Ritmo cerebral prevê resposta à estimulação cerebral profunda na depressão grave

Megan Brooks

Notificação

22 de novembro de 2021

Novos achados mostram que o ritmo beta cerebral pode prever uma resposta robusta e precoce à estimulação cerebral profunda em casos de depressão grave, o que pode contribuir para otimizar e personalizar os protocolos de tratamento com a técnica, de acordo com pesquisas preliminares.

Em um pequeno estudo, pesquisadores descobriram que a estimulação breve no momento da implantação dos eletrodos para a estimulação cerebral profunda induziu a uma diminuição rápida e consistente na potência beta medida no local de estímulo, que se correlacionou com uma diminuição significativa e sustentada dos sintomas depressivos.

Dra. Helen Mayberg

“Paciente por paciente, a magnitude da diminuição da potência beta à esquerda foi capaz de prever o quão bem eles estavam uma semana depois”, explicou ao Medscape a pesquisadora do estudo, Dra. Helen Mayberg, médica e diretora fundadora do Nash Family Center for Advanced Circuit Therapeutics no Mount Sinai, nos Estados Unidos.

O estudo foi publicado on-line em 03 de novembro no periódico Translational Psychiatry.

Alvos ideais identificados

Oito adultos com depressão resistente ao tratamento foram submetidos a registro eletrofisiológico intraoperatório quando os eletrodos de estimulação cerebral profunda bilaterais foram implantados no cíngulo subcaloso.

Usando modelos de tractografia específicos do paciente antes da cirurgia, os pesquisadores identificaram o alvo ideal dentro do cíngulo subcaloso para a colocação do eletrodo.

Durante a cirurgia, foram administrados 20 minutos de estimulação nos alvos ideais definidos pela tractografia, sem estimulação nas quatro semanas após a cirurgia. Potenciais de campo locais – sinais elétricos entre neurônios nas profundezas do cérebro – foram registrados simultaneamente durante a estimulação intraoperatória.

Uma semana após a breve estimulação intraoperatória, os escores de depressão do paciente diminuíram 45,6% na escala de avaliação de depressão de Hamilton de 17 itens (HDRS-17).

Esta resposta antidepressiva precoce se correlacionou com uma diminuição na potência beta registrada no cíngulo subcaloso do hemisfério esquerdo, sugerindo que esse achado eletrofisiológico é um “biomarcador para otimização do tratamento”, observam os pesquisadores.

“Este estudo mostra mudanças reproduzíveis e consistentes na avaliação cerebral durante os primeiros minutos de estimulação otimizada em certos pacientes em centro cirúrgico”, disse a Dra. Helen em um comunicado à imprensa.

“Poucos minutos após a estimulação no centro cirúrgico, houve uma mudança no ritmo cerebral beta. Os pacientes que mostraram mudanças maiores, evoluíram com maior alívio de sua depressão na semana após a cirurgia”, acrescentou a Dra. Allison Waters, Ph.D., coautora no estudo e líder do núcleo de eletrofisiologia no Nash Center do Mount Sinai.

Parece que o declínio precoce dos sintomas depressivos é “parcialmente, mas não completamente, perdido” durante o período pós-operatório sem tratamento de um mês, observam os pesquisadores.

Além disso, ainda não se sabe se as mudanças induzidas pela estimulação intraoperatória na potência beta são preditivas de uma eventual resposta clínica prolongada à estimulação cerebral profunda terapêutica crônica do cíngulo subcaloso para depressão resistente ao tratamento.

Até o momento, no entanto, a estimulação cerebral profunda terapêutica crônica do cíngulo subcaloso nos locais “ideais” definidos pela tractografia levou a uma taxa de resposta de 88% (sete de oito pacientes) após seis meses de tratamento, relatam.

Um passo mais próximo da psiquiatria de precisão

“Esta linha de trabalho está levando a especialidade um passo mais próximo da psiquiatria de precisão”, disse ao Medscape o Dr. Shaheen E. Lakhan, Ph.D., médico neurologista nos EUA.

“Fora da psiquiatria, muitas doenças têm biomarcadores mensuráveis que se correlacionam com a presença ou gravidade da doença. Por exemplo, para diabetes há a hemoglobina glicada e para esclerose múltipla, as lesões cerebrais na ressonância magnética são diagnósticas e prognósticas. Infelizmente, na psiquiatria, os biomarcadores são pouco frequentes”, disse o Dr. Shaheen, que não participou estudo.

“Nas últimas décadas, um fenômeno interessante vem ocorrendo com a estimulação cerebral profunda para pacientes com Parkinson avançado – muitas vezes a depressão diminui e o humor melhora. Várias linhas de estudos tentaram separar se isso era principalmente devido ao alívio dos sintomas motores do Parkinson ou se a estimulação cerebral profunda está diretamente implicada na melhora do humor. E eis que um subconjunto de pacientes com depressão resistente ao tratamento demonstra melhora nos testes de depressão padronizados", acrescentou o Dr. Shaheen.

Este estudo agora mostra que o ritmo beta – um sinal cerebral profundo que o eletroencefalograma tradicional não consegue captar – “previu quem posteriormente se beneficiaria com a estimulação cerebral profunda no momento da implantação”, ele explicou.

“Isso é incrivelmente importante, não apenas para prever a resposta à estimulação cerebral profunda para a depressão, mas especificamente para que esse potencial biomarcador (ritmo beta profundo) se torne um alvo dentro e fora da cirurgia cerebral”, disse ele ao Medscape.

“Outros estudos de terapia, por exemplo, com medicamentos ou neuroativação e modulação digital não invasiva (DiNaMo), podem futuramente usar este biomarcador chave para otimizar seu desenvolvimento e maximizar o efeito em um determinado paciente”, previu o Dr. Shaheen.

“O desafio continua sendo o fato de esses sinais estarem em regiões profundas do cérebro e atualmente exigirem a implantação cirúrgica de eletrodos para seu registro. No entanto, tecnologias como a magnetoencefalografia, que usam um poderoso magnetismo externo, podem ser substitutas”, acrescentou.

O estudo recebeu apoio financeiro dos National Institutes of Health, da Brain Research through Advancing Innovative Neurotechnologies (BRAIN) Initiative e da Hope for Depression Research Foundation. Os dispositivos implantados nessa pesquisa foram doados pela Medtronic, Inc. A Dra. Helen recebe taxas de consultoria e licenciamento da Abbott Labs. O Dr. Shaheen informou não ter conflitos de interesses.

Transl Psychiatry. Publicado on-line em 02 de novembro de 2021. Texto completo

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