Primeira consulta ginecológica: como contribuir para uma boa experiência para a paciente

Jillian Mock

Notificação

6 de janeiro de 2022

Para muitas adolescentes, a primeira consulta ginecológica pode ser intimidante. A perspectiva de encontrar um novo médico que fará perguntas delicadas e profundamente pessoais sobre sexo e menstruação é assustadora. E, muito provavelmente, algum(a) amigo(a) ou familiar já alertou sobre o famoso exame pélvico.

O momento exato quando as adolescentes devem começar a ir ao ginecologista varia de acordo com o início da puberdade. Os médicos do atendimento primário e os pediatras podem ajudar as adolescentes a passar por este processo, encaminhando-as para um ginecologista acolhedor, que tenha afinidade com adolescentes, e esclarecendo algumas das ideias equivocadas que cercam a primeira consulta ginecológica. Os ginecologistas, na outra ponta do encaminhamento, podem contribuir com o processo ao assegurar a confidencialidade da consulta e criar um espaço seguro e acolhedor para essas jovens.

O Medscape conversou com três especialistas em hebiatria sobre o momento em que as adolescentes devem começar a ter suas necessidades ginecológicas atendidas e como os médicos podem ajudá-las neste processo de mudança.

Atendimento adequado à idade

Dra. Anne-Marie Amies Oelschlager

"A maioria das pessoas recebe muito poucas informações sobre a própria saúde reprodutiva", disse a Dra. Anne-Marie Amies Oelschlager, ginecologista infantil e adolescente no Seattle Children's Hospital, nos Estados Unidos, e membro do comitê de consenso clínico em ginecologia da American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG).

As diretrizes oficiais do ACOG preconizam a realização da consulta inicial sobre saúde reprodutiva entre 13 e 15 anos de idade. A idade exata pode variar, contudo, dependendo das necessidades específicas da paciente.

Por exemplo, algumas pacientes começam a menstruar cedo, aos 9 ou 10 anos, disse a Dra. Mary Romano, pediatra e hebiatra no Vanderbilt Children's Hospital, nos EUA. Os pediatras que se sentem desconfortáveis em orientar as jovens sobre menstruação devem encaminhá-las para um ginecologista, para os quais essas conversas são rotina.

Dra. Mary Romano

Se uma paciente ainda não tiver tido a menarca aos 14 ou 15 anos de idade, isso também deve ser abordado pelo médico da família ou ginecologista, acrescentou a Dra. Mary.

"O importante aqui é abordar a saúde reprodutiva da adolescente, começando realmente aos 10 ou 12 anos de idade, ou ao início da puberdade", disse a Dra. Patricia Huguelet, ginecologista infantil e hebiatra do Children's Hospital Colorado, Aurora, nos EUA. Nessas primeiras consultas, o médico pode fazer "orientações preventivas", esclarecendo para a adolescente qual é padrão em termos de menstruação, sexo e relacionamentos, e o que foge ao padrão, disse a médica.

Dr. Patricia Huguelet

Idealmente, pacientes que foram designadas como sendo do sexo feminino ao nascimento, mas agora se identificam como sendo do sexo masculino ou não binário, irão iniciar o acompanhamento ginecológico antes, logo no início do processo de afirmação de gênero, e o ginecologista continuará participando do acompanhamento como parte da equipe de atendimento multidisciplinar deste paciente, acrescentou a Dra. Mary, que orienta jovens LGBTQIA+. O ginecologista pode apoiar esses pacientes de várias maneiras, inclusive ajudando aqueles que estão considerando usar ou já usando bloqueadores da puberdade, e provendo orientação reprodutiva e de saúde de uma maneira sensível à identidade de gênero da pessoa.

Encaminhamento

Alguns pediatras e médicos de família podem conversar com suas pacientes sobre temas como ciclos menstruais e contracepção. Mas os que se sentem desconfortáveis em perguntar às adolescentes sobre a sua saúde reprodutiva e sexual devem encaminhá-las para um ginecologista ou hebiatra, orientou Dra. Mary.

"O maior benefício que observei é que, frequentemente, pacientes vindas de um pediatra ou médico de família costumam apreciar a oportunidade de falar com um médico que elas não conhecem sobre possíveis questões mais pessoais", disse a Dra. Anne-Marie para o Medscape.

O encaminhamento das adolescentes para um especialista com formação em hebiatria ou com experiência em atender essa faixa etária tem benefícios, disse a Dra. Mary. Os médicos com essa experiência entendem que as adolescentes não são "miniadultas", mas têm problemas clínicos e de desenvolvimento específicos. Como fazer sua orientação e esclarecimento coloca desafios únicos, disse a especialista.

Por exemplo, o sangramento menstrual abundante é uma das principais razões pela qual uma paciente, adulta ou adolescente, procura atendimento ginecológico, disse Dra. Patricia. Mas as patologias diferem muito para essas duas faixas etárias. Para as pacientes entre 30 e 40 anos, os pólipos e fibroides são problemas comuns associados ao sangramento abundante. Esses quadros são raros nas adolescentes, mas discrasias sanguíneas são comuns, disse a médica.

