Manejo de gestantes com doença cardiovascular

Pamella Lima (colaboraram Teresa Santos e Dra. Ilana Polistchuck)

Notificação

29 de novembro de 2021

Não é nenhuma novidade que a taxa de mortalidade por doenças cardiovasculares tem preocupado as organizações de saúde. “Nos gráficos do Global Burden of Diseases, [1] observamos que as mortes no Brasil já são muito maiores do que na América Latina e no Caribe”, alertou a Dra. Glaucia Moraes de Oliveira, cardiologista e professora associada do Departamento de Cardiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), nas sessões científicas do ACC Latin America 2021, realizado on-line em novembro de 2021.

Durante a sessão Contemporary Topics in Women’s Cardiovascular Health (em tradução livre: Tópicos contemporâneos em saúde cardiovascular da mulher), a médica enfatizou a importância de relacionar doenças maternas a causas cardiovasculares, e destacou que as principais causas de morte de gestantes com doença cardiovascular têm sido notadamente doença isquêmica, pré-eclâmpsia e hipertensão. “Chama atenção o fato de termos um perfil diferente no país, com doenças reumáticas, cardiomiopatias e doenças congênitas que não são diagnosticadas e aparecem durante a gravidez”, comentou, lembrando que algumas condições fisiológicas da gestação (p. ex., aumento da frequência cardíaca e diminuição da resistência vascular sistêmica) favorecem a deflagração de quadros associados à doença cardiovascular subjacente, que ainda não havia sido diagnosticada.

A Dra. Glaucia referiu dados provenientes de uma rede de 27 maternidades no Brasil, que analisou mais de 82 mil partos entre junho de 2009 e junho de 2010. [2] No levantamento, foi identificado que a maioria das gestantes morreu por causas associadas a hipertensão, obesidade, diabetes ou doença cardíaca, “mas, também chamou atenção que uma parte das mortes da época estava relacionada à epidemia do H1N1, que assolou as grávidas naquele período”, ressaltou.

A questão fundamental, segundo a especialista, é que a maior parte dessas mortes podem ser evitadas, já que pode ocorrer diante de gravidez não planejada ou por falta de acesso ao cuidado, mas também por decorrência de fatores crônicos. Para a professora da UFRJ, a mudança desse status quo se faz cada vez mais urgente.

“Nós precisamos mudar esse cenário no Brasil e uma das sugestões é que trabalhemos juntos, tal como fizemos juntos – obstetras e ginecologistas – vacinando essas mulheres, por exemplo. Foram mais de 1,5 milhão de vacinas distribuídas para pessoas grávidas e no puerpério, e a média móvel despencou enormemente nessa situação”, afirmou, se referindo à pandemia de covid-19. [3]

Envolvimento social                                                          

Para a cardiologista, o caminho é somar forças com diversos atores sociais, aumentando o envolvimento de toda a comunidade, e uma equipe multidisciplinar. Ela trouxe os exemplos da saúde digital, como um reforço bem-vindo da tecnologia e aplicativos, citando atividades exitosas que contribuíram para a redução de mortes na Nigéria (HelloMama, projeto apoiado pela U.S. Agency for International Development – USAID).

“Não podemos esquecer que não temos um paciente, mas dois. Tudo que afeta a mãe, vai afetar o feto. Como, por exemplo, o tratamento de arritmias, que pode afetar o feto, provocar um parto prematuro ou até a morte”, disse.

Segundo a médica, bandeira vermelha deve ser dada às mulheres que apresentam dispneia, ortopneia, frequência cardíaca > 120 batimentos por minuto (bpm), pressão arterial sistólica > 160 mL/mg e saturação de oxigênio < 94%. Ela sugeriu a adoção do escore de Zahara para averiguação de cardiopatia congênita, disfunção ventricular e arritmia como elevação de risco para essas mulheres. A Dra. Glaucia também aludiu ao posicionamento do Departamento de Cardiologia da Mulher da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), [4] que enumerou algumas situações especiais no Brasil como o parto cesáreo, a indicação de interrupção de gestação (aborto terapêutico) e a esterilização.

A cardiologista reforçou a necessidade de essas mulheres serem atendidas em centros terciários e chamou a atenção para o fato de o risco não se encerrar com o fim da gravidez, pois o período pós-parto leva a novas condições como insuficiência cardíaca, tromboembolia, hipertensão e arritmia. A médica trouxe ainda o registro de uma revista dedicada à doença cardiovascular da mulher e afirmou aos congressistas que o mesmo tipo de pesquisa deve ser realizado por especialistas em seus países. [5]

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