Concurso para internato médico em Portugal tem recorde de posições sem interessados

Giuliana Miranda

10 de janeiro de 2022

Embora o número de candidatos tenha superado com folga a quantidade de vagas disponíveis, o último concurso para o Internato Médico em Portugal acabou com 50 posições não preenchidas. A situação inédita foi recebida com preocupação por diversas entidades médicas, que a consideram reflexo da degradação das condições de trabalho do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Assim como outros países europeus, Portugal adota um sistema de concurso nacional unificado para o acesso às especialidades médicas. A escolha é feita pela ordem de classificação na prova.

Para o último concurso, havia 1.938 vagas, sendo 18 exclusivas para o Ministério da Defesa. Segundo a Ordem dos Médicos, quase 600 candidatos, entre os 2.462 inscritos, desistiram antes ou durante o processo seletivo.

O concurso terminou com 50 vagas sem interessados, incluindo opções em Lisboa e no Centro de Portugal: áreas tradicionalmente mais disputadas entre os jovens profissionais.

A situação mais sensível foi na especialidade de Medicina Interna, em que 31 vagas não tiveram interessados, sendo dez no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, que inclui o hospital de Santa Maria, o maior do país.

Não houve interessados também para 14 vagas em Medicina Geral e Familiar, quatro em imuno-hemoterapia e uma em patologia clínica.

“Este número de vagas por ocupar é inédito, desolador e revela a gravidade da situação que o SNS atravessa. A Ordem dos Médicos identificou um número de capacidades formativas histórico, num grande esforço para ajudar o SNS a manter a sua joia da coroa: a formação. Mas o que fazemos não compensa a falta de condições de carreira, de projeto profissional e o desrespeito com que a tutela trata os médicos e os outros profissionais de saúde, empurrando-nos para fora do SNS”, afirma o bastonário da Ordem dos Médicos, Dr. Miguel Guimarães, em nota.

O Federação Nacional dos Médicos (FNAM) também expressou preocupação.

Na avaliação da entidade, vários fatores contribuem para a falta de interesse dos profissionais pelo Serviço Nacional de Saúde, com destaque para a desvalorização das carreiras médicas.

A federação também assinala a existência de outras opções financeiramente mais atrativas para os jovens profissionais, como o serviço de medicina privada e o exercício profissional no estrangeiro.

Em declaração à agência Lusa, a ACSS (Administração Central do Sistema de Saúde) minimizou a situação. A entidade afirmou que uma das principais justificativas para as vagas sem interessados foi a “intenção de mudança de especialidade ou local de formação" dos candidatos.

A ACSS também destaca que alguns dos médicos inscritos para o concurso optaram por fazer a prova para o próximo processo seletivo, adiando assim a escolha da especialidade médica para o fim de 2022.

Nos últimos anos, vários órgãos têm alertado para a degradação das condições de trabalho no Serviço Nacional de Saúde. Queixas de trabalho excessivo para os internos, incluindo bolsas de horas que ficam por pagar, têm sido recorrentes.

Profissionais mais experientes também têm demonstrado profunda insatisfação. Desde setembro, Portugal teve diversos episódios de demissões em bloco de médicos em cargos de chefia no SNS, que alegam não haver condições mínimas de trabalho.

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