Dr. Carlos Médicis Morel: o representante do Brasil no SAGO

Roxana Tabakman

24 de novembro de 2021

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2.

O Dr. Carlos Médicis Morel será o representante do Brasil no comitê da Organização Mundial da Saúde (OMS) que pretende destrinchar a origem do SARS-CoV-2. Por um período de dois anos, ele participará de reuniões semanais com o Scientific Advisory Group for the Origins on Novel Pathogens (SAGO) – em tradução livre: grupo científico consultivo para origens de novos patógenos. Sua primeira missão é avaliar de forma independente os achados que possam explicar as origens do SARS CoV-2.

“É possível não ter nunca a resposta, porque problemas biológicos não são matemáticos, a complexidade é imensa. Achar uma prova é pior de que uma agulha no palheiro. Mas se alguém pode dar uma resposta, será esse comitê”, disse o Dr. Morel em entrevista ao Medscape.

Dr. Carlos Médicis Morel

O grupo conta com representantes de 27 países – e cada país só pode ter uma pessoa. A América Latina também será representada pela Dra. María Guzmán, do Instituto Nacional de Medicina Tropical Pedro Kourí (IPK), em Cuba. “O grupo não privilegia um ou outro país”, destacou o Dr. Morel, acrescentando que todos participarão de forma voluntária, pro bono.

Razões da escolha

O Dr. Morel pode ter uma questão pessoal para descobrir de onde veio o vírus que, aos 77 anos, o manteve internado em uma unidade de terapia intensiva (UTI) por 21 dias. “Cheguei ao hospital com os pulmões 50% tomados, por pouco não fui entubado, o médico não sabia se eu ia sair”, lembrou. “Voltei para casa sem poder ficar de pé, foi uma experiência dolorosa”.

Mas o Dr. Morel, que é médico graduado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), concorreu a uma das 27 vagas (foram 700 aplicações) porque a estratégia proposta para o trabalho lhe pareceu interessante. “Duvidei em aplicar, dois anos pela frente com reuniões semanais..., mas se puder contribuir, vale a pena.”

Filho e neto de otorrinolaringologistas, Dr. Morel se dedica à pesquisa desde o início de sua carreira, “porque não queria passar minha vida trabalhando para consertar os efeitos e não as causas”. Doutorou-se pela Universidade Federal de Rio de Janeiro (UFRJ), esteve na Suíça, no Swiss Institute for Experimental Cancer Research (ISREC) e também nos Estados Unidos, na University of California, Los Angeles (UCLA). Ele lecionou na Universidade de Brasília (UnB) por quase 10 anos, até se instalar no Rio de Janeiro, em 1978, a convite da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para criar uma nova área. O Dr. Morel presidiu a Fiocruz entre 1993 e 1997, e desde 2004, dirige o Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS) da instituição. Em seu currículo, soma diversos reconhecimentos, entre eles, ser membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Na convocatória para aplicar ao SAGO, os postulantes deviam ter conhecimentos significativos em uma ou mais disciplinas técnicas (p. ex., pesquisa epidemiológica de doenças infecciosas, virologia, ecologia, medicina, bioinformática, medicina veterinária, segurança alimentar, ciência ambiental, segurança laboratorial, ética e ciências sociais, entre outras) assim como atividades relacionadas a outras emergências de patógenos de potencial pandêmico. [1] O Dr. Morel pode ter sido escolhido por ser um nome de referência na área da biologia molecular e das doenças infeciosas e negligenciadas, especialmente em doença de Chagas; mas ele esclareceu: “A OMS não fez um comitê baseado em ‘competência científica’”, afirmou, fazendo sinal de aspas com as mãos. “Competência científica é importante, mas são importantes mil outras coisas e experiência em várias áreas como saúde pública ou ética.”

As relações internacionais, habitualmente necessárias para aconselhar a OMS, também são um ponto forte da sua biografia. De fato, o Dr. Morel já trabalhou para a OMS entre 1998 e 2003, quando atuou como diretor do Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais da organização. “Essa estadia de cinco anos me deu uma visão internacional e aprendi a importância de fazer redes de contato”, compartilhou com o Medscape.

Preparado para o tiroteio

Quando a criação do SAGO foi anunciada, muitos lembraram as palavras do presidente da OMS, Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus a respeito da equipe anterior. [2] “Nas minhas discussões com a equipe, eles expressaram as dificuldades que encontraram no acesso a dados brutos. Espero que futuros estudos colaborativos incluam um compartilhamento de dados mais oportuno e abrangente.”

