Sobrevida global de pacientes com câncer de mama positivo para ER ou HER2 dobrou

Nick Mulcahy

Notificação

23 de novembro de 2021

Atualmente, a sobrevida global mediana associada a dois dos três principais tipos de câncer de mama avançado é de pelo menos cinco anos – quase o dobro da sobrevida registrada na última década, diz especialista.

A população geral de pacientes com câncer de mama avançado teve “por muito tempo” uma sobrevida global de cerca de dois a três anos, observou a Dra. Fatima Cardoso, médica de diretora da Unidade de Mama do Centro Clínico Champalimaud, em Portugal. Ela presidiu um painel de diretrizes na Sixth International Consensus Conference (ABC 6), realizada on-line em meados de outubro. As diretrizes serão publicadas em 2022.

As observações a respeito da sobrevida no câncer de mama metastático feitas pela Dra. Fatima foram destacadas em dos comunicados de imprensa da conferência. A médica desenvolveu estas observações em uma entrevista ao Medscape.

Os dois tipos de câncer de mama avançado cuja sobrevida dobrou na última década são o câncer de mama positivo para o fator de crescimento epidérmico humano 2 (HER2, do inglês Human Epidermal Growth Factor 2) e o câncer de mama positivo para receptor de estrogênio (ER, do inglês Estrogen Receptor).

Os dados de sobrevida advêm majoritariamente dos dois mais importantes trabalhos sobre estes dois subtipos de câncer, os estudos CLEOPATRA (HER2+) e MONALEESA 2 (ER+), disse ela.

No estudo CLEOPATRA, a sobrevida mediana foi de 56,5 meses no grupo com HER2+ tratado com pertuzumabe, trastuzumabe e docetaxel como primeira linha.

E no estudo MONALEESA 2, a sobrevida mediana foi de 63,9 meses no grupo ER+ tratado com ribociclibe e letrozol como primeira linha.

A inferência da Dra. Fatima a respeito da sobrevida global na doença metastática é de natureza epidemiológica, mas está pautada em dados provenientes de ensaios clínicos, e não em registros de câncer ou outros grandes conjuntos de dados populacionais, como seria de se esperar na epidemiologia.

“Não temos bons dados epidemiológicos sobre câncer de mama avançado”, explicou a médica, ao falar a respeito do uso de conjuntos de dados provenientes de ensaios clínicos.

Isso ocorre porque a maioria dos registros de câncer do mundo não registra as recaídas, apenas diagnósticos e óbito. “Se você quiser saber quantos pacientes de fato convivem com o câncer de mama metastático, não saberá”, observou a Dra. Fatima.

A médica destacou que a coleta de dados sobre o câncer de mama metastático está mudando no mundo todo, e em algum momento, estes dados contribuirão para que os pesquisadores obtenham um retrato mais preciso da sobrevida.

Nos últimos anos, a ABC Global Alliance, que patrocina a conferência anual ABC, tem defendido que os países comecem a registrar as recidivas, fornecendo então uma contagem precisa dos casos de metástase. Desde então, França, Alemanha e Holanda estabeleceram registros de câncer de mama metastático do “mundo real”. Os resultados mais recentes publicados pela Alemanha e a França mostram uma sobrevida mediana de três anos – para todos os subtipos. No entanto, a sobrevida consideravelmente menor para a doença triplo-negativa puxa isso para baixo, disse a Dra. Fatima.

O grande problema é que esses tratamentos são muito caros. Esta é a maior limitação. Dra. Fatima Cardoso

Ainda assim, é legítimo fazer inferências a respeito da sobrevida geral, que se apliquem a todos os pacientes (incluindo aqueles no “mundo real”), com base nos resultados de dois grandes ensaios clínicos patrocinados por empresas farmacêuticas, que tendem a escolher os pacientes mais fisicamente aptos?

