Covid-19 prolongada: mais pistas, mas nenhuma grande descoberta

Kathleen Doheny

Notificação

24 de novembro de 2021

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2.

No final de abril de 2020, cerca de seis semanas após a pandemia mundial ser declarada, o fisioterapeuta Dr. David Putrino, Ph.D., estava no meio de uma reunião semanal com outros membros da equipe do Mount Sinai Health System, nos Estados Unidos, para avaliar a evolução dos pacientes com covid-19.

"Um dos membros da equipe mencionou que estava preocupado com um paciente que estava participando do programa de covid-19, mas ainda não estava bem em relação à fadiga e apresentava frequência cardíaca alta e problemas cognitivos", disse Dr. David, diretor de inovação em reabilitação no sistema de saúde.

"Então, vários médicos disseram em coro que tinham um paciente exatamente assim."

Uma busca no banco de dados revelou que os profissionais de saúde haviam identificado uma tendência.

Outros profissionais de saúde que atendiam pacientes com covid-19 estavam encontrando casos parecidos. Embora muitos pacientes que contraíram o vírus tenham se recuperado e voltado às suas rotinas normais relativamente rápido, outros apresentavam fadiga, dispneia, dor de cabeça e outros problemas de saúde por várias semanas ou até meses. Alguns não conseguiam trabalhar, cuidar de suas famílias ou até mesmo realizar tarefas cotidianas. Isso estava ocorrendo tanto com pacientes que haviam tido quadros graves como com quem tinha tido um quadro leve.

Agora, especialistas estimam que 10% a 30% dos sobreviventes da covid-19 possam desenvolver este quadro, chamado de covid-19 prolongada, diagnosticado quando sinais e sintomas de covid-19 que não podem ser explicados por outras causas persistem quatro semanas após a fase aguda da infecção.

Também é chamado de sequela pós-infecção aguda por SARS-CoV-2. "Estamos chegando a potencialmente 14 milhões de pessoas", disse o Dr. Steven Flanagan, médico, vice-presidente da American Academy of Physical Medicine and Rehabilitation (AAPMR) e chefe de fisiatria da NYU Langone Health, nos EUA.

Alguns especialistas alertam que este é "o próximo desastre de saúde pública sendo edificado".

Aguardando a hora da descoberta

Embora alguns tratamentos para covid-19 aguda tenham se mostrado notáveis, como a terapia com anticorpos monoclonais, ''na covid-19 prolongada ainda não houve nenhum momento de descoberta", disse Dra. Kathleen Bell, médica e professora e chefe da fisiatria no UT Southwestern Medical Center, nos EUA. Ela e outros especialistas concordam que ainda há mais perguntas do que respostas sobre a covid-19 prolongada.

Denise Crean

Até mesmo alguns médicos ainda não levam as queixas de pacientes com covid-19 prolongada a sério. Denise Crean, 55, uma ex-professora de educação especial de pré-escola, nos EUA, teve covid-19 em abril de 2021 – apesar de ter sido totalmente vacinada – e ainda apresenta uma fadiga tão debilitante que precisa parar para descansar após subir as escadas de casa.

“Um médico chegou a me dizer: 'Tenho pacientes com fadiga que mesmo assim vão trabalhar', contou Denise.

Um novo estudo publicado no periódico JAMA Internal Medicine sugere que a covid-19 prolongada pode ser psicossomática em algum grau. Mas o Dr. Francis Perry Wilson, médico, professor associado de medicina e diretor do Clinical and Translational Research Accelerator, Yale School of Medicine, nos EUA, escreveu em um artigo para o Medscape que considera o estudo "bastante problemático" e que o trabalho talvez necessite de um acompanhamento.

Houve progresso. Há pelo menos 44 clínicas de atendimento a pacientes pós-covid-19 em atividade nos EUA, que disponibilizam diversos tipos de especialistas para o atendimento à população com a doença. As pesquisas estão aumentando e a covid-19 prolongada já é considerada um tipo de incapacidade no país, segundo o Americans With Disabilities Act.

Não há um perfil de pacientes com covid-19 prolongada

Além de um tempo de recuperação da doença aguda maior do que o habitual, os especialistas não conseguem fornecer um perfil exato dos pacientes com quadro prolongado.