O Dr. Tedros referia-se ao primeiro relatório da OMS, divulgado em maio de 2020. [3] Nele, a tese mais aceita era a de que o vírus teria passado de um morcego para um mamífero intermediário e então para o ser humano. A transmissão direta de morcegos para humanos também foi apontada como uma hipótese possível e provável. O relatório afirmava ainda que a passagem do vírus para humanos por meio de produtos alimentícios era possível, porém, que esta era uma hipótese remota. Já a possibilidade de o vírus ter escapado acidentalmente do Instituto de Virologia de Wuhan, na China, foi classificada como “extremamente improvável”. O relatório sugeria transmissão não reconhecida em dezembro de 2019, e possivelmente anterior.

Mas o fato é que não se chegou à conclusão nenhuma, todas as hipóteses permanecem sobre a mesa. O papel dos mercados de animais vivos ainda não está claro. A equipe confirmou que houve uma disseminação generalizada do SARS-CoV-2 em um desses mercados, localizado na cidade de Wuhan, na China, infectando diversos indivíduos, mas não foi possível determinar a fonte da contaminação. Sem descartar que o vírus tenha passado para os seres humanos como resultado de um acidente laboratorial. “Embora a equipe tenha concluído que um vazamento de laboratório é a hipótese menos provável, isso requer uma investigação mais aprofundada.” [2]

“Aquele relatório foi extremamente criticado”, comentou Dr. Morel. “Quem estava no grupo tinha interesse (em impulsionar) a hipótese A, B ou C. A OMS pensou que tinha que criar um outro comitê, que tentam seja imune a aquelas críticas de conflito de interesse do passado.”

As brigas, especialmente entre a China e os Estados Unidos, foram intensas e continuam ocorrendo. De fato, ao saber da nomeação, o Dr. Morel postou em suas redes sociais: “Esse comitê vai ser complicado, tiroteio de tudo que é lado…!” referindo-se aos ataques por parte dos defensores das diferentes hipóteses sobre a origem da pandemia, mas até hoje o conhecimento do brasileiro sobre tiroteios é de outro tipo. “Minha sala na Fiocruz ficava na expansão, coladinha à Maré. E já foi furada de bala às 11:00 h da manhã, com todos lá trabalhando. Felizmente parou numa estante de aço, passou a um palmo de uma pesquisadora nossa.”

Agora ele vai enfrentar um tiroteio simbólico, também vista em outras comissões que procuram responder à mesma pergunta, como a The Lancet COVID-19 Commission. A força-tarefa da iniciativa criada pelo The Lancet foi abruptamente desfeita. A notícia da saída de Jeffrey D. Sachs, o economista que liderava o grupo, foi precedida por um embate sobre liberdade acadêmica, mas reflete as profundas divisões e amarguras – cada vez maiores – sobre se o vírus teve uma origem puramente natural ou se estudos laboratoriais poderiam ter tido algum papel. O economista estadunidense referiu preocupações em relação a potenciais conflitos de interesses, visto que 5 dos 12 membros da força-tarefa teriam laços diretos ou indiretos com um laboratório em Wuhan. [4]

“Estamos com uma batata quente na mão, e vamos ter que ver como descascar, mas acredito que agora a OMS evitou algumas falhas da comissão Lancet e do antigo comitê da OMS.” O Dr. Morel relatou que as decisões do comitê serão tomadas por consenso, e que, na ausência deste, a visão da minoria deve ser registrada na ata. “A busca pelo consenso é importante, para evitar aqueles argumentos puramente políticos, ideológicos ou negacionistas. E acho que 27 membros é um número bom, quase uma miniassembleia mundial da saúde.”

O Dr. Morel ressaltou que achar o “vírus zero” não é tarefa simples. “Uma coisa é propor um vírus zero, outra coisa é provar”. Ele explicou que a distância no tempo complica muito, mas afirmou que seguramente há guardadas, na China ou em outro lugar do mundo, amostras de sangue coletadas nesse momento. Leia a seguir mais trechos da entrevista.

Medscape: A pergunta sobre se a origem do SARS-CoV-2 é puramente natural ou se escapou de um laboratório pode ficar sem resposta?

Dr. Morel: Pode. O comitê deve começar do zero, mas quanto mais tempo leva, fica mais complicado traçar a origem.

Medscape: Quando os vizinhos perguntam de onde veio o vírus que quase tirou a sua vida. O que o senhor responde?

