Adultos também podem sofrer de depressão devido ao uso de mídias sociais, sugere estudo

Heidi Splete

Notificação

6 de dezembro de 2021

As emoções negativas decorrentes do envolvimento dos adolescentes com as mídias sociais estão ganhando as manchetes; entretanto, adultos também podem sofrer de depressão devido ao uso dessas ferramentas, sugere um novo estudo.

O uso de mídias sociais tem sido associado a aumento da ansiedade, depressão e redução do bem-estar entre adolescentes e adultos jovens, mas associações semelhantes em pessoas mais velhas ainda não foram bem estudadas, e faltam dados longitudinais a respeito, segundo o Dr. Ron H. Perlis, médico do Massachusetts General Hospital, nos Estados Unidos, e seus colegas escreveram em um artigo publicado no periódico JAMA Network Open.

Para examinar a associação entre o uso de mídias sociais e sintomas depressivos em adultos, os pesquisadores revisaram dados de 13 ondas de uma pesquisa na internet realizada mensalmente entre maio de 2020 e maio de 2021.

No estudo, os pesquisadores analisaram as respostas de 5.395 indivíduos a partir de 18 anos (média de idade de 56 anos). De acordo com os parâmetros do Patient Health Questionnaire (PHQ-9), os participantes não apresentavam sintomas depressivos ou tinham sintomas discretos ao início do estudo.

No total, 8,9% dos entrevistados indicaram piora ≥ 5 pontos no PHQ-9 em uma pesquisa de acompanhamento, o que foi o desfecho primário. Os participantes que informaram usar Snapchat, Facebook ou TikTok foram significativamente mais propensos a referir aumento de sintomas depressivos do que aqueles que informaram não usar mídias sociais. A razão de chances totalmente ajustada foi maior para Snapchat (RC ajustada = 1,53), seguida por Facebook (RC ajustada = 1,42) e TikTok (RC ajustada = 1,39).

A incorporação de termos de notícias recentes veiculadas na televisão e na internet, como covid-19, mudou a associação em relação ao Snapchat, com a RC ajustada caindo de 1,53 para 1,12 quando os termos das fontes de notícias foram incluídos na pesquisa. As associações em relação ao TikTok e ao Facebook permaneceram semelhantes.

Quando os resultados foram estratificados por idade, o uso do TikTok e do Snapchat foi associado a sintomas depressivos em pessoas com 35 anos ou mais, mas não naquelas com menos de 35 anos. No entanto, foi observado um padrão oposto em relação ao Facebook; o uso foi associado a sintomas depressivos em pessoas com menos de 35 anos, mas não naquelas com 35 anos ou mais (RC ajustada = 2,60 vs. RC ajustada = 1,12).

A associação entre o aumento dos sintomas depressivos informados pelo participante e o uso de determinadas plataformas de mídia social não foi impactada pelo apoio social na linha de base ou interações presenciais, observaram os pesquisadores.

Médica de família se surpreende com o fato de os resultados não terem sido mais significativos

Neste estudo, "fiquei honestamente surpresa com o fato de os resultados não terem sido mais significativos", disse Dra. Mary Ann Dakkak, médica da Boston University, nos Estados Unidos, em entrevista. "Dito isto, os usos das mídias sociais durante a pandemia da covid-19 podem ter sido uma saída social necessária e uma forma de conexão para muitas pessoas que estariam isoladas se não fosse por isso."

Ver um aumento significativo na depressão quando as mídias sociais poderiam ter sido uma força positiva pode sugerir um impacto mais pesado durante tempos "normais", acrescentou.

"Não é de se surpreender que o que vemos na juventude seja visto entre os adultos", observou a Dra. Mary Ann, que não esteve envolvida neste estudo. "Eu sempre digo aos meus pacientes que o que é bom para seus filhos é bom para os adultos também, e vice-versa."

"Esperamos ver resultados disso entre jovens e adultos que ficaram mais isolados, que usaram mais tempo de tela para estudo, trabalho, conexão social e para afastar o tédio, em breve", disse.

"A natureza complexa do porquê de as mídias sociais poderem ter sido usadas mais fortemente para conexão durante um tempo em que as reuniões presenciais não eram possíveis pode ser um grande fator de confusão, pois o perfil típico de usuários pesados de mídia social pode ter mudado durante a suspensão das atividades devido à covid-19."

É necessário ponderar os benefícios das mídias sociais com os riscos à saúde mental, diz psiquiatra

Este estudo provavelmente foi realizado antes das recentes notícias sobre dados "ocultos" do Facebook e as implicações de que o Facebook sabia que estava contribuindo para a piora da saúde mental em adolescentes, particularmente em relação a autoestima, disse a Dra. Jessica "Jessi" Gold, psiquiatra da Washington University, nos Estados Unidos, em entrevista.

"Se você olhar mais especificamente para outros estudos, no entanto, os dados em torno das mídias sociais e da saúde mental são constantemente variados, com alguns mostrando benefícios e alguns mostrando malefícios, e nenhum sugerindo de forma conclusiva qualquer um dos resultados", disse a Dra. Jessica, que também não participou da nova pesquisa. "Mais dados são necessários, especialmente longitudinais e em uma faixa etária mais ampla, para entender o impacto das mídias sociais na saúde mental ao longo do tempo.

