Segunda paciente a se livrar do VIH sem transplante de células-tronco nem tratamento antirretroviral

Matías A. Loewy

Notificação

30 de novembro de 2021

Argentina — Uma argentina de 30 anos, apropriadamente chamada de "paciente Esperanza" em referência ao nome da cidade onde mora, parece ser a segunda pessoa no mundo cujo sistema imunitário eliminou o vírus da imunodeficiência humana (VIH) sem a necessidade de transplante de células-tronco, o que "traz uma mensagem de esperança da possibilidade de encontrar a cura" natural dessa infecção, informaram pesquisadores da Argentina e dos Estados Unidos no periódico Annals of Internal Medicine. [1]

Dra. Natalia Laufer

"Somos cautelosos, mas poderia representar um caso de cura esterilizante", disse uma das diretoras da pesquisa, a Dra. Natalia Laufer, Ph.D., do Instituto de Investigaciones Biomédicas en Retrovirus y SIDA (INBIRS) e professora do Departamento de Microbiología, Parasitología e Inmunología da Facultad de Medicina de la Universidad de Buenos Aires, Argentina, durante uma reunião virtual organizada pela Red Argentina de Periodismo Científico da qual participou o Medscape.

Por razões ainda desconhecidas, cerca de 1% de todos os pacientes infectados pelo vírus da imunodeficiência humana têm algum controle da infecção durante um certo tempo, ou "controladores de elite", o que significa que apresentam carga viral indetectável sem necessidade de tratamento, embora, nos casos convencionais, análises mais aprofundadas permitam revelar traços do vírus com potencial de reativação e geração de novos ciclos de replicação.

Dra. Gabriela Turk, Ph.D.

"O que diferencia esta paciente é que ela tem pouquíssimos reservatórios virais e todas as cópias detectadas são defectivas, não podem produzir vírus com potencial de replicação", explicou uma das duas primeiras autoras, a Dra. Gabriela Turk, Ph.D., que também trabalha no INBIRS e na Facultad de Medicina de la Universidad de Buenos Aires.

O único antecedente semelhante conhecido é o de Loreen Willenberg, uma paciente de 67 anos na Califórnia que, depois de viver 28 anos com o vírus da imunodeficiência humana, não apresenta traços de vírus replicativos nas células e nos tecidos, como publicado no periódico Nature em agosto de 2020. [2]

Outras duas pessoas parecem ter eliminado o vírus da imunodeficiência humana, mas só depois da substituição completa do sistema imunitário por meio do transplante de células-tronco feito para tratar neoplasias hematológicas: o paciente de Berlim, Timothy Ray Brown, e o paciente de Londres, que foi identificado como Adam Castillejo, um venezuelano de 41 anos.

Outro homem de 35 anos, brasileiro, apresentou carga viral indetectável durante pelo menos 15 meses após receber tratamento antirretroviral intensificado, além de um suplemento de vitamina B3, embora poucos meses depois tenha tido aparente recaída, segundo o NAM Aidsmap.

Esforço "heroico" de análise e nenhum traço do vírus

O novo caso descrito é o de uma mulher com diagnóstico de infecção pelo vírus da imunodeficiência humana tipo 1 (VIH-1) em março de 2013, que teria sido contagiada pelo seu parceiro (que morreu de síndrome da imunodeficiência adquirida ou sida em julho de 2017). Como a Dra. Natalia, o diagnóstico foi feito por meio o ensaio de imunoadsorção enzimática (ELISA) e de eletroimunotransferência (Western blot), com detecção de duas bandas.

Durante os oito anos de acompanhamento, os resultados de 10 ensaios comerciais mostraram que a carga viral estava abaixo do limite de detecção, sem sinais clínicos ou laboratoriais de doença associada ao vírus. Nunca fez tratamento antirretroviral, exceto durante seis meses por causa de uma gestação e recebeu um esquema com tenofovir, entricitabina e raltegravir entre setembro de 2019 e março de 2020.

Para procurar rastros do vírus, os pesquisadores fizeram várias análises genéticas e virológicas em mais de 1,6 bilhão de células mononucleares extraídas de amostras de sangue periférico (coletadas em 2017, 2018, 2019 e 2020) e da placenta gestacional, e só encontraram sete pró-vírus – todos com defeitos no genoma que impediam sua replicação. "Nenhuma destas sequências consegue produzir um vírus viável, competente e infectante", disse a Dra. Natalia.

A equipe de pesquisa também analisou o que é considerado o principal reservatório do vírus da imunodeficiência humana, os linfócitos T CD4+, por meio de um ensaio que permite quantificar a competência da replicação do vírus. Depois de estudar 150 milhões destas células imunitárias, não obtiveram resultados positivos. E não conseguiram detectar RNA viral em 4,5 mililitros de plasma.