Dr. Morel: A minha resposta é pré-comitê, porque não sei que evidências vão ter lá. Mas estudando a história, até hoje a natureza não precisou de ajuda nenhuma. Alguns vírus são particularmente bem-sucedidos em fazer filhinhos piores do que eles.

Ponte aérea Rio — Pequim

O Dr. Morel contou que ter sido convidado para um evento na Itália, em 2016, foi algo que mudou a sua carreira. A reunião, convocada pela Rockefeller Foundation e pela University of California, Davis (UC Davis), contou com apenas 18 pessoas para estabelecer as bases do que seria chamado Projeto Viroma Global.

“Nesse projeto estava o top da ciência. Foi lá que eu conheci Ian Lipkin, da Columbia University, que foi um dos autores de um paper interessante dizendo que o vírus da covid-19 é natural, não é de laboratório.”

No ano seguinte, a viagem foi mais longa. Era o ano do Projeto Viroma China, país que Dr. Morel havia visitado 10 anos antes. “Aceitei o convite para visitar Shenzhen, onde isolaram o vírus Zika. Quando chegou um venezuelano com sintomas de zika em Hong Kong, ele foi tratado em Shenzhen. E foi a partir de uma amostra de sangue desse venezuelano que os chineses estudaram a estrutura do vírus. No hospital tem até uma estátua do Zika!”, relatou o médico.

A viagem incluiu o Beijing Genome Institute (BGI). “Quando visitei uma sala com 150 sequenciadores trabalhando dia e noite, fiquei absolutamente impactado – eu nunca tinha visto nada como aquilo.” O Dr. Morel ficou muito impressionado nesta viagem: “O que vi mudou completamente a foto.”

No retorno, a conexão em Amsterdam, na Holanda, incluía algumas horas em um quarto de hotel. “Mas não dormi, escrevi uma carta para a presidente da Fiocruz dizendo: “Nísia [Trindade Lima], o que vi na China é algo que a gente tem que aproveitar para uma parceria, porque eles estão super avançados na virologia”. Ela logo convidou alguns pesquisadores para visitar a Fiocruz, dente eles, George Fu Gao, que meses mais tarde seria nomeado diretor-geral do Center for Disease Control and Prevention (CDC) na China. “Então a amizade que tínhamos com um pesquisador virou amizade com a pessoa mais poderosa na China no controle de doenças”

Quando a comitiva chinesa visitou o Brasil, o diretor-geral percorreu as instalações da Fiocruz acompanhado pelo Dr. Morel. Até participam de uma palestra: “O que aprendemos com as epidemias de Ebola e Zika?” O Dr. Morel anunciou que a China está em fase de preparação para instalar vários laboratórios de nível de biossegurança 4 (laboratório de contenção máxima) e se iniciou um período de acordos. O primeiro, assinado por Gao, Nísia Trindade Lima, o então ministro da Saúde do Brasil, Ricardo Barros, e o ministro da Saúde da China.

“Isso assinado, começamos a voar mais alto. Programamos um outro acordo maior, onde estaria a Academia Chinesa de Ciências (CAS), Gao pelos CDC, o BGI, a Fiocruz e a nossa unidade. Consegui levar Nísia para a China, houve uma grande solenidade em Shenzhen”.

Se iniciou a assim a cooperação entre a ABC e a CAS que permitiu, em uma outra viagem para China, fazer um acordo direto da Fiocruz com o BGI. “Era 2018, pensávamos em zika, pneumonia”.

No 2019, foram realizados seminários nos dois países. Pesquisadores brasileiros foram para China, “seis cidades em duas semanas, um voo atrás do outro, um trem atrás do outro”, lembrou o médico. E os chineses vieram para Rio de Janeiro e Manaus. Entre os projetos no longo prazo, um centro de pesquisa de prevenção de doenças infecciosas. Naquela época, insistiu, eles pensavam nas velhas conhecidas: febre amarela, zika, tuberculose...

Então surgiu o SARS-CoV-2, e o que era uma linha acessória para a Fiocruz e outros centros de pesquisa do mundo, passou a ter prioridade total. Muitos projetos da ABC com a sua equivalente China ficaram na geladeira. O Dr. Morel é coordenador de um deles.

Ele também relatou que estavam avançando em um acordo com Wuhan. “Tínhamos já combinado duas vagas para uns cursos lá, iria uma pessoa da Fiocruz e outra do Ministério. Veio a pandemia. Agora, quem quer saber de Wuhan?”

