Covid-19: métodos de testagem na população pediátrica

Roxana Tabakman

Notificação

7 de dezembro de 2021

A volta às aulas no Brasil foi acompanhada de um aumento de quadros respiratórios fora do padrão sazonal do país. O Boletim InfoGripe – Semana Epidemiológica 46 2021 (14 a 20 de novembro) mostra um significativo crescimento de casos de vírus sincicial respiratório, rinovírus, adenovírus, bocavírus e parainfluenza 3 e 4 entre crianças de 0 a 9 anos de idade. [1]

“Como ficaram em isolamento, criou-se um pool maior de crianças suscetíveis às infecções respiratórias que acontecem anualmente. Há quadros virais represados e, se a cada sintoma respiratório a gente for colher uma suspeita clínica de covid-19, vamos colher semanalmente nessas crianças”, disse ao Medscape o Dr. Renato Kfouri, infectologista especializado em pediatria, membro da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

O médico avalia que seria bom aumentar a testagem para a infecção pelo SARS-CoV-2, “porque há uma vigilância a ser feita, especialmente no cenário com a variante Ômicron”, e afirma que os testes de saliva “ajudam muito na pediatria”, visto que são menos traumáticos do que o swab nasofaríngeo.

“Com as crianças que voltaram ao ensino presencial, é preciso entender o que está acontecendo naquele ambiente. Levar um profissional de saúde para fazer o swab nasofaríngeo, além de ser mais invasivo, fica complicado. Quando a coleta é simples, é possível propor e implementar esquemas de vigilância de casos, sobretudo para essa faixa de população que ainda não está sendo vacinada”, disse o Dr. Paulo H. Braz-Silva, pesquisador do Instituto de Medicina Tropical (IMT) e da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP), autor correspondente de um estudo realizado na cidade de Araraquara que avaliou o uso da saliva na detecção molecular do SARS-CoV-2 em crianças e adolescentes. [2]

“Se a gente quer fazer uma vigilância adequada, que é o que a Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza, e pensar que o teste de coleta de secreção nasofaríngea em crianças é algo desagradável, especialmente se tem de repetir com frequência, porque é importante fazer a investigação de quadros respiratórios, com certeza o teste por reação em cadeia da polimerase (PCR, sigla do inglês Polymerase Chain Reaction) na saliva é muito mais tranquilo e as crianças vão aceitar mais”, concordou a Dra. Maria Isabel de Moraes Pinto, professora associada da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e consultora em vacinas da empresa Dasa.

A Dra. Maria Isabel comentou que, nos estudos realizados com adultos, a sensibilidade dos testes feitos em amostras de saliva foi de aproximadamente 90% em comparação com a dos testes que utilizaram amostras de secreção nasofaríngea, que é o padrão-ouro. “É bom lembrar que, mesmo na amostra da secreção nasofaríngea, a detecção do SARS-CoV-2 por PCR não é de 100%”.

Até o momento, poucas pesquisas compararam a sensibilidade associada ao uso de amostras de saliva ou nasofaríngea em testes PCR. “A literatura já tinha mostrado um número razoável de trabalhos mostrando a eficiência da saliva para diagnosticar o SARS-CoV-2 em adultos, e nós já tínhamos também uma pesquisa nesse grupo, mas em crianças tinha pouquíssima coisa”, disse o Dr. Paulo.

Dois estudos recentes, um realizado em Dubai com 476 crianças e o outro em Los Angeles com 300 crianças, mostraram taxas similares de detecção do SARS-CoV-2 tanto em amostras de saliva como nasofaríngeas. [3,4] Mas um trabalho realizado em Singapura apresentou resultados conflitantes. [5]

O estudo realizado em Araraquara, São Paulo, que contou com a participação de profissionais do IMT, Laboratório de Virologia do Hospital das Clínicas, o Serviço Especial de Saúde de Araraquara e a FOUSP e da Universidade Estadual da Paraíba, mostrou o mesmo desempenho diagnóstico dos testes feitos em amostras de saliva em comparação com o dos testes que utilizaram amostras de secreção nasofaríngea. O estudo analisou apenas 50 crianças (10,24 ± 3,52 anos), todas sintomáticas.

“Precisamos de estudos de tamanho amostral maior para poder dizer ‘vale a pena usar saliva’, mas tudo indica que sim, é muito promissora. E pensar fazer um trabalho em grandes populações com amostra da secreção nasofaringe é muito mais difícil porque nem sempre as pessoas aceitam”, concluiu a Dra. Maria Isabel.

PCR ou antígeno?

Os especialistas consultados pelo Medscape em português estão de acordo em relação à predileção pelas amostras de saliva na população pediátrica, mas quando o assunto é o método de testagem, há divergências.

“O que pode se indicar com respaldo na literatura é PCR e LAMP. Para antígeno, a questão da saliva ainda precisa de mais estudo”, afirmou o Dr. Paulo. Mesmo assim, para o teste por PCR a sensibilidade só é boa se a coleta da amostra for precoce, porque a carga viral começa a cair por volta do sétimo dia, ou seja, quanto mais curto for o período desde o início dos sintomas melhor. “Dos testes de antígeno é mais difícil analisar, porque cada kit tem um tipo diferente de sensibilidade, não tem muita informação e, quando há, as informações são desencontradas.”

O Dr. Renato tem uma visão diferente. “Na prática, o melhor teste de saliva e o que tem resultado rápido, ou seja, os testes de antígeno que oferecem o resultado em 15 a 20 minutos. Frente a um caso suspeito, a informação imediata permite tomar iniciativas de isolamento e rastreio de contactantes. Os testes por PCR demoram até 48 horas, neste tempo a pessoa já circulou e infectou muita gente.”

O Dr. Renato afirmou que a maioria dos países usam testes de antígeno em função da rapidez do resultado, destacando que a sensibilidade desses testes melhorou muito: “dependendo da marca, há sensibilidade de 60%, 70%, 80%, 90%”. Ele reconhece que o PCR permite identificar se a variante do SARS-CoV-2 responsável pela infecção é Delta ou Ômicron, “mas esse sequenciamento não tem utilidade clínica”.

Com o avanço da vacinação em jovens e adultos, a infecção pediátrica tem cada vez mais peso. “Há um desvio proporcional, não absoluto, de casos de covid-19 para as crianças”, destacou o Dr. Renato.

“Do Brasil não temos o número, mas nos EUA, crianças e adolescentes representam quase 15% a 20% dos casos diagnosticados atualmente. Eram menos de 1%.”

Os Drs. Renato Kfouri, Paulo H. Braz-Silva e a Dra. Maria Isabel de Moraes Pinto informaram não ter conflitos de interesses.

Roxana Tabakman é bióloga, jornalista freelancer e escritora residente em São Paulo, Brasil. Autora dos livros A Saúde na Mídia, Medicina para Jornalistas, Jornalismo para Médicos (em português) e Biovigilados (em espanhol). A acompanhe no Twitter:  @roxanatabakman .

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