No editorial que acompanha o estudo, o Dr. Joel Blankson, do Johns Hopkins University Center for AIDS Research, nos Estados Unidos, qualificou o esforço dos pesquisadores como “heroico” e assinalou que a descoberta sugere que alguns controladores de elite "podem ter ido além de simplesmente controlar o vírus e, em vez disso, podem ter conseguido erradicá-lo. Se a paciente Esperanza efetivamente conseguiu a cura esterilizante, torna-se importante definir o mecanismo responsável".

Dra. Deborah Persaud

Outros cientistas são mais cautelosos. A Dra. Deborah Persaud, chefe interina do Departamento de Doenças Infecciosas da Johns Hopkins University School of Medicine nos EUA e diretora do IMPAACT HIV Cure Scientific Committee, declarou ao Medscape que mencionar a "cura esterilizante" pode causar confusão, porque não há provas definitivas de que a paciente jamais tenha tido infecção por um vírus da imunodeficiência humana com capacidade de replicação. E revelou que, em contrapartida, os achados dos estudos genéticos (deleções e mutações) poderiam ser "mais compatíveis com um evento de infecção abortiva – quando células são infectadas pelo vírus, mas não produzem nenhuma progênie viral infectante".

Mas, diante de uma pergunta do Medscape, a Dra. Natalia disse que o conceito de "infecção abortiva" não é universalmente aceito no léxico científico e que, por outro lado, as sequências genéticas analisadas dos pró-vírus "apresentam certas características que evidenciam ciclos de replicação, pelos quais podemos inferir que o vírus se replicou e infectou outras células, com a infecção sendo posteriormente controlada".

Contudo, a Dra. Gabriela explicou que foram feitos testes para descartar a possibilidade de que o vírus do inóculo fosse defectivo. E considerou que não há como saber qual foi o inóculo inicial, "embora a pessoa de quem a infecção foi adquirida, o marido, tenha sido diagnosticado com alta carga viral (186.000 cópias/mL em fevereiro de 2013) e acabou morrendo de sida, de onde se presume que a exposição tenha sido a uma quantidade significativa de vírus".

Resultados encorajadores

De qualquer forma, apesar de suas dúvidas, a Dra. Deborah, que atendeu o famoso caso de "cura" no Mississipi, nos EUA, que recidivou a seguir, assegurou que estes achados "são sempre animadores, à medida que aprendemos mais sobre estes casos singulares, porque trazem informações sobre o espectro da infecção pelo vírus de imunodeficiência humana, do potencial de infecção abortiva ou controlada em contextos singulares e os padrões de persistência".

Dr. Marcelo Losso

"É um caso interessante, uma demonstração preliminar de algo extraordinário. Mas, por definição, não é algo que esperemos encontrar frequentemente", comentou ao Medscape o Dr. Marcelo Losso, chefe do serviço de imunocomprometidos da Clínica de Saúde Sexual (ClinSex) do Hospital Ramos Mejía, na Argentina, que também não participou do estudo.

"Caso isto se confirme, pode ser interessante tentar entender como possa ter ocorrido este controle que o organismo da paciente conseguiu obter, e pode nos fazer pensar em outros mecanismos com finalidade terapêutica", acrescentou.

Para a Dra. Natália e outra codiretora do estudo, a Dra. Xu Yu, pesquisadora do Instituto Ragon do Massachusetts General Hospital, Massachusetts Institute of Technology (MIT) e da Harvard University, nos EUA, é provável que haja mais pacientes com as características da paciente Esperanza e de Loreen Willenberg, mas que precisam ser identificados e estudados.

Estamos longe de aplicar estes achados à cura de milhões de pacientes com vírus da imunodeficiência humana que hoje precisam do tratamento antirretroviral regular? " Podemos estar perto. Essa é a beleza da descoberta científica. Não sabemos, mas é por isso que precisamos de uma maior participação da comunidade e dos profissionais de saúde para nos ajudarem", respondeu Dra. Yu para o Medscape.

Enquanto isso, a paciente Esperanza e os médicos e cientistas que a acompanham e estudam precisam conviver com as limitações intrínsecas da pesquisa científica. "Os conceitos científicos nunca podem ser comprovados pela mera coleta de dados empíricos. Só podem ser refutados. (...) Portanto, não podemos rejeitar a hipótese de que esta paciente tenha de fato chegado à cura esterilizante", escreveram os autores.

A paciente Esperanza "se sente abençoada, entende que é uma situação excelente, está feliz por ter uma família saudável. Mas o fato de não podermos dar o diagnóstico definitivo de cura a angustia. E isso também nos pesa", admitiu a Dra. Natalia.

A pesquisa foi financiada pela Bill and Melinda Gates Foundation e pelo National Institutes of Health (NIH) dos EUA. As Dras. Natalia Laufer, Grabriela Turk, Xu Yu, Deborah Persaud e o Dr. Marcelo Losso informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

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