Gao é membro da ABC desde 13 de maio de 2020 na categoria Correspondentes, que incorpora cientistas de reconhecido mérito científico radicados no exterior que tenham prestado relevante contribuição para o desenvolvimento da ciência no Brasil. Recentemente, Gao assinou uma carta ao The Lancet[5] na qual destaca as dificuldades de rastrear as origens de um vírus. Ele destaca que isso requer um acúmulo de amostras de várias décadas, que as origens geográficas de um vírus podem não estar associadas ao paciente inicial, e que em alguns casos o paciente índice pode nunca ser encontrado. Gao dá vários exemplos, como o HIV, que apareceu pela primeira vez no relatório dos CDC dos EUA em 1981, mas cinco anos depois foi detectado em uma amostra de soro humano coletada em 1959 na República Democrática do Congo, e que um relatório de 2008 revelou que a família do HIV estaria circulando na população há cerca de 100 anos. Os autores da carta concluíram que a mente aberta e a estreita cooperação internacional são fundamentais para rastrear as origens de qualquer vírus, e fizeram um chamado: “Fiquem longe da politização das origens dos agentes causadores da covid-19 e trabalhem em conjunto globalmente para a ciência.”

Medscape: Os laços com a China e todas estas iniciativas de cooperação científica não podem ser consideradas um conflito de interesses para sua atuação no SAGO?

Dr. Morel: Tive que preencher um formulário de quatro páginas sobre conflitos de interesses, coloquei tudo. Depois foram várias semanas de "escrutínio público", em que a OMS podia receber eventuais denúncias de conflitos de interesse que impediriam ou desaconselhariam minha nomeação. Mas no comitê tem pessoal da China e dos Estados Unidos. Se eles não têm conflito de interesses, estou longe disso.

Amazonas e laboratórios de máxima segurança

A principal pergunta a ser respondida pelo SAGO é como o SARS CoV-2 foi introduzido na população humana, mas o mandato também contempla futuras epidemias, porque a introdução recorrente de vírus animais em populações humanas pode resultar em surtos e epidemias futuras semelhantes, o que é inevitável. O risco é impulsionado por diversas forças incluindo mudanças climáticas, mudanças nos ecossistemas e a crescente urbanização. A próxima doença X pode surgir a qualquer momento, e o mundo precisa estar mais bem preparado. [6]

“Mais importante do que conhecer a origem do SARS-CoV-2 é entender o processo que levou o salto de uma espécie para outra”, disse Dr. Morel. Como membro do SAGO, ele pode ser convocado a participar em futuras missões internacionais para estudar outros patógenos emergentes. O médico lamentou a história truncada do Projeto Viroma Global, que pretendia ter um atlas dos vírus na natureza, e relatou que a proposta foi publicada no periódico Science, “mas logo depois veio um artigo de um virologista superfamoso dizendo que era bobagem gastar dinheiro com esse mapeamento, que era melhor ficar alerta. Mas quando a gente detecta, o estrago está feito. Essa crítica foi péssima, perdemos uma grande oportunidade”.

Perguntado sobre a doença X, o Dr. Morel disse: “Penso na Amazônia, que é seguramente um foco de futuras pandemias, pela biodiversidade, desmatamento e garimpos”.

Medscape: Se tivermos uma surpresa viral vinda da floresta no Brasil, os pesquisadores têm onde estudá-la com segurança?

Dr. Morel: O Brasil não tem laboratórios de segurança máxima, os chamados de nível 4. Praticamente todas as universidades têm laboratórios de nível 2, mas de nível 3, como é necessário para estudar o SARS-CoV-2, há poucos. A Fiocruz tem dois, mas há fila para usá-los.

O médico comentou que há algum tempo o Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, isolou o vírus Sabiá. “Uma das moças da equipe ficou seis meses em coma. Felizmente o vírus não se espalhou.”

Em coautoria como o pesquisador Thiago Moreno Lopes e Souza, o Dr. Morel escreveu um artigo no qual indica que uma das fraquezas do mundo é a falta de bons laboratórios de segurança, e que a covid-19 reforçou a importância dos laboratórios BSL-3 como parte fundamental da estratégia de saúde pública para identificar microrganismos potencialmente prejudiciais rapidamente e desenvolver intervenções médicas. [7]

Medscape: Por fim, o que mais o preocupa, os vírus, as pessoas...?

Dr. Morel: Os cortes no financiamento da ciência.

Roxana Tabakman é bióloga, jornalista freelancer e escritora residente em São Paulo, Brasil. Autora dos livros A Saúde na Mídia, Medicina para Jornalistas, Jornalismo para Médicos (em português) e Biovigilados (em espanhol). A acompanhe no Twitter: @roxanatabakman.

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