"A grande maioria não veio da unidade de terapia intensiva (UTI)", disse a Dra. Kathleen a respeito dos 650 pacientes tratados até agora na COVID Recover. O nível de incapacidade também varia. “Provavelmente 10% dos que apresentam o quadro estão enfrentando uma luta realmente dura”, disse ela. "Não sabemos por que eles são diferentes."

Caitlin Barber, uma nutricionista de 28 anos e ex-maratonista, está incluída nesses 10%. Após receber o diagnóstico, em abril de 2020, ela ficou tão debilitada que precisou de cadeira de rodas.

Caitlin Barber

"Em setembro, eu não conseguia ficar de pé, nem andar por sozinha." Seu quadro melhorou e ela está de volta ao trabalho. "Mas eu não tenho muita vida além do trabalho."

“Dá para prever quem tem maior probabilidade de adoecer de covid-19, mas, em termos de recuperação, realmente não há preditores”, disse a Dra. Kathleen.

Embora as crianças possam ser acometidas, ainda é algo ''extremamente raro em comparação com a frequência com que a doença acomete adultos", disse o osteopata Thomas Gut, diretor do Post-COVID Recovery Center e presidente associado de medicina do Staten Island University Hospital, nos EUA.

"Vimos menos de duas dúzias de casos pediátricos, contra cerca de 1.600 casos em adultos”, disse Dr. David. Quanto ao motivo, “nossa melhor hipótese é que as crianças tendem a ter casos muito mais brandos de covid-19 do que os adultos, então há menos inflamação, processos fibróticos ou eventos trombóticos ocorrendo”, disse Thomas.

“Estamos atendendo mais mulheres do que homens”, disse a Dra. Lekshmi Santhosh, fundadora e diretora médica da clínica COVID OPTIMAL e professora assistente de pneumologia e medicina intensiva na University of California, San Francisco (UCSF), nos EUA. Mais de 400 pacientes foram tratados na clínica, e uma coisa é certa, disse a Dra. Leskhmi: “Não há uma experiência padrão da covid-19 prolongada.”

Pesquisas por sintomas

Em algumas pesquisas, os pacientes com sintomas persistentes relataram mais de 200 sintomas. Mas outras pesquisas e médicos que tratam os pacientes disseram que a lista de sintomas comuns é geralmente mais curta.

Em uma pesquisa com 156 pacientes do Mount Sinai que responderam de 82 a 457 dias após covid-19, fadiga foi relatada por 82%, dificuldade de concentração por 67% e dor de cabeça por 60%. A realização de esforço físico teve maior probabilidade de exacerbar os sintomas, conforme relatado por 86%. Estresse e desidratação também pioraram os sintomas. E 63% relataram pelo menos comprometimento cognitivo leve. Os participantes também referiram ansiedade e depressão.

Os resultados dos testes nem sempre correspondem aos sintomas. "Vemos pacientes o tempo todo que se queixam de dispneia, mas na verdade seus pulmões estão bem, a tomografia computadorizada está boa, mas eles ainda sentem dispneia", disse Dra. Kathleen.

Uma possibilidade, disse ela, é que “pode haver problemas com os músculos de suas paredes torácicas. Isso ainda precisa ser provado, como quase tudo sobre esse assunto."

Outra possibilidade é que os sintomas persistentes podem ser devido a uma reação autoimune desencadeada pela infecção viral, disse Dr. David.

Além dos sintomas físicos, a condição também causa "uma verdadeira sensação de isolamento", disse Dr. Grant Mitchell, chefe do Departamento de Psiquiatria do Mount Sinai Beth Israel, nos EUA. Ele supervisiona um grupo de suporte virtual que normalmente tem de seis a oito pessoas presentes.

"Estar no grupo e ouvir pessoas com os mesmos sintomas faz com que as pessoas vejam que não estão sozinhas, e não é apenas um problema psicológico", disse ele.

Os participantes podem trocar estratégias de como falar com um familiar ou alguém que não acredite que estão realmente doentes. Um achado perturbador, disse o Dr. Grant, é que “estamos atendendo um número significativo de pacientes que relatam ter pensamentos suicidas”, o que ele defendeu justificar um estudo rigoroso.

Infecção pós-vacinação e covid-19 prolongada

Outra surpresa: alguns pacientes totalmente vacinados tiveram covid-19 prolongada. Denise, a professora da pré-escola, pensou que tinha desenvolvido uma sinusite grave cerca de três semanas depois de ter recebido a segunda dose da vacina. “Funcionários da escola disseram: 'Faça o teste'”, disse ela. O resultado positivo foi um choque.

