Pesquisa investiga relação entre apneia obstrutiva do sono e níveis de antígeno prostático específico

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

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4 de janeiro de 2022

Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Instituto do Sono estão conduzindo um estudo para avaliar as consequências da apneia obstrutiva do sono no antígeno prostático específico (PSA, do inglês Prostate-Specific Antigen), um biomarcador tumoral usado para rastrear o câncer de próstata. Em uma revisão publicada no European Journal of Cancer Prevention[1] o grupo reúne dados que indicam uma possível associação entre esses fatores e destacam a necessidade de mais estudos sobre o tema.

A pesquisa, que está em fase inicial, utiliza dados da 4ª edição do estudo Epidemiológico do Sono (EPISONO ), conduzida entre 2018 e 2019 e que envolveu 736 participantes. Coordenado pelo médico Dr. Sergio Tufik, presidente do Instituto do Sono e professor titular da Unifesp, pela biomédica Monica Andersen, Ph.D., diretora de ensino e pesquisa do Instituto do Sono e professora livre-docente do Departamento de Psicobiologia da Unifesp, e pelo biomédico Gabriel Pires, Ph.D., pesquisador do Instituto do Sono, o trabalho está sendo desenvolvido como projeto de pesquisa de doutorado do biólogo Allan Porcacchia, no Departamento de Psicobiologia da Unifesp.

Segundo Allan, estudos recentes têm mostrado que homens com apneia obstrutiva do sono têm mais risco de câncer de próstata. “Um estudo de metanálise publicado por Cheng e colaboradores no periódico Sleep Medicine em 2021 [2] mostrou que a incidência de câncer de próstata foi de 1,1% entre pacientes com apneia obstrutiva do sono; a mais alta em comparação a outros tipos de tumores malignos avaliados. Outro estudo, publicado no periódico Medicine [3] em 2021 por dois pesquisadores sul-coreanos e um norte-americano, mostrou que homens com apneia obstrutiva do sono tiveram um risco 1,34 vezes maior de apresentar câncer de próstata em comparação a homens sem esse distúrbio de sono. Para esse estudo, foram considerados dados de 152.801 homens diagnosticados com apneia do obstrutiva do sono entre 2007 e 2014 e de 764.005 indivíduos sem o distúrbio de sono”, explicou o pesquisador em entrevista ao Medscape.

Os mecanismos envolvidos nessa possível associação ainda precisam ser esclarecidos, no entanto, de acordo com Allan, cientistas têm levantado algumas hipóteses, dentre as quais, uma relacionada aos processos inflamatórios. “Indivíduos que têm apneia obstrutiva há anos sem o tratamento adequado tendem a apresentar um estado de inflamação crônica no organismo, sendo essa uma característica relacionada ao nicho de muitos tumores malignos. Células tumorais podem utilizar fatores pró-inflamatórios e até mesmo recrutar células relacionadas à inflamação para sua manutenção e o crescimento tumoral”, explicou o biólogo.

Outra hipótese está relacionada à redução da eficiência de respostas do sistema imune. “A apneia obstrutiva do sono afeta a qualidade do sono, uma vez que faz a pessoa despertar ao longo da noite, além de alterar os estágios de sono, diminuindo tanto a duração de episódios de sono REM e sono não REM como a ocorrência considerada normal desses estágios. Ao longo dos anos, isso altera a homeostase do organismo, seu equilíbrio de funcionamento fisiológico interno, e poderia diminuir a eficiência de respostas imune, incluindo a capacidade de reconhecimento de elementos que podem fazer mal ao organismo”, afirmou o pesquisador, acrescentando que outra possível explicação para a associação entre esse distúrbio do sono e o câncer diz respeito à oxigenação dos tecidos. “Na apneia obstrutiva do sono, ocorrem pausas respiratórias intermitentes durante a noite, o que pode diminuir a concentração de oxigênio no sangue e, consequentemente, nos tecidos. A hipóxia pode servir como elemento para modular o metabolismo de células tumorais, auxiliando em seu desenvolvimento e crescimento”, destacou, lembrando que podem existir outras explicações fisiológicas ainda não delimitadas.

Uma pergunta central que, segundo o Dr. Sergio, ainda precisa ser respondida é se a privação de sono e/ou a dessaturação de oxigênio que ocorre na apneia obstrutiva altera os níveis de PSA ou se está diretamente associada ao surgimento de câncer de próstata.

Para o projeto de pesquisa, os autores estão trabalhando com uma subamostra de homens entre 20 e 80 anos de idade que foram ou não diagnosticados com apneia obstrutiva do sono a partir de polissonografia. “Na análise desse projeto serão usados dados de concentrações sanguíneas de alguns hormônios, como testosterona, estradiol, cortisol e insulina, e de citocinas pró-inflamatórias, além dos níveis de PSA. A idade e o índice de massa corporal (IMC) também serão levados em conta nos modelos estatísticos que serão desenvolvidos, contando com métodos descritivos e técnicas multivariadas de análise estatística. A previsão é que até 2023 tenhamos os resultados”, explicou o doutorando da Unifesp.

Uma vez comprovada a associação entre apneia obstrutiva do sono e níveis de PSA, outro passo, segundo o Dr. Sergio, é investigar se o distúrbio do sono seria o responsável pelas alterações nos níveis de PSA. Para isso, poderia ser conduzido um estudo reverso avaliando se o PSA diminui em pessoas que fazem o tratamento para a apneia obstrutiva do sono com terapia de pressão positiva contínua nas vias respiratórias (CPAP, sigla do inglês Continuous Positive Airway Pressure). “Essa é a grande prova de que é realmente esse distúrbio de sono que causa a alteração observada. Nesse cenário, apneicos teriam resultado de PSA mais elevado e quem faz tratamento com CPAP teria menores níveis de PSA”, explicou o médico ao Medscape.

Para o Dr. Sergio, se houver comprovação dos efeitos da apneia obstrutiva do sono sobre os níveis de PSA, isso reforçará ainda mais a importância do acompanhamento tratamento adequados com um médico do sono. Além disso, destacou, será importante que urologistas e oncologistas passem a solicitar que seus pacientes realizem a polissonografia para possível diagnóstico de apneia obstrutiva do sono. “Caso esse distúrbio do sono seja realmente um fator de risco de câncer de próstata (algo que deve ser verificado por estudos futuros), o Sistema Único de Saúde (SUS) deverá considerar incluir a polissonografia e o tratamento com CPAP dentro do escopo de serviços oferecidos à população”, destacou o médico, explicando que, embora a polissonografia já esteja no rol de procedimentos do SUS, o custo do exame dificulta a sua realização: “o valor ainda é inviável e não paga nem mesmo os custos de hotelaria para a realização dos exames”, pontuou.

Segundo o especialista, ainda são poucas as pessoas que conhecem a apneia obstrutiva do sono e que buscam tratamento adequado na presença dos sinais e sintomas da doença – ronco intenso e frequente, pausas da respiração durante o sono, engasgos noturnos, respirar de boca aberta, acordar com frequência e sono inquieto, sonolência excessiva diurna, sono não reparador e hipertensão arterial. Para o Dr. Sergio, os resultados desse estudo poderão reforçar ainda mais a importância de se cuidar do sono.

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