A Dra. Fatima contrapôs que tanto o estudo CLEOPATRA como o MONELEESA não tiveram “muitas restrições” no que se refere aos critérios de inclusão. Uma das poucas foi em relação à elegibilidade de mulheres cujo tempo entre a doença inicial e a progressão para doença avançada foi “muito curto”, o que é um cenário “incomum”, disse ela. A maioria das pacientes com câncer de mama avançado HER2+ ou ER+ “teria sido elegível para esses ensaios e tratamentos”, afirmou a médica.

“O grande problema é que esses tratamentos são muito caros. Esta é a maior limitação. Não é realmente o critério de inclusão dos ensaios, é o acesso”, concluiu.

Avanços no câncer de mama metastático

A Dra. Fatima observou que o câncer de mama HER2+ responde por cerca de 25% dos casos metastáticos. E agora esta população costuma viver por até 10 anos.

Em termos de sobrevida global, o câncer de mama ER+, que responde por cerca de 60% dos casos metastáticos, não apresenta exatamente o mesmo sucesso nos ensaios clínicos. Mas este ano a associação de ribociclibe e letrozol no estudo MONALEESA demonstrou um aumento na sobrevida geral semelhante ao observado no tumor HER2+, disse ela.

Assim, para cerca de 85% dos casos de câncer de mama metastático, a sobrevida mediana é de cinco anos, disse a Dra. Fatima.

Reflexões sobre outros tipos de câncer de mama metastático

Um desafio contínuo é encontrar “algum tipo de tratamento” que impacte o terceiro subtipo principal, a doença triplo-negativa, disse ela.

“Classificamos como triplo-negativo tudo o que não podemos classificar como HER2+ ou ER+”, observou a Dra. Fatima. Assim, o desafio da pesquisa é “tentar classificar a doença triplo-negativa como algo positivo” e, em seguida, ter esse biomarcador como alvo.

Recentemente, houve algum sucesso nesta área, observou ela.

Foi identificado um biomarcador no câncer de mama triplo-negativo, que tornou-se um bem-sucedido alvo terapêutico de um novo medicamento, o sacituzumabe govitecano, que é um conjugado de anticorpo e medicamento cujo alvo é o antígeno de superfície celular do trofoblasto humano 2 (Trop-2). O sacituzumabe govitecano obteve aprovação acelerada nos Estados Unidos em abril de 2020 com base nos dados de resposta, e desde então, confirmou o benefício clínico em um ensaio que revelou melhora na sobrevida global em cerca de cinco meses (em comparação com uma quimioterapia indicada pelo médico) na doença triplo-negativa metastática.

Convidado a comentar o estudo, o Dr. Harold Burstein, Ph.D., médico do Dana-Farber Cancer, nos Estados Unidos, disse ao Medscape por e-mail: “Nos últimos anos, houve avanços tremendos em relação às opções terapêuticas para os três principais tipos clínicos de câncer de mama avançado: HER2+, ER+ e triplo-negativo”.

“Estudos relatados nos últimos dois anos identificaram medicamentos em cada uma dessas áreas de tratamento que melhoraram a sobrevida global e aumentaram as opções para mulheres com câncer metastático”, disse ele.

“Novas classes de medicamentos, como inibidores de ponto de controle imunológico e inibidores de PARP estão em uso clínico e são agentes poderosos para pacientes com certos tipos de câncer de mama definidos por biomarcadores. Todo esse progresso é um bom sinal de que continuaremos a ver melhoras nos desfechos para mulheres com câncer de mama avançado”, disse ele.

A Dra. Fatima e o Dr. Harold informaram não ter conflitos de interesses.

Advanced Breast Cancer Sixth International Consensus Conference (ABC 6). Realizada on-line de 02 a 04 de novembro de 2021.

Nick Mulcahy é um premiado jornalista sênior do Medscape que se dedica especialmente à cobertura de pautas de oncologia. Entre em contato pelo e-mail: nmulcahy@medscape.net e siga-o no Twitter: @MulcahyNick

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