Dor torácica pleurítica aguda pode ser infarto da gordura pericárdica

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

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30 de novembro de 2021

A imagem multimodal vem contribuindo para mudar a prática médica, inclusive a cardiológica. "Atualmente, conseguimos decifrar quais são as entidades benignas e os casos mais graves", destacou o Dr. Carlos Alviar, cardiologista do Bellevue Hospital Center e professor da NYU Grossman School of Medicine, nos Estados Unidos, nas sessões científicas do ACC Latin America 2021 – que trouxe casos clínicos desafiadores.

O uso de exames de imagem, principalmente da angiotomografia de tórax, foi crucial no diagnóstico de um caso de infarto da gordura pericárdica apresentado por Carolina Gomes, pesquisadora e graduanda em medicina na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). O congresso virtual do American College of Cardiology (ACC) foi realizado no início de novembro.

O primeiro caso de infarto da gordura pericárdica, que é uma condição benigna e rara, foi descrito em 1957. [1]

“Anteriormente, o diagnóstico era feito a partir de análise anatomopatológica de fragmento ressecado cirurgicamente da lesão. Atualmente, o diagnóstico é feito por tomografia torácica, que permite a caracterização da lesão e sua localização exata. Inclui ainda a angiotomografia, que permite a reconstrução de imagens com mais detalhes e ressonância magnética”, destacou a palestrante.

O caso apresentado por Carolina foi de uma paciente de 57 anos de idade, branca, que buscou o serviço de emergência com queixa de dor precordial intensa, irradiando para hemitórax e membro superior esquerdos, que piorava em decúbito dorsal. Ela também apresentava palidez e sudorese. A dor havia iniciado há três semanas e, desde então, veio progredindo. A paciente tinha história de esofagite e sua mãe havia sido revascularizada aos 48 anos de idade.

“Foi feita uma série de investigações – exame físico, marcadores de necrose miocárdica, radiografia simples de tórax e eletrocardiograma – e todos os parâmetros estavam normais. Ela então recebeu alta, mas cinco dias mais tarde regressou à emergência com dispneia ainda mais intensa e dor torácica”, contou a pesquisadora.

A suspeita da equipe foi de tromboembolia pulmonar. Para investigação, foi realizada angiotomografia computadorizada de tórax e D-dímero, o que descartou a hipótese inicial, uma vez que o D-dímero estava normal e a angiotomografia foi negativa para tromboembolia pulmonar. No entanto, o exame de imagem revelou outros achados.

“Observamos derrame pleural à esquerda, atelectasia laminar em base esquerda e densificação focal dos planos gordurosos mediastinais junto ao seio cardiofrênico esquerdo, com centro fusiforme gorduroso, espessamento do pericárdio adjacente, o que era compatível com uma imagem de infarto da gordura pericárdica”, explicou ela, lembrando que, em geral, pacientes com infarto da gordura pericárdica apresentam dor torácica pleurítica aguda e exame físico, marcadores de necrose miocárdica e eletrocardiograma normais, tal como verificado no caso descrito.

Após o diagnóstico, a paciente recebeu alta devido à estabilidade hemodinâmica. Foram prescritos anti-inflamatórios não esteroides (aines) e analgésicos.

“Para controle, fizemos outra tomografia computadorizada (TC) que mostrou reabsorção total do derrame pleural esquerdo e pequena formação ovalada com centro gorduroso e uma fina cápsula no seio cardiofrênico esquerdo, à frente do pericárdio, menos evidente do que na primeira TC”, afirmou Carolina. Segundo ela, como o infarto da gordura pericárdica é uma condição benigna e autolimitada, a recomendação é de tratamento sintomático.

A fisiopatologia do infarto da gordura pericárdica ainda não está clara, no entanto, a palestrante apontou hipóteses que vêm sendo propostas, entre elas, “torção aguda de pedículo vascular, levando a isquemia e necrose; aumento da pressão intratorácica por manobra de Valsava, com elevação da pressão capilar e venosa e ainda alterações estruturais no tecido adiposo, que tornariam a gordura vulnerável ao batimento cardíaco e ao movimento do diafragma”. [2,3]

De acordo com a pesquisadora, o infarto da gordura pericárdica é subdiagnosticado, o que contribui para que haja poucos relatos de caso.

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