Uso de Cannabis na gravidez pode causar ansiedade e hiperatividade na prole

Diana Swift

Notificação

6 de dezembro de 2021

Uso de Cannabis durante a gestação pode aumentar o risco de disrupção das redes genéticas relacionadas ao sistema imunológico na placenta e da possibilidade de ansiedade e hiperatividade na prole.

Essess achados são provenientes de um estudo publicado on-line no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences, que foi liderado pela Dra. Yasmin Hurd, Ph.D., professora de psiquiatria e diretora do Addiction Institute na Icahn School of Medicine no Monte Sinai, e pela Dra. Yoko Nomura, Ph.D., professora de neurociência comportamental no Queen's College, City University of New York, ambas instituições nos Estados Unidos.

A análise avaliou os efeitos do uso de Cannabis durante a gestação em crianças de idade pré-escolar por meio de parâmetros psicossociais e fisiológicos, bem como o efeito potencialmente imunomodulatório no ambiente uterino conforme representado no transcriptoma placentário.

Os participantes foram retirados de uma coorte maior, de um estudo iniciado em 2012; os pesquisadores avaliaram a prole de três a seis anos de idade para níveis hormonais capilares, traços neurocomportamentais no Behavioral Assessment System for Children e variabilidade da frequência cardíaca em repouso e durante estímulo auditivo (reflexo acústico).

A coorte foi composta de 322 pares mãe-filho, e as crianças com exposição pré-natal à Cannabis foram comparadas com aquelas que não sofreram a mesma exposição.

A coorte contou com 251 mães que não usam Cannabis e 71 mães usuárias de Cannabis; com média de idade de 28,46 anos e 25,91 anos, respectivamente. Os bebês nasceram no Mount Sinai e as mães e seus filhos foram avaliados anualmente em serviços de saúde afiliados na área de captação do Mount Sinai.

Para um subconjunto de crianças com avaliações comportamentais, amostras placentárias coletadas ao nascer foram processadas para o sequenciamento de RNA.

Entre os achados:

  • O uso materno de Cannabis foi associado a idade materna e paterna mais jovem, mais gestações de mães solteiras, quadro de ansiedade, traços de ansiedade, depressão, tabagismo e raça afro-americana.

  • A análise capilar de hormônios revelou aumento dos níveis de cortisol nos filhos de mães que usaram Cannabis, e foi associado a mais ansiedade, agressão e hiperatividade.

  • As crianças afetadas apresentaram redução do componente de alta frequência da variabilidade de frequência cardíaca na linha de base, refletindo tônus vagal reduzido.

  • Na placenta, houve redução da expressão de muitos genes envolvidos na função do sistema imunológico. Estes incluíram genes para as vias de interferon tipo I, neutrófilos e vias de sinalização por citocinas.

Vários genes se organizaram em redes de coexpressão que se correlacionam com a ansiedade infantil e a hiperatividade.

O principal componente ativo da Cannabis, o tetraidrocanabinol (THC, do inglês TetraHydroCanabinol), tem como alvo o sistema endocanabinoide no tecido placentário e no cérebro em desenvolvimento, observaram os autores. A exposição durante a gravidez está associada a uma série de desfechos adversos, que vão desde a restrição do crescimento fetal até o baixo peso ao nascer e o nascimento prematuro.

"Existem receptores canabinoides em células imunes, e sabe-se que os canabinoides podem alterar a função imunológica, o que é importante para manter a tolerância materna e proteger o feto", disse Dra. Yasmin. "Não é surpresa que algo que afete as células imunes possa ter um impacto no feto em desenvolvimento."

"No geral, nossos achados revelam uma relação entre o uso de Cannabis pela mãe e as redes genéticas de resposta imune na placenta como um potencial mediador do risco de problemas relacionados à ansiedade na idade pré-escolar", escreveram Dra. Yasmin e colegas, acrescentando que os resultados têm implicações significativas para a definição de problemas psiquiátricos nas crianças gestadas por mães usuárias de Cannabis.

Os resultados estão alinhados com pesquisas anteriores que indicam maior risco de doença psiquiátrica em crianças com exposição à Cannabis pré-natal por uso materno.

"Embora os dados sejam bastante limitados em relação a este assunto, existem outros estudos demonstrando relação entre os parâmetros de desenvolvimento infantil e comportamentais, e o uso de Cannabis durante a gravidez", disse em uma entrevista a Dra. Camille Hoffman, médica especialista em obstetrícia de alto risco e professora associada da University of Colorado at Denver, nos EUA. "Nosso grupo de pesquisa descobriu que crianças expostas à Cannabis a partir da 10ª semana de gestação foram menos interativas e mais isoladas socialmente do que as crianças que não foram expostas."

E o THC permanece no leite materno até seis semanas após a cessação do uso de Cannabis.

Os efeitos em longo prazo da exposição à Cannabis pré-natal ainda não foram determinados, e não se sabe se os efeitos do uso de THC durante a gestação podem atenuar à medida que a criança cresce.

"Usamos parâmetros da fase pré-escolar na pesquisa como proxy para o desenvolvimento posterior de doenças psiquiátricas ou problemas comportamentais", explicou a Dra. Camille.

"Ao fazermos isso, sabemos que nem todas as crianças com pontuação inicial alterada irão de fato desenvolver uma doença. Feliz ou infelizmente outros fatores e exposições durante a infância podem mudar a trajetória para melhor ou pior."

Segundo Dra. Yasmin, o desenvolvimento infantil é um processo dinâmico e eventos epigenéticos no útero não precisam ser determinantes. "O importante é identificar crianças em risco precocemente e tentar melhorar o ambiente em que estão sendo criadas – não em termos de empobrecimento, mas em termos de um ambiente acolhedor ao desenvolvimento infantil – e dar apoio à mãe e à família."

No pré-natal, qual é o melhor conselho para as futuras mães que usam Cannabis? "Se a mulher não sabia que estava grávida e usou Cannabis, tomar colina pelo resto da gestação pode ajudar a neutralizar o potencial impacto negativo da exposição à Cannabis", disse a Dra. Camille. A Food and Drug Administration (FDA) dos EUA e a American Medical Association recomendam 550 mg por dia. "O mesmo acontece com o álcool, que sabemos que também é muito ruim para o desenvolvimento do cérebro fetal. Isso significa ‘vá em frente, use essas substâncias e apenas tome colina’. A colina é mais para tentar reduzir os danos ao cérebro fetal que podem já ter ocorrido."

O estudo foi apoiado pelos National Institute of Mental Health e National Institute on  Drug Abuse dos EUA. Os autores e a Dra. Camille informaram não ter conflitos de interesses.

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