O impacto da pandemia nos pacientes com transtorno bipolar: uma revisão internacional

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

Notificação

27 de dezembro de 2021

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2.

De acordo com uma revisão de escopo que avaliou o impacto da pandemia de covid-19 em pessoas com transtorno bipolar, esta população de pacientes é de fato mais vulnerável do que a população geral.

O estudo, publicado no segundo semestre de 2021 no Journal of Affective Disorders, [1]  foi conduzido por pesquisadores europeus, asiáticos, africanos e americanos, dentre os quais, brasileiros da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc).

O primeiro autor da pesquisa, Dr. Michele Fornaro, psiquiatra e professor da Università degli Studi di Napoli Federico II, na Itália, falou ao Medscape sobre o trabalho.

Para o estudo, os autores realizaram uma busca sistemática nos bancos de dados MEDLINE e Embase por trabalhos sobre o tema publicados até abril de 2021. A amostra final reuniu 14 estudos realizados na Europa, América no Norte, Oceania e em duas regiões distintas (Europa e África). Quanto ao desenho dos estudos incluídos na revisão, seis eram transversais, três eram estudos de coorte prospectivos, um de coorte retrospectivo, um caso-controle e três eram relatos ou séries de casos.

Os autores identificaram quatro temas prevalentes nas pesquisas avaliadas:

  1. o impacto dos estressores relacionados com a covid-19 em pessoas com transtorno bipolar;

  2. o impacto da covid-19 na utilização de serviços psiquiátricos por parte de pessoas com transtorno bipolar;

  3. o impacto do transtorno bipolar no risco de infecção pelo SARS-CoV-2; e

  4. a adesão a medidas preventivas por pessoas com transtorno bipolar.

O grupo de pesquisa observou que a literatura avaliada não traz evidências de piora na função global ou no bem-estar de pessoas com transtorno bipolar durante a pandemia versus antes da pandemia. Os autores também não identificaram piores desfechos na população bipolar em comparação com pessoas com transtorno depressivo. Por outro lado, em comparação com controles saudáveis, as pessoas com transtorno bipolar apresentaram uma tendência oposta.

Lembrando que o transtorno bipolar é um fator de risco de suicídio bem estabelecido, o Dr. Fornaro observou que flutuações nas taxas de suicídio têm chamado atenção. [2]

“Embora amplamente inesperado por muitos médicos e especialistas em saúde pública, a maioria das evidências disponíveis é concordante em excluir um aumento constante nas taxas de suicídio desde a propagação das pandemias”. Para ele, em comparação com o período pré-pandêmico, é um fato que as taxas de suicídio aumentaram e depois diminuíram de forma repentina. Dr. Fornaro acrescenta que tendências semelhantes foram documentadas em todo o mundo com relação a resultados não suicidas – mas ainda graves – para pessoas com diferentes doenças mentais graves, incluindo o transtorno bipolar.

Para o médico, os resultados da revisão em tela não permitem chegar a uma conclusão sobre a “piora” ou “melhora” dos sintomas do transtorno bipolar desde o início da pandemia de covid-19. “Minha opinião é que a maioria dos pacientes com doença mental grave tinha menos probabilidade de ser vulnerável à própria experiência do covid-19, possivelmente porque já estavam cronicamente expostos ao estresse. Assim, eles foram capazes de lidar com o estresse ou ficaram menos vulneráveis. Esta é apenas uma das muitas teorias avaliadas na literatura”, pontuou, explicando que essa análise é complicada, especialmente na ausência de coortes prospectivas bem planejadas.

Apesar da hipótese de os pacientes com transtorno bipolar serem menos vulneráveis aos estressores da pandemia, o Dr. Fornaro destacou que o quadro de alguns pacientes com doença psiquiátrica grave ainda pode deteriorar em longo prazo por causa da redução da probabilidade/desejo de busca por atendimento/acompanhamento médico ou aquisição de medicamentos de ação prolongada no contexto pandêmico.

“Isolamento social e menor utilização de recursos e instalações para pessoas que não sejam casos agudos de covid-19 é um assunto bem documentado, já relatado também para pessoas sem doença mental grave, mas com infarto do miocárdio ou problemas oncológicos”, exemplificou.

Na revisão em tela, no entanto, os autores observaram ausência de evidências acerca do impacto da pandemia na utilização de serviços psiquiátricos por parte de pessoas com transtorno bipolar.

Em relação ao risco de infecção pelo SARS-CoV-2, o grupo identificou que, em comparação com a população geral, o risco global de infecção foi maior entre os pacientes com transtorno bipolar. Dentre estes pacientes, as mulheres afro-americanas tiveram mais chances de testar positivo. De acordo com o Dr. Fornaro, a explicação para esse último aspecto não é biológica, mas provavelmente social e relacionada ao fato de esta população ter menos acesso a cuidados de saúde preventivos adequados. O autor destacou, no entanto, que esses achados foram baseados em um único estudo, que contou com uma pequena amostra de mulheres afro-americanas. [3]

Quanto à adesão a medidas de prevenção, os autores observaram que, de modo geral, o comprometimento com a causa por parte das pessoas com transtorno bipolar foi maior do que o das pessoas com esquizofrenia. Eles pontuaram a falta de dados em relação à probabilidade de pessoas com e sem transtorno bipolar receberem a vacina anticovídica.

Para o Dr. Fornaro, a revisão em tela serve de alerta para a necessidade de mais pesquisas sobre o tema, visto que expõe o fato de muitos pontos ainda não terem sido contemplados. O médico afirmou que é preciso agregar mais dados, por exemplo, inclusive de outras regiões além da Europa e da América do Norte.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....