COMENTÁRIO

Uso prolongado de baixas doses de prednisona aumenta o risco cardiovascular?

Dr. Mauricio Wajngarten

Notificação

1 de dezembro de 2021

Prescrevemos glicocorticoides para muitos pacientes, especialmente aqueles com doenças inflamatórias. Em várias condições, como a polimialgia reumática ou as doenças inflamatórias intestinais, mantemos tratamento prolongado com baixas doses de corticoide. Esses medicamentos podem promover retenção de líquidos; reduzir a tolerância à glicose; causar hipertensão, alterações de comportamento e humor, distúrbios digestivos; e aumentar o apetite e o ganho de peso.

Efeitos adversos associados ao uso de longo prazo incluem aparência cushingoide, catarata, aumento da pressão intraocular, osteoporose e fraturas por compressão vertebral. Também sabemos que a administração de altas doses de glicocorticoides pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares; contudo, até recentemente persistiam controvérsias sobre o aumento do risco cardiovascular associado ao uso desses fármacos em baixas doses. Um estudo britânico então procurou quantificar o risco cardiovascular associado à dose e ao tempo de uso de glicocorticoides em pessoas com doenças inflamatórias imunomediadas. [1]

O estudo

Foi realizada uma análise de coorte de base populacional de 389 serviços de atenção primária vinculando internações e óbitos no período entre 1998 e 2017. O estudo incluiu 87.794 adultos com doença inflamatória imunomediada (p. ex., arterite de células gigantes e/ou polimialgia reumática, doença inflamatória intestinal, artrite reumatoide, lúpus e/ou vasculite) e sem história de doença cardiovascular.

Após um acompanhamento médio de cinco anos, foram encontradas fortes associações entre dose administrada e risco de todas as doenças cardiovasculares, incluindo infarto do miocárdio, insuficiência cardíaca, fibrilação atrial e doença cerebrovascular.

Após um ano, o risco absoluto global de doenças cardiovasculares dobrou para indivíduos em uso de < 5 mg/dia de prednisona e foi seis vezes maior para aqueles em uso de ≥ 25 mg/dia do medicamento. Muitos indivíduos relataram fatores de risco cardiovascular modificáveis como tabagismo (24%), obesidade (25%) ou hipertensão (25%).

Implicações práticas

Os autores mostraram que os indivíduos que receberam prednisona apresentaram aumento do risco de desenvolver um amplo espectro de doenças cardiovasculares letais ou não, e que este risco aumenta de acordo com a dose e a duração do tratamento.

Ao contrário do que acreditávamos, baixas doses de prednisona (< 5 mg) podem duplicar do risco subjacente de doenças cardiovasculares em pacientes com doenças inflamatórias imunomediadas.

Frequentemente, os pacientes solicitam que os médicos prescrevam corticoides para o controle da dor musculoesquelética. A mensagem prática desse estudo é restringir na medida do possível o uso em longo prazo desses medicamentos, mesmo em baixas doses, e implementar medidas de prevenção cardiovascular para os pacientes que estiverem ou que já estiveram em tratamento.

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