A maioria das pacientes continuará a ir ao pediatra e ao médico do atendimento primário para outras questões. E, em algumas áreas, os ginecologistas podem reforçar as orientações dos pediatras, por exemplo, incentivando as pacientes a se vacinarem contra o papilomavírus humano (PVH), disse Dra. Anne-Marie.

Equívocos comuns

Os médicos do atendimento primário também podem mitigar equívocos comuns entre as adolescentes e seus pais/mães sobre a ginecologia. Alguns adultos podem acreditar que certos métodos contraceptivos causam câncer ou infertilidade, se preocupar com a vacina contra o papilomavírus humano ou pensar que o tratamento hormonal faz mal, disse Dra. Anne-Marie. Mas o maior equívoco diz respeito ao famigerado exame pélvico.

"Muitas pacientes pensam que todas as vezes que forem ao ginecologista terão de fazer o exame pélvico", disse a médica. "Quando digo: 'não precisamos fazer o exame’ elas ficam tão aliviadas".

As diretrizes mudaram desde quando as mães dessas adolescentes foram à sua primeira consulta ginecológica. Muitas pacientes atualmente não precisam fazer o Papanicolau até os 25 anos de idade, depois da recente modificação das diretrizes da American Cancer Society. (O ACOG está considerando adotar a mesma postura, mas ainda recomenda o início do rastreamento aos 21 anos.)

"A maioria das pacientes não precisa do exame, mesmo quando se trata de saúde sexual e rastreamento de doenças sexualmente transmissíveis, isso pode ser feito sem o exame pélvico", disse Dra. Patricia.

Confidencialidade e conforto

Na outra ponta do encaminhamento, os ginecologistas devem adotar várias “melhores práticas” para atender essas adolescentes. Provavelmente, a parte mais importante da consulta ginecológica inicial é dar às pacientes a opção ficar a sós com o médico, sem a presença dos pais no consultório. Neste momento, o médico deve deixar claro que o que for conversado ali é confidencial, e não será compartilhado com os pais ou responsável pela paciente, disse a Dra. Patricia. As pacientes também devem ter a opção de levar um amigo ou outra pessoa, que não seja um dos pais, para esta consulta, particularmente se não estiver confortável para conversar sobre temas sensíveis inteiramente sozinha.

As adolescentes recebem um atendimento melhor, se abrem mais e percebem que estão sendo mais bem atendidas quando o processo é confidencial, disse a Dra. Mary. No entanto, a confidencialidade tem limites, que os médicos também devem se certificar de que suas pacientes compreendam, de acordo com as diretrizes do ACOG para a consulta reprodutiva inicial. Nos EUA, estas limitações podem variar de estado para estado, dependendo das questões relacionadas com notificações compulsórias, faturamento para planos de saúde e requisitos legais de notificações das pacientes para procedimentos específicos, como o abortamento.

O uso dos prontuários eletrônicos tem trazido novos desafios quando se trata de comunicação confidencial com as pacientes adolescentes, disse Dra. Anne-Marie. Em seu consultório, a médica busca assegurar que é a adolescente que tem as informações de login para acessar seu prontuário e os resultados dos exames. Caso contrário, seu consultório terá o número do celular da paciente para enviar mensagens de texto ou telefonar diretamente para ela.

A gente defende que as adolescentes devem poder acessar os serviços de saúde reprodutiva, de saúde mental e de transtornos do abuso de substâncias químicas sem a necessidade de avisar os pais, disse Dra. Anne-Marie.

As teleconsultas também podem ser oportunas na primeira consulta ginecológica. Dar tempo de estabelecer uma relação afinidade com as pacientes no início da consulta é fundamental, disse Dra. Patricia. Fazer perguntas diretamente à paciente adolescente em vez de aos pais, disse ela, demonstra que, antes tudo e acima de qualquer coisa, a médica está lá para tratar as necessidades da adolescente.

O ACOG tem diretrizes para as outras etapas da prática ginecológica, inclusive os consultórios que atendem tanto adultas como adolescentes, para tornar esses ambientes mais acolhedores para as adolescentes. As etapas englobam perguntar como as pacientes desejam ser chamadas no início da consulta ou, como parte da ficha de informações iniciais, treinar os funcionários para que se sintam confortáveis com questões relacionadas com a sexualidade da adolescente e com a diversidade sexual e de gênero de pacientes, oferecer um local de espera separado para as adolescentes e as pacientes obstétricas, e oferecer um material de leitura adequado para as adolescentes se informarem sobre saúde reprodutiva.

Após essa primeira consulta ginecológica, ginecologistas e médicos do atendimento primário também devem trabalhar juntos para assegurar que toda a saúde das suas pacientes esteja sendo atendida, disse Dra. Patricia.

"A colaboração sempre será melhor para as pacientes, em qualquer área", disse Dra. Mary, "e certamente na nossa especialidade isso não é diferente".

As Dras. Anne-Marie Amies Oelschlager, Mary Romano e Patricia Huguelet informaram não ter conflitos de interesses.

Jillian Mock é jornalista freelancer, especializada em ciências. Mora nos EUA. Escreve sobre saúde, alterações climáticas e meio ambiente. Seu trabalho já foi publicado em veículos como The New York Times, Audubon Magazine e Scientific American.

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