"Também é ainda mais importante na sequência da covid-19, já que muitas pessoas se voltaram para as mídias sociais como uma fonte primária de apoio social e conexão, usando mais do que antes", enfatizou.

Neste estudo, "Acho que a informação mais interessante é que para o TikTok e o Snapchat os efeitos pareceram ser mais acentuados nas pessoas com mais de 35 anos", disse a Dra. Jessica.

O que este estudo não responde é "se as pessoas que podem desenvolver depressão são simplesmente mais propensas a usar as mídias sociais antes de mais nada, como por exemplo, para buscar apoio social", disse a Dra. Jessica. "Além disso, não sabemos por quanto tempo eles estão usando as mídias sociais ou para que estão as usando, o que para mim é importante para entender mais sobre a nuance da relação com a saúde mental e as mídias sociais."

Especialistas aconselham que os médicos falem sobre o uso de mídias sociais com seus pacientes

Esta nova pesquisa sugere que os médicos devem conversar com seus pacientes sobre como as mídias sociais afetam as reações emocionais, bem como o sono, disse a Dra. Jessica.

"Os pacientes devem se perguntar como estão se sentindo quando estão nas mídias sociais e a não as usar antes de dormir. Também devem considerar os limites de tempo de uso e como usar efetivamente as mídias sociais enquanto cuidam de sua saúde mental", disse ela. Essa conversa entre médico e paciente deve ser tida com todos os pacientes, de todas as idades, que usem redes sociais, não apenas com os adolescentes.

"Esta também é uma conversa sobre moderação, e saber que os indivíduos podem sentir que se beneficiam das mídias sociais, e que devem equilibrar esses benefícios com potenciais riscos à saúde mental", disse ela.

"Estudos como este esclarecem o motivo de o uso das mídias sociais dever ser pelo menos um ponto de discussão com nossos pacientes", disse Dra. Mary Ann.

Ela aconselhou que os médicos perguntem e ouçam seus pacientes e os respectivos familiares sobro os hábitos de tempo de tela. "Sempre que vejo um paciente com sintomas de humor, pergunto sobre seus hábitos – alimentação, sono, vida social, tempo de tela – incluindo o tempo do uso de celular. Eu pergunto sobre a dinâmica familiar em relação ao tempo de tela.

"Adicionei o tempo de tela à minha avaliação de adolescentes. Discutir o uso seguro de celulares e mídias sociais pode ter um impacto significativo no comportamento e no bem-estar dos adolescentes, e os pais são muito gratos pela ajuda", disse ela.

"Este estudo nos incentiva a adicionar o tempo de tela às avaliações em todas as idades adultas, especialmente em caso de sintomas de humor", enfatizou a Dra. Mary Ann.

Sugestões para pesquisas futuras

A Dra. Mary Ann acrescentou que mais áreas de pesquisa incluem as diferenças no impacto do uso da mídia social de criadores de conteúdo versus consumidores. Além disso, "gostaria de ver pesquisas usando dados reais de uso, os tempos de uso, interrupções no sono e uso. Possíveis variáveis de confusão incluem a realização de atividade física, presença de relacionamento íntimo e desempenho escolar ou no trabalho."

Diante das muitas variáveis de confusão, mais estudos controlados são necessários para examinar os resultados de saúde mental em uso, por quanto tempo as pessoas usam a mídia social e o impacto de intervenções como limites de tempo, disse a Dra. Jessica.

“Não podemos ignorar os benefícios da mídia social, como ajudar as pessoas com ansiedade social, encontrar apoio de colegas e normalizar a saúde mental, e esses fatores também precisam ser estudados e avaliados com mais eficácia, disse ela.

Mensagem principal

É importante reconhecer que este estudo representa uma correlação, não causalidade, pontuou Dra. Jessica. Ao abordar as questões de como as mídias sociais impactam a saúde mental, "como sempre, a coisa mais difícil é que muitas pessoas consomem notícias por meio das mídias sociais e muitas vezes obtêm apoio social por meio das mídias sociais, então deve haver um equilíbrio entre não remover a mídia social completamente, mas ajudar as pessoas a ver como isso afeta sua saúde mental e como encontrar o equilíbrio."

Os resultados do estudo foram limitados por vários fatores, incluindo a incapacidade de controle para todos os possíveis fatores de confusão e de avaliação da natureza do uso das mídias sociais, e a falta de dados de dose-resposta, observaram os pesquisadores. Embora as pesquisas realizadas neste estudo não tenham sido específicas para a covid-19, os efeitos das mídias sociais sobre a depressão podem ser específicos para o conteúdo, e os achados podem não ser generalizáveis para além do período da pandemia.

Aproximadamente dois terços (66%) dos participantes do estudo se identificaram como mulheres e 76% como brancos; 11% negros; 6% asiáticos; 5% hispânicos; e 2% indígena americano ou nativo do Alasca, ilhéu do Pacífico ou nativo do Havaí ou outro.

O primeiro autor do estudo também atua como editor associado do periódico JAMA Network Open, mas não participou do processo de decisão de publicação deste estudo. A Dra. Jessica informou que realizou uma conferência para a Johnson & Johnson sobre mídias sociais e profissionais de saúde, além de participação no conselho consultivo.

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