Em pessoas totalmente vacinadas, no entanto, o risco de contrair covid-19 prolongada é "quase reduzido pela metade" em comparação com as não vacinadas, de acordo com um estudo recente. A frequência de quase todos os sintomas foi mais baixa entre pessoas vacinadas, em comparação com pessoas não vacinadas infectadas, e elas tiveram maior probabilidade de serem totalmente assintomáticas.

Diretrizes terapêuticas

Em suas diretrizes provisórias sobre o tratamento de quadros pós-covid-19, os Centers for Disease Control and Prevention (CDC) dos EUA afirmam que a ausência de alterações em exames laboratoriais ou de imagem não invalida a existência ou a importância da doença.

Os CDC sugerem o tratamento sintomático, buscando controlar sintomas como dor de cabeça, entre outros. Alguns médicos dizem que os CDC pegaram a estratégia emprestada da síndrome da fadiga crônica (SFC).

"O que aprendemos com a literatura da síndrome de fadiga crônica é recomendar atividades individualizadas para uma abordagem personalizada e que eles são capazes de tolerar", disse Dra. Sritha Rajupet, responsável pela atenção primária da Clínica Stony Brook Medicine Post-covid, nos EUA. Além de identificar e tratar sintomas específicos, ela incentiva os pacientes a encontrarem o próprio ritmo.

Melhoras no estilo de vida, como prática de exercícios e adoção de uma alimentação balanceada, também pode valer a pena, disse Dra. Sritha. Pode ser algo difícil de se fazer, reconheceu, quando a pessoa está com pouca energia.

Ouvir os pacientes é fundamental, disse a Dra. Sritha. "Muitos dos que vêm à nossa Clínica Pós-Covid-19 têm tido dificuldades de terem escutados."

Também é importante avaliar novos sintomas em pacientes com covid-19 prolongada, disse a Dra. Leskhmi, que diagnosticou casos de câncer metastático, doença inflamatória intestinal, entre outras doenças, quando o paciente ou médico presumiu que era um sintoma de covid-19 prolongada.

Provavelmente resolverá... em algum momento

Se há uma boa notícia é o fato de "geralmente ser uma síndrome autolimitada", disse Thomas. "Normalmente resolve dentro de três a seis meses, embora alguns apresentem sintomas persistentes por até um ano, especialmente nos domínios neurológico e cognitivo, como insônia, fadiga e falta de concentração."

A Dra. Kathleen concordou: "A maioria das pessoas melhora, mas pode levar muito tempo."

Receber atendimento em centro especializado pode acelerar a recuperação.

"Atualmente, nossos dados apoiariam a ideia de que, a partir do momento que o paciente começa a receber atendimento qualificado, podemos ajudar a resolver os sintomas de forma significativa em três meses", disse o Dr. David.

Em geral, disse ele, “90 a 100 dias de reabilitação faz com que os pacientes cheguem ao ponto de controlar o quadro sozinhos”. A equipe é composta de pneumologistas, cardiologistas, terapeutas ocupacionais e fisioterapeutas, nefrologistas, neurologistas, especialistas em saúde comportamental e assistentes sociais, conforme o necessário.

EUA têm esforços nacionais em andamento

Em setembro, os National Institutes of Health (NIH) dos EUA doaram quase 470 milhões de dólares para a Iniciativa RECOVER (Researching COVID to Enhance Recovery) descobrir por que alguns apresentam sintomas prolongados ou manifestam novos sintomas após a resolução da infecção aguda.

Pesquisadores da Langone Health da New York University receberam o financiamento principal e estão administrando financiamentos menores a mais de 100 pesquisadores de mais de 30 instituições.

Reconhecer a gravidade da covid-19 prolongada é o primeiro passo, disse Dr. Steven, da AAPMR. A instituição convocou a realização de um plano nacional para lidar com a covid-19 prolongada. O site DA AAPMR mantém um registro contínuo dos casos de covid-19 prolongada estimados por estado.

Covid-19 prolongada como incapacidade

Embora covid-19 prolongada seja definida como uma incapacidade de acordo com a Americans With Disability Act, receber benefícios sociais não é garantido.

"Os médicos podem dar aos pacientes uma carta dizendo que você acredita que eles a têm", disse Dra. Sritha, "mas isso não garante que os pacientes se qualifiquem a receber o benefício".

Em sua clínica, onde mais de 500 casos de covid-19 prolongada foram tratados, apenas um punhado precisava de benefícios de invalidez de longo prazo. Em sua experiência, os pacientes dizem que obter benefícios por invalidez é mais difícil do que obter o reembolso do seguro.

Um porta-voz da Administração da Previdência Social dos EUA (SSA) disse ao Medscape que para ser elegível para um programa de incapacidade, "uma pessoa deve ter uma condição médica que durou ou espera-se que dure pelo menos um ano ou resulte em morte."

De acordo com a SSA, a agência recebeu inscrições de cerca de 16.000 pacientes covid-19 prolongada desde dezembro de 2020, que forneceram evidências médicas de sua condição. Não se sabe quantos foram aprovados ou negados.

De 2009 a 2018, a administração recusou, em média, 66% dos pedidos de seguro de invalidez.

Covid-19 prolongada: problemas reais

Ajustar-se ao novo normal é crucial, segundo as pessoas que seguem na luta contra a covid-19 prolongada. Antes de receber o diagnóstico, Denise passava oito horas por dia de pé com seus alunos da pré-escola.

"Eu voltava para casa, cozinhava, arrumava a casa e lavava um monte de roupa suja", disse ela. "Meu corpo simplesmente não tem energia para realizar as coisas que eu preciso fazer." Recentemente, ela foi a uma loja buscar uma coisa – e foi tudo o que ela deu conta de fazer.

Depois de perder o emprego, Denise entrou no plano de saúde do marido, que, segundo ela, não é tão bom quanto o que tinha antes. Ela precisou parar de fazer fisioterapia porque precisava pagar 75 dólares de coparticipação. Ela está na lista de espera de uma aula de Tai Chi Chuan e sabe que se movimentar vai ajudar.

Um grupo de apoio pós-covid-19 em Stony Brook Medicine, onde ela recebe cuidados, tem sido sua tábua de salvação. “Foi uma graça divina para me ajudar a acreditar que estou sã”, desabafou. “Lá, as pessoas entendem.”

Caitlin também achou que o apoio foi útil, ao procurar um terapeuta e encontrar informações do Survivor Corps, um movimento de base que luta pela realização de pesquisas e oferece suporte. Além das batalhas imediatas, Caitlin precisou se adaptar ao fato de a covid-19 prolongada ter desandado os planos de vida, tanto dela como do marido.

"Adoraríamos comprar uma casa", contou, mas, com todas essas contas de tratamentos se acumulando, agora não vai dar.

Sua antiga autoimagem, como meia maratonista em boa forma, também mudou. "Eu mal consigo andar um quilômetro agora", disse. Ainda assim, Caitlin permanece esperançosa. "Os profissionais da Mount Sinai disseram várias vezes que acham que vou ter uma recuperação completa. Eles disseram que pode levar três anos, mas isso me motiva. "

Recuperada da covid-19 prolongada, ela olha para trás

Arianna Varas, 36, se considera totalmente curada da covid-19 prolongada. Ela voltou a trabalhar como assistente executiva para uma empresa de software. "A maioria dos sintomas que eu tinha até seis, oito meses atrás estão resolvidos. Tudo está praticamente de volta ao normal", disse ela.

Arianna Varas

A recuperação, no entanto, foi exaustiva. Antes, ela passou um período na UTI, ficou em ventilação mecânica por uma semana, foi internada em uma instituição de longa permanência durante um mês e, em seguida, ingressou no programa de recuperação pós-covid-19 no Mount Sinai, onde foi tratada por meses.

Ela está totalmente vacinada agora, mas teme ter covid-19 novamente. "Está na minha cabeça", disse ela.

Para as outras pessoas lidando com a covid-19 prolongada, Arianna aconselhou: “Você tem que ter paciência consigo mesmo e com a equipe médica. Se não você vai se sentir pior do que provavelmente já está se sentindo."

Um sistema de apoio – mesmo que seja apenas uma pessoa – é crucial, disse ela. "Fale com alguém em algum momento sobre como você está se sentindo.''

O mais importante? Concentre-se no positivo e no futuro. "Vai melhorar", disse Arianna. "Eu sei que parece clichê, mas com o tempo você volta a se sentir como antes. Você vai conseguir."

Nenhum médico informou conflitos de interesses relevantes.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....