Liraglutida pode ser eficaz para reduzir a recuperação do peso após cirurgia de derivação gástrica

Marlene Busko

Notificação

18 de novembro de 2021

O agonista do receptor do peptídeo 1 glucagonoide (GLP-1, do inglês Glucagon-Like Peptide-1) liraglutida foi seguro e eficaz para tratar a recuperação do peso após a derivação gástrica em Y de Roux, em um ensaio clínico randomizado e controlado.

Cento e trinta e dois pacientes que perderam pelo menos 25% do peso inicial após a derivação gástrica em Y de Roux e, a seguir, recuperaram pelo menos 10% do peso foram randomizados na proporção de 2:1 para receber liraglutida junto com orientações regulares de um nutricionista sobre o estilo de vida ou apenas orientações sobre o estilo de vida.

Após um ano, 69%, 48% e 24% dos pacientes que receberam liraglutida perderam pelo menos 5%, 10% e 15%, respectivamente, do peso que tinham ao iniciar o estudo. Em contraste, apenas 5% dos pacientes no grupo de controle perderam pelo menos 5% do peso e nenhum perdeu pelo menos 10% do peso inicial.

"A administração de 3 mg/dia de liraglutida + modificação do estilo de vida foi significativamente mais eficaz do que o placebo no tratamento da recuperação do peso após a derivação gástrica em Y de Roux, sem aumento do risco de eventos adversos graves", resumiu a médica Dra. Holly F. Lofton esta semana em uma sessão na reunião virtual da ObesityWeek 2021.

A Dr. Holly, preceptora associada de cirurgia e medicina, e diretora do programa de controle do peso na NYU, Langone Health, nos Estados Unidos, explicou para o Medscape que iniciou o estudo após participar de uma sessão "lotada" sobre a recuperação do peso após a cirurgia bariátrica em uma conferência anterior da American Society of Metabolic and Bariatric Surgery.

"Os palestrantes recomendaram medidas conservadoras (como reiterar as recomendações de dieta, prática de exercícios e orientação) e cirurgias de revisão", disse a Dra. Holly por e-mail, mas na época "não havia literatura informando os melhores tratamentos farmacológicos para essa população".

Já se sabia que a diminuição dos níveis endógenos do GLP-1 coincide com a recuperação do peso, e a liraglutida foi o único agonista do receptor do GLP-1 aprovado para o tratamento regular do peso na época, então a pesquisadora montou o protocolo do estudo em tela.

Estes achados são particularmente úteis para os pacientes que não são candidatos à revisão da cirurgia bariátrica, observou Dra. Holly. São necessárias novas pesquisas para investigar o efeito de novos agonistas do GLP-1, como a semaglutida, na recuperação do peso após diferentes tipos de cirurgia bariátrica.

Dra. Wendy C. King

Convidada pelo Medscape para comentar o estudo, a bióloga Dra. Wendy C. King, Ph.D., que não participou da pesquisa, disse que mais de dois terços dos pacientes tratados com injeções subcutâneas de 3 mg/dia de liraglutida no estudo em tela perderam pelo menos 5% do peso inicial um ano depois, e 20% chegaram a ter um peso tão baixo quanto, ou menor que, seu menor peso após cirurgia bariátrica (nadir do peso).

"O fato de ambos os grupos terem recebido orientações de um nutricionista sobre o estilo de vida por pouco mais de um ano, mas somente os pacientes do grupo da liraglutida terem perdido peso, em média, informa sobre a dificuldade de perder peso após ter voltado a ganhar peso depois da cirurgia bariátrica", acrescentou Dra. Wendy, professora associada de epidemiologia na University of Pittsburgh nos EUA.

Este estudo “traz dados que podem ajudar os médicos e os pacientes a compreenderem o potencial efeito do acréscimo de 3 mg/dia de liraglutida à sua estratégia de perda ponderal", disse a comentarista para o Medscape por e-mail.

Entretanto, "dado que 42% dos pacientes recebendo liraglutida informaram efeitos colaterais digestivos, os pacientes também devem ser orientados sobre essa possível consequência e receber sugestões de como minimizar estes efeitos colaterais", sugeriu Dra. Wendy.

É comum voltar a ganhar peso, mas refazer a cirurgia implica risco

A recuperação do peso é comum mesmo anos após a cirurgia bariátrica. Refazer a cirurgia representa algum grau de risco, e as estratégias relacionadas com as modificações do estilo de vida isoladas raramente são bem-sucedidas na reversão do peso recuperado, disse Dra. Holly para a audiência.

Os pesquisadores recrutaram 132 adultos cuja média de peso era 134 kg no momento da realização da derivação gástrica em Y de Roux, e que perderam pelo menos 25% do peso inicial (média de perda ponderal: 38%) após a cirurgia, mas também recuperaram pelo menos 10% do peso inicial.

No recrutamento do estudo em pauta (início do estudo), os pacientes tinham feito a cirurgia de derivação gástrica em Y de Roux entre 18 meses e 10 anos antes (média 5,7 anos antes) e agora tinham um peso médio de 99 kg e média de índice de massa corporal de 35,6 kg/m2. Nenhum dos pacientes tinha diabetes mellitus.

Os pacientes foram randomizados para receber liraglutida (N = 89, 84% mulheres) ou placebo (N = 43, 88% mulheres) durante 56 semanas. A média de idade era de 48 anos e cerca de 59% eram brancos e 25% negros.

Todos os pacientes fizeram consultas trimestrais nas quais receberam orientações regulares de um nutricionista sobre o estilo de vida.

No 12º mês, os pacientes do grupo da liraglutida tinham perdido em média 8,8% do peso ao início do estudo, enquanto os do grupo do placebo tinham ganhado em média 1,48% do peso ao início do estudo.

Não houve diferenças significativas entre os grupos em termos de variáveis cardiometabólicas.

Nenhum dos pacientes do grupo de controle alcançou um peso tão baixo quanto o nadir do peso após a cirurgia de derivação gástrica em Y de Roux.

A incidência de náuseas (25%), constipação (16%) e dor abdominal (10%) no grupo da liraglutida foi maior do que a do grupo do placebo (7%, 14% e 5%, respectivamente), mas semelhante à dos efeitos colaterais gastrointestinais em outros ensaios clínicos com este medicamento.

A Dr. Holly F. Lofton informou receber honorários de consultorias e fazer parte do grupo de palestrantes da empresa Novo Nordisk, além de receber fundos de pesquisa das empresas Boehringer Ingelheim, Eli Lilly e Novo Nordisk. A Dra. Wendy C. King informou não ter conflitos de interesses financeiros relevantes ao tema.

ObesityWeek® 2021. Apresentado em 02 de novembro de 2021.

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