"Se a obesidade fosse diabetes ou câncer, como você a abordaria?"

Marlene Busko

Notificação

17 de novembro de 2021

Dr. Lee M. Kaplan

“Ao considerar os desafios da obesidade, pergunte-se: Se fosse diabetes, câncer, HIV ou Alzheimer, como você discutiria, abordaria, avaliaria, trataria?” Dr. Lee M. Kaplan, Ph.D. perguntou ao público de profissionais de saúde durante a reunião de 2021 da ObesityWeek®.

“E então faça o mesmo para a obesidade, usando todo o espectro de ferramentas à nossa disposição”, ele aconselhou.

Esta foi a lição que Dr. Lee, diretor do Obesity, Metabolism, and Nutrition Institute do Massachusetts General Hospital e professor associado da Harvard Medical School, nos Estados Unidos, deixou para a plateia ao final de sua palestra intitulada: What does the future of obesity care look like? (em tradução livre: Como será o futuro dos cuidados em obesidade?).

Convidado a resumir seus pontos principais, o Dr. Lee disse ao Medscape em uma entrevista que os profissionais que cuidam de pacientes com obesidade precisam primeiro "reconhecer que a obesidade é uma doença" causada pela disfunção do sistema metabólico que regula a gordura corporal – assim como uma desregulação do sistema imunológico pode levar à asma.

Em segundo lugar, "estamos finalmente desenvolvendo terapias não invasivas mais eficazes", observou ele, referindo-se à semaglutida aprovada recentemente, e terapias de perda ponderal ainda mais potentes, que podem estar no mercado dentro de três anos, de modo que os resultados da perda ponderal com farmacoterapia estão se aproximando dos obtidos com a cirurgia bariátrica.

Terceiro, é importante que os pacientes com obesidade tenham "acesso amplo e equitativo" ao tratamento, e os profissionais de saúde precisam estar em sintonia e ter um "entendimento compartilhado" de quais tratamentos são apropriados para cada pacientes, “como fazemos para outras doenças”.

Necessidade de consenso

Dra. Donna H. Ryan

"O Dr. Dr. Lee realmente nos trouxe a ideia de que precisamos de um consenso sobre o que é a obesidade – e o que não é", repercutiu em e-mail para o Medscape a Dra. Donna H. Ryan, que moderou o simpósio.

"Ele ressaltou a base biológica da obesidade", observou a Dra. Donna, professora emérita do Pennington Biomedical Research Center nos Estados Unidos e editora-chefe associada da Obesity, o periódico oficial da The Obesity Society.

"É uma desregulação do sistema regulador do peso corporal (especialmente do tecido adiposo)", continuou ela. “O corpo responde a pressões ambientais poderosas que produzem equilíbrio da energia em excesso, e nós armazenamos isso como gordura, e mantemos nossa maior massa de gordura. Isso faz com que a obesidade seja uma doença, uma doença crônica, que requer abordagem clínica para ser revertida. Não é um problema estético, é um problema de saúde”, enfatizou.

Há muita desinformação por aí sobre a obesidade, de acordo com a Dra. Donna.

“As pessoas pensam que é falta de força de vontade, e até os pacientes se culpam por não conseguirem perder peso e mantê-lo. Isso não é culpa deles! É biologia.”

Embora a indústria de suplementos e as dietas da moda façam promessas falsas de resultados rápidos, não existe dieta mágica, ela continuou.

"Mas fizemos progressos com base na compreensão da base biológica da obesidade e temos novos medicamentos que oferecem verdadeira esperança para os pacientes."

"Com 