarosamente".

O gasto energético relacionado com a prática de atividade física também foi calculado em equivalentes metabólicos (MET) por minutos por semana pela "soma do produto da frequência, da intensidade e da duração", observaram os pesquisadores.

Os participantes foram separados em grupos, de acordo com a quantidade total de atividade física praticada por semana:

  • Inativo (sem atividade física leve, além dos movimentos básicos)

  • Pouco ativo (inferior à recomendação de 1 a 499 MET por minuto por semana (-min/smn)

  • Ativo (cumprindo a recomendação de 500 a 999 MET-min/smn)

  • Muito ativo (ultrapassando a recomendação de pelo menos 1.000 MET-min/smn)

No total, 35% dos participantes foram classificados como inativos, 25% pouco ativos, 24,4% ativos e 15,2% muito ativos.

A controvérsia perdura

Durante a mediana total do acompanhamento de 42 meses, 6% dos participantes tiveram demência por todas as causas. Após os pesquisadores terem excluído os dois primeiros anos, a incidência de demência foi de 21,6 por 1.000 pessoa-anos durante o acompanhamento.

Tabela 1. Incidência de demência de acordo com a atividade física

Nível de atividade física Incidência de demência (por 1.000 pessoa-anos)
Inativo 27,0
Pouco ativo 22,2
Ativo 18,0
Muito ativo 14,1

"A incidência cumulativa de demência foi associada a uma tendência de diminuição progressiva de acordo com o aumento da atividade física" (P = 0,001 para a tendência), informaram os pesquisadores.

Ao utilizar um modelo de regressão multivariável de risco concorrente, os pesquisadores constataram que níveis mais altos de atividade física foram associados a menor risco de demência em comparação ao grupo inativo.

Tabela 2. Risco de demência por atividade física

 

Atividade física Razão de risco ajustada
(IC de 95%)
Pouco ativo 0,90 (0,81 a 0,99)
Ativo 0,80 (0,71 a 0,92)
Muito ativo 0,72 (0,60 a 0,83)

Resultados semelhantes foram obtidos após a censura de acidente vascular cerebral, sendo homogêneos em todos os períodos de acompanhamento. Na análise de subgrupos, a associação entre a atividade física e o risco de demência manteve-se consistente, independentemente de idade, sexo e comorbidades.

Mesmo a prática de pouca de atividade física de leve intensidade (1 a 299 MET-min/smn) foi associada a redução do risco de demência em comparação ao comportamento totalmente sedentário (razão de risco ajustada de 0,86; intervalo de confiança, IC, de 95% de 0,74 a 0,99).

Os pesquisadores observaram que ainda há alguma "controvérsia" a respeito da possibilidade da causalidade reversa e, pela natureza observacional do estudo em tela, este "não pode ser usado para comprovar causalidade".

No entanto, o estudo teve pontos fortes importantes, como o grande número de idosos com dados disponíveis, a avaliação da associação entre a dose e a resposta da atividade física e da demência e as análises de sensibilidade feitas, acrescentaram os pesquisadores.

Evidências importantes

Convidado pelo Medscape para comentar os resultados do estudo, o Dr. Takashi Tarumi, Ph.D., pesquisador sênior do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Industrial Avançada no Japão, afirmou que estudos anteriores sugeriram "uma proporção inversa entre a atividade física e risco de demência, de modo que os idosos que fazem mais exercícios podem ter maior benefício de redução do risco da demência".

O Dr. Takashi, editor associado do Journal of Alzheimer's Disease, acrescentou que o estudo em tela "aumenta significativamente nosso conhecimento, mostrando que o risco de demência também pode ser reduzido pela atividade física leve quando feita durante mais tempo".

Isso traz "mais evidências importantes" para embasar a recomendação médica de prática de atividades físicas regulares para a prevenção da demência tardia, disse o Dr. Takashi, que não participou da pesquisa.

Também comentando para o Medscape, o Dr. Martin Underwood, médico da Warwick Medical School, Coventry no Reino Unido, disse que a associação entre pouca atividade física e demência com já foi comprovada – e observou que o estudo em tela "parece confirmar os dados observacionais preliminares que indicaram essa relação".

Os resultados do estudo em tela "ainda não podem excluir inteiramente a possibilidade de causalidade reversa", disse Dr. Martin, que também não participou do estudo.

No entanto, o achado de que as pessoas que fazem mais atividades físicas são menos propensas a ter demência "só configura verdadeiro interesse se pudermos demonstrar que o aumento da atividade física previne ou retarda a progressão da doença", observou o comentarista.

"Até onde eu sei isso ainda não foi comprovado" em ensaios clínicos randomizados, acrescentou Dr. Martin.

O estudo foi subsidiado por doações do Centro de Coordenação de Pesquisa Clínica voltado para o paciente, financiado pelo Ministério da Saúde e Bem-Estar da República da Coreia, e por uma bolsa de pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Yonsei. O autor sênior Dr. Minjae Yoon informou fazer palestras para as empresas Bayer, Bristol-Myers Squibb/Pfizer, Medtronic e Daiichi-Sankyo e receber financiamento de pesquisa das empresas Medtronic e Abbott. Nenhum outro autor divulgou conflitos de interesse. Os Drs. Takashi Tarumi e Martin Underwood informaram não ter conflitos de interesses.

JAMA Netw Open. Publicado on-line em 16 de dezembro de 2021. Texto completo

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