Crianças e adolescentes com covid-19 podem apresentar comprometimento gastrointestinal importante

Marcia Frellick

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10 de janeiro de 2022

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O comprometimento gastrointestinal importante pode ser comum em crianças e adolescentes com história de covid-19, mostra novo estudo.

A médica Dra. Andrea Lo Veccio, Ph.D., da Università degli Studi di Napoli Federico II, na Itália, e seus colaboradores analisaram retrospectivamente os dados de uma grande coorte de crianças e adolescentes de até 18 anos de idade diagnosticados com covid-19 entre 25 de fevereiro de 2020 e 20 de janeiro de 2021 em 54 instituições italianas.

No total, foram incluídas no estudo 685 crianças e adolescentes (56,4% meninos; média de idade: 7 anos). Destes, 628 (91,7%) foram diagnosticados com infecção aguda por SARS-CoV-2 e 57 (8,3%) com síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P).

Os autores identificaram um risco de hospitalização (razão de chances, RC, de 2,64; intervalo de confiança, IC, de 95% de 1,89 a 3,69) mais elevado entre os participantes que apresentaram sintomas gastrointestinais, além de quase o quádruplo do risco de internação em unidade de terapia intensiva (UTI) (RC de 3,90; IC 95% de 1,98 a 7,68).

Sessenta e cinco participantes (9,5%) apresentaram comprometimento gastrointestinal importante, das quais 27 (41,5) foram operadas. Os autores incluíram no grupo comprometimento gastrointestinal importante os pacientes com adenite mesentérica disseminada (39,6%), apendicite (33,5%), coleção líquida intra-abdominal (21,3%), pancreatite (6,9%) ou intussuscepção (4,6%).

A probabilidade de manifestar sintomas graves foi muito maior entre os participantes com cinco anos de idade ou mais em comparação com aqueles entre três e cinco anos. Crianças entre 5 e 10 anos tiveram oito vezes mais chances de apresentar sintomas graves do que aquelas entre três e cinco anos (RC de 8,33; IC 95% de 2,62 a 26,5). A presença de sintomas graves foi seis vezes mais provável no grupo acima de 10 anos (6,37; IC 95% de 2,12 a 19,1).

A conscientização sobre a frequência e a apresentação do quadro pode contribuir para que profissionais de saúde tratem adequadamente as crianças em risco de desfechos graves, escreveram os autores.

Os achados foram publicados on-line em 20 de dezembro no periódico JAMA Network Open.

Estudo destaca a conexão com o trato gastrointestinal

Solicitado a comentar os resultados, o Dr. William Balistreri, médico da Divisão de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição do Centro Médico do Cincinnati Children’s Hospital Medical Center, nos Estados Unidos, disse que é reconhecido que as crianças têm maior probabilidade do que os adultos de apresentar sintomas gastrointestinais, e que esses sintomas são especialmente comuns em crianças com SIM-P.

Dr. William Balistreri

“Os sintomas mais citados na literatura até o momento são diarreia, náuseas, vômitos ou dor abdominal”, disse ele. O que ainda não se sabe “é a frequência, os marcadores preditivos e o curso clínico das manifestações gastrointestinais graves na covid-19”.

Os achados deste estudo são importantes para os médicos, contribuindo para o reconhecimento do potencial comprometimento gastrointestinal importante, disse o Dr. Willian, acrescentando que “a ocorrência de dor abdominal, leucopenia, elevação dos marcadores inflamatórios ou SIM-P deve levantar suspeitas e suscitar uma avaliação precoce”.

Também comentando sobre os resultados do estudo, a Margaret E. Thew, médica especialista em medicina do adolescente e enfermeira de família do Medical College of Wisconsin, nos Estados Unidos, disse que, apesar de as notícias geralmente enfatizarem o comprometimento respiratório, o estudo em tela fornece uma análise detalhada da relação entre os sintomas gastrointestinais e a covid-19.

Margaret Thew

“Os dados mostram que as crianças podem ter menos doenças respiratórias, independentemente de serem crianças no geral saudáveis”, disse ela. “Elas podem ter mais sintomas gastrointestinais.”

“Sabemos que a covid-19 causa muita inflamação e uma grande porcentagem dessas crianças teve inflamação no estômago ou intestino”, acrescentou ela.

A Dra. Margaret disse que os médicos da atenção primária e os emergencistas tirarão proveito dos achados do estudo em tela, devendo ficar atentos aos casos de crianças com queixa de dor abdominal ou vômitos.

Os pais e as mães também se beneficiarão, disse ela, se estiverem esperando por uma doença respiratória antes de suspeitar de covid-19.

Ao atender uma criança ou adolescente com queixa de dor abdominal ou vômitos é necessário haver uma alta suspeita de covid-19, disse ela. “Isso deve ser parte do seu processo de raciocínio.”

Embora o estudo tenha sido realizado na Itália, a Dra. Margaret acrescentou que o cenário descrito mimetiza a sua experiência nos Estados Unidos.

A Dra. Andrea informou o recebimento de remuneração da Pfizer pela participação em conselho consultivo sem relação com o trabalho apresentado. Um coautor informou a realização de palestras remuneradas para as empresas Angelini, Sobi e X4 Pharma sem relação com o trabalho apresentado. Nenhuma outra relação de conflitos de interesses foi informada. O Dr. Willian e Dra. Margaret informaram não ter relações financeiras relevantes.

JAMA Netw Open. Publicado on-line em 20 de dezembro de 2021. Texto completo

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