Estudo indica alta prevalência de doença coronariana no VIH

Heather Boerner

Notificação

29 de novembro de 2021

Estudo mostra que mais de metade das pessoas vivendo com o vírus da imunodeficiência humana (VIH) e com carga viral indetectável tinha, no entanto, doença coronariana confirmada por exames de imagem, e apesar do uso prolongado de antirretrovirais, que tem sido associado a problemas cardiovasculares, nenhum medicamento foi implicado no risco de doença.

"Os fatores de risco tradicionais e a duração da infeção pelo VIH foram associados à doença coronariana grave", disse o médico Dr. Andreas Knudsen, Ph.D., especialista em doenças infeciosas e parasitárias no Rigshospitalet na Dinamarca, durante sua apresentação na 18th European AIDS Conference. "Quando fazemos o ajuste pelo tempo desde o diagnóstico do VIH, nenhum dos medicamentos permaneceu associado à gravidade da doença coronariana".

Curiosamente, isso incluiu o abacavir, que foi associado em outra apresentação do EACS e em pesquisas anteriores ao aumento da incidência de infarto agudo do miocárdio. O abacavir é vendido como genérico ou como um componente do Epzicom (abacavir/lamivudina) e do esquema triplo em um comprimido Triumeq (dolutegravir/abacavir/lamivudina).

O estudo Copenhagen Comorbidity in HIV Infection (COCOMO) contou com 1.099 pessoas vivendo com VIH na capital dinamarquesa desde o início de 2015, das quais, 705 tinham angiografias por tomografia computadorizada (angio-TC) disponíveis para inclusão nos resultados. Os participantes eram quase todos do sexo masculino (89%), com peso saudável (índice de massa corporal de 25 km/m2) e 96% tinham carga viral indetectável.

Pouquíssimos participantes também tinham fatores de risco tradicionais de doença coronariana. Mais de um em quatro fumavam, um em cinco tinham colesterol alto e 42% eram hipertensos. Além disso, muitos tinham história de uso de antirretrovirais associados a problemas cardiovasculares, como:

Embora o abacavir ainda esteja sendo utilizado, recomenda-se que os outros três antirretrovirais sejam prescritos por tempo limitado, e não estão em uso atual nos Estados Unidos.

Além disso, cerca de um a cada três pacientes (29%) estava em uso de um inibidor da protease, que tem sido associado a insuficiência cardíaca.

Quando os pesquisadores examinaram as tomografias computadorizadas (TC) dos participantes, descobriram que, pelo sistema de pontuação Coronary Artery Disease-Reporting and Data Systems (CAD-RAMS), cerca de metade (46%) tinha artérias pérvias sem sinais de doença coronariana. Mas isso também quis dizer que 54% tinham algum grau de obstrução ou endurecimento das artérias. A boa notícia é que 27% dessas pessoas tinham doença coronariana branda ou leve.

Porém, 17% tinham doença coronariana obstrutiva, e outros 1 em 10 participantes tinham graus maiores de obstrução. Quando os dados foram classificados pelos fatores de risco tradicionais e pelos antirretrovirais relacionados com a doença coronariana, os pesquisadores encontraram algo interessante. Embora a obesidade tenha sido associada a aterosclerose, não foi associada a doença grave. Mas com o diabetes aconteceu o contrário: não foi associado a doença, mas foi associado a doença mais grave.

E quando avaliaram o abacavir, não encontraram relação entre o antirretroviral e a aterosclerose. "O abacavir não foi associado a aterosclerose e também não foi associado à gravidade da doença", disse Dr. Andreas.

Embora o uso pregresso de zidovudina, indinavir e didanosina tenham associados à gravidade da aterosclerose, essa associação desapareceu quando o Dr. Andreas e sua equipe ajustaram os achados pelo tempo desde o diagnóstico. O que estava associado a aterosclerose foi tempo de convívio com o próprio VIH. A cada cinco anos que uma pessoa vive com VIH, o estudo encontrou um aumento de 20% do risco de aterosclerose e de 23% da gravidade do quadro. Além disso, ser do sexo masculino foi associado a um risco quase 2,5 vezes maior de aterosclerose e 96% maior de doença mais grave. Ter diabetes mellitus foi associado a quase o triplo do risco de aterosclerose, bem como cada década adicional de vida para uma pessoa vivendo com o VIH.

Os achados confirmam os dados iniciais do ensaio clínico REPRIEVE, que recentemente divulgou dados mostrando números similarmente elevados de placa de aterosclerose em pessoas vivendo com VIH que não estavam na categoria "de risco" de doença cardiovascular por meio dos métodos tradicionais de pontuação.

"É importante que seja um estudo muito grande e confirme o que sabemos, ou seja, a existência de altos níveis de doença coronariana subclínica nas pessoas vivendo com VIH", disse o médico Dr. Steven Grinspecoon, professor da Harvard Medical School e pesquisador responsável do REPRIEVE.

Quanto à inexistência de associação entre o abacavir e o risco cardiovascular, o Dr. Steven disse que avalia estes achados com algum pudor.

"É difícil valorizar muito isso", disse o Dr. Steven. "É difícil determinar em um estudo transversal. As pessoas colocam as pessoas em coisas diferentes".

Na Espanha, onde o médico Dr. José Ignacio Bernardino trata pessoas vivendo com o VIH no Hospital Universitario La Paz, o abacavir é, na maioria dos casos, um ponto controverso, já que há muito tempo os médicos deixaram de prescrever esquemas contendo abacavir para pessoas vivendo com o VIH. O que é mais importante no estudo, disse ele ao Medscape, é que o alto nível de risco é "preocupante". REPRIEVE vai testar se as estatinas podem reduzir a doença cardíaca nas pessoas vivendo com VIH. Entrementes, Dr. José disse que a mensagem do estudo para os médicos é a importância fundamental dos fatores de risco cardiovascular tradicionais.

"Precisamos reconhecer que o principal fator de risco cardiovascular é a idade", disse o médico. "Quando os pacientes estão se aproximando da quinta década de vida, normalmente tento enfatizar muito os fatores de risco cardiovascular em geral. Reforço a adoção de um estilo de vida saudável – a prática regular de exercícios físicos, o controle da hipertensão arterial sistêmica, da glicose e dos lipídios para todos os pacientes"

Os Drs. Andreas Knudsen e Jose Ignacio Bernardino informaram não ter conflitos de interesse. O Dr. Steven Grinspoon informou receber remuneração e honorários de consultoria das empresas Theratechnologies e ViiV Healthcare.

18th European AIDS Conference: Best Poster BPD3/2. Apresentado em 29 de outubro de 2021.

Heather Boerner é jornalista científica que mora em Pittsburgh, Pensilvânia. Seu livro, Positively Negative: Love, Pregnancy, and Science's Surprising Victory Over HIV, foi publicado em 2014.

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