COMENTÁRIO

Reanimação cardiorrespiratória dentro do hospital não segue diretrizes de conduta

Dr. Mauricio Wajngarten

Notificação

8 de dezembro de 2021

Confesso que atualmente não atendo a paradas cardíacas em pacientes hospitalizados. As equipes são bem treinadas para isso. Tenho que estudar o tema anualmente para renovar o meu cadastro nos hospitais em que atuo. Fiquei surpreso com um dado publicado recentemente no periódico British Medical Journal: mais de 25% das manobras de reanimação cardiopulmonar em pacientes hospitalizados aplicadas em decorrência de parada cardíaca causada por arritmia ventricular não respeitam as recomendações das diretrizes, com repercussões negativas na sobrevida.

O estudo

Os dados são provenientes de um estudo que incluiu informações de 497 hospitais participantes do registro Get With The Guidelines ® -Resuscitation (GWTG-R) da American Heart Association, obtidos entre 2000 e 2018. Foram considerados quase 35 mil adultos hospitalizados que sofreram parada cardíaca devido a um ritmo inicial tratado com desfibrilação.

Ao contrário do recomendado pelas diretrizes, 27,6% dos pacientes receberam epinefrina antes da desfibrilação. Estes, em comparação aos tratados primeiramente com desfibrilação, tiveram menor probabilidade de apresentar história de infarto do miocárdio ou insuficiência cardíaca e maior probabilidade de apresentar insuficiência renal, sepse, pneumonia e receber ventilação mecânica antes da parada cardíaca.

Os resultados mostraram que:

  • O tratamento com epinefrina antes da desfibrilação foi fortemente associado ao retardo da desfibrilação (mediana de 3 minutos).

  • Na análise de propensão combinada, a epinefrina antes da desfibrilação foi associada a menor chance de sobrevivência ou de alta hospitalar (25,2% vs. 29,9%); sobrevida neurológica favorável (18,6% vs. 21,4%); sobrevida após reanimação aguda (64,4% vs. 69,4%).

Implicações

Sou defensor da individualização das condutas dentro da aplicação cautelosa das recomendações das diretrizes, porém, no processo de reanimação é adequado simplesmente seguir a “receita do bolo”.

As diretrizes recomendam desfibrilação imediata em caso de parada cardíaca hospitalar devido a um ritmo inicial de fibrilação ventricular (ou taquicardia ventricular sem pulso). A epinefrina (adrenalina) é recomendada apenas em caso de fibrilação ventricular refratária ou taquicardia ventricular sem pulso após muitas tentativas de desfibrilação

O estudo mostrou que, apesar das fortes recomendações das diretrizes, mais de um em cada quatro pacientes com parada cardíaca hospitalar devido a fibrilação ventricular ou taquicardia ventricular sem pulso são tratados com epinefrina antes da primeira desfibrilação, o que tem repercussões negativas na sobrevida.

Deve ser ressaltado que, embora os ritmos passíveis de choque representem < 20% de todas as paradas cardíacas hospitalares, a probabilidade de sobrevivência desse tipo de paciente é três a quatro vezes maior do que a de pacientes com ritmo não passível de choque, especialmente se o choque for dado sem demora.

O artigo enfatiza é a necessidade de aprimorar ainda mais a capacitação para a reanimação de pacientes hospitalizados.

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