Brasileiros criam ferramenta para avaliar risco de morte por covid-19 em receptores de transplante renal

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

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8 de dezembro de 2021

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Pesquisadores brasileiros desenvolveram e validaram uma ferramenta para estratificar de forma simples o risco de morte de pacientes com história de transplante renal diagnosticados com covid-19, a pontuação ImAgeS.

O recurso permite que apenas com uma ligação telefônica os médicos determinem se há necessidade de comparecimento ao centro transplantador para uma avaliação mais minuciosa. O modelo consegue prever a evolução do paciente sem a necessidade de dados laboratoriais.

Elaborada a partir de dados do Grupo de estudos brasileiro de covid-19 em transplante renal, a pesquisa que culminou na criação da ImAgeS foi publicada em setembro no periódico AmericanJournal of Transplantation.[1]

Em entrevista ao Medscape, um dos autores do estudo, o Dr. Lúcio Requião, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), médico da Unidade de Transplante Renal do Hospital Israelita Albert Einstein, comentou sobre os detalhes do trabalho.

O estudo reuniu dados de 1.379 pacientes registrados em 35 centros de transplante renal no Brasil, que foram diagnosticados com SARS-CoV-2 entre março e outubro de 2020. A infecção foi confirmada via teste por reação em cadeia da polimerase (PCR, sigla do inglês Polymerase Chain Reaction).

Segundo o Dr. Requião, o grupo utilizou aprendizagem de máquina (machine learning) para desenvolver o modelo. Os autores encontraram uma taxa de óbito em 28 dias de 17% (N = 235).

De acordo com o entrevistado, a equipe identificou que a letalidade da covid-19 é maior entre receptores de transplante renal do na população geral, que fica em torno de 2% a 5%. “Isso reflete que, de fato, parece ser uma população muito mais vulnerável a ter desfecho desfavorável. As taxas de hospitalização, de necessidade de ventilação mecânica e de óbito são maiores entre os pacientes transplantados, mesmo eles sendo, em média, mais jovens do que os pacientes que são hospitalizados por covid-19 no Brasil”, disse o pesquisador, explicando que a média de idade dos pacientes com história de transplante renal hospitalizados por infecção pelo SARS-CoV-2 é de 45 a 50 anos, enquanto a da população geral é de 60 anos.

A análise revelou ainda que idade avançada, presença de hipertensão, doença cardiovascular, índice de massa corporal (IMC) elevado, dispneia e uso de alguns imunossupressores (ácido micofenolato e azatioprina) foram fatores associados a alto risco de morte por covid-19; por outro lado, maior função do enxerto renal, mais tempo de sintomas até o diagnóstico de covid-19, presença de anosmia ou coriza e uso de inibidor da proteína alvo da rapamicina em mamíferos (mTOR) foram associados a baixo risco de morte pela doença.

Essas variáveis foram então utilizadas pela equipe para a construção do modelo preditor.

Na primeira etapa, o grupo treinou a ferramenta usando uma parte da amostra de pacientes (N = 1.035) e, na sequência, realizou a validação interna com o restante dos participantes (N = 344). O passo seguinte foi a realização de uma análise discriminatória que alcançou uma área sob a curva (AUC, do inglês área under the curve) ROC de 0,767. "Encontramos um valor superior ao de escores preditivos para pacientes com covid-19 publicados na população de não transplantados", afirmou o médico, lembrando que o modelo final foi comparado com CHA2DS2-VASc, com um modelo clínico desenvolvido em Wuhan, cidade chinesa onde o SARS-CoV-2 foi inicialmente identificado, e com o COVID SEIMC score. [2,]

Segundo o Dr. Requião, a ideia era desenvolver uma pontuação que pudesse utilizar apenas informações coletadas em um telefonema. Ele explicou que, ao fazer o contato telefônico, a equipe pergunta “o que o paciente está sentindo, há quantos dias, qual medicamento está tomando e quanto foi sua última creatinina, por exemplo.” Em posse dessas informações, os dados são inseridos no aplicativo, que gera uma probabilidade de morte, um risco relativo, “que vai ajudar a definir se é necessário que o paciente vá ao centro transplantador (...) ou se pode ser manejado em casa”.

Para o especialista, uma das principais vantagens da ImAgeS, que está disponível gratuitamente na internet, é justamente o fato de poder ser aplicada com base em informações facilmente obtidas em uma conversa ao telefone. “Conseguimos fazer uma estimativa antes de o paciente estar grave para o quão grave ele pode evoluir, sem precisar de exame laboratorial. Com isso, conseguimos dar um direcionamento melhor para o caso através da telemedicina”, destacou.

Quanto aos desafios, o Dr. Requião explicou que agora é necessário validar a ferramenta para os pacientes com história de transplante renal que pegaram covid-19 apesar de terem sido vacinado contra o vírus. Isso porque a ferramenta foi implementada antes da vacinação se consolidar no país. Segundo o médico, esse passo é especialmente importante, porque pacientes transplantados, principalmente de rim, têm baixa resposta vacinal.

“Já temos uma coorte grande de pacientes vacinados e continuamos reunindo dados de transplantados vacinados que tiveram covid-19. Assim, provavelmente, em breve, teremos um número de pacientes suficiente para poder colocar a vacina como uma variável no modelo preditor e ajustá-lo”, disse.

Atualmente, a ferramenta fornece um risco relativo de óbito, e cabe ao médico interpretar até que ponto a taxa indicada é aceitável. No entanto, estudos futuros, tal como o de validação externa (que deve ser conduzido em uma coorte diferente da utilizada para o desenvolvimento da ferramenta) e de calibração poderão estabelecer pontos de corte, indicando valores de risco considerados inaceitáveis.

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