Fórmula infantil enriquecida não oferece benefício cognitivo na adolescência, mostra estudo

Marcia Frellick

Notificação

23 de novembro de 2021

O desempenho acadêmico de adolescentes que receberam fórmula enriquecida com nutrientes ou com suplementos quando bebês não é superior ao dos que receberam fórmula tradicional, sugere um estudo publicado on-line no periódico BMJ.

“Um dos objetivos da alteração da fórmula infantil é fazer com que os desfechos cognitivos em longo prazo sejam semelhantes aos dos bebês que recebem aleitamento materno”, pontuaram os autores. As taxas de aleitamento materno para além de seis semanas são baixas em muitas partes do mundo, e mais de 60% dos bebês com menos de seis meses recebem fórmula para substituir ou suplementar o leite materno, afirma o estudo.

Até agora, as pesquisas não foram conclusivas em relação aos benefícios, embora as fórmulas sigam sendo aperfeiçoadas e as ações publicitárias refiram benefícios cognitivos. Os ensaios de longo prazo são difíceis, à medida que os pesquisadores mudam e perde-se o acompanhamento dos participantes.

Em um novo estudo, no entanto, pesquisadores liderados pelo Dr. Maximiliane L. Verfürden, com o University College of London's Great Ormond Street Institute of Child Health, no Reino Unido, relacionaram dados de sete testes de fórmulas infantis inativos, controlados e randomizados ao desempenho dos participantes enquanto adolescentes no Reino Unido, em exames nacionais obrigatórios de matemática e inglês aos 11 e 16 anos, e não encontraram diferenças nas pontuações.

Eles acompanharam 1.763 adolescentes que participaram dos estudos de fórmulas, conduzidos entre 1993 e 2001, e foram capazes de vincular 91,2% (1.607) aos registros acadêmicos.

Eles constataram que não houve "nenhum benefício das modificações nas fórmulas infantis sobre os desfechos cognitivos".

Três tipos de fórmula estudados

Neste estudo, os pesquisadores discutem três tipos amplamente disponíveis de fórmulas infantis modificadas que foram promovidas como benéficas para o desenvolvimento cognitivo: fórmula enriquecida com nutrientes; fórmula suplementada com ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa (AGPICL); e fórmula de uso após o sexto mês de vida fortificada com ferro.

Em um grupo de suplemento, o desempenho acadêmico foi pior do que naqueles que receberam a fórmula tradicional. Aos 11 anos, as crianças que receberam a fórmula com AGPICL tiraram notas mais baixas em inglês e matemática.

“Dadas as potenciais associações entre a fonte de AGPICL e desfechos adversos congnitivos, o acompanhamento prolongado em ensaios que testam fórmulas infantis de outras fontes de ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa é recomendado”, escreveram os autores.

Nutrientes podem ser deletérios, afirma editorialista

A Dra. Charlotte Wright, pediatra e epidemiologista do Royal Hospital for Children, na Escócia, que não participou do estudo, foi coautora do editorial que acompanha o artigo no periódico BMJ.

A Dra. Charlotte e a Dra. Ada L. Garcia, Ph.D. nutricionista da University of Glasgow, na Escócia, escreveram que os nutrientes em alguns enriquecimentos das fórmulas podem ser deletérios, e que os ensaios clínicos avaliando aleitamento geralmente têm sido malfeitos.

As editorialistas indicam uma grande revisão sistemática de estudos com fórmulas infantis publicada este ano no periódico BMJ por Helfer et al., que descobriu que a maioria foi financiada pela indústria alimentícia.

"A revisão de Helfer e colegas descobriu que 80% dos estudos tinham alto risco de viés, principalmente por causa de relatórios seletivos, com 92% dos Abstracts reportando achados positivos, apesar de apenas 42% dos estudos terem identificado diferenças estatisticamente significativas em um desfecho primário declarado", eles escreveram.

A Dra. Charlotte, que dirige uma clínica especializada em alimentação infantil, disse em uma entrevista que o estudo é valioso porque tem acompanhamento "até uma idade em que a cognição adulta pode ser avaliada de maneira robusta".

Ela observou que os autores dizem que aditivos que se mostraram deletérios ainda são adicionados rotineiramente.

"Agora há evidências de que adicionar ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa resulta em comprometimento cognitivo e que dar ferro extra para crianças saudáveis aumenta o risco de infecção e pode até retardar o crescimento", disse ela.

Mas propagandas dizendo o oposto são facilmente encontradas na internet, disse ela, mesmo que nenhuma declaração específica seja feita a seu respeito.

Ela deu o exemplo do anúncio de uma fórmula enriquecida muito consumida, que diz: "Nossa fórmula contém nossos níveis mais elevados de DHA (ômega 3 LCPs) e é enriquecida com ferro para auxiliar o desenvolvimento cognitivo normal."

Os estudos da fórmula foram feitos há mais de 20 anos, mas a Dra. Charlotte disse que isso não minimiza sua relevância.

Os componentes essenciais das fórmulas não mudaram muito, disse ela, e os aditivos ainda estão presentes.

Este trabalho foi apoiado pelo Economic and Social Research Council UCL, Bloomsbury e East London Doctoral Training Partnership e uma bolsa de pesquisa de caridade do Great Ormond Street Hospital. Os conflitos de interesses de todos os autores constam no artigo original. As Dras. Charlotte e Ada informaram não ter conflitos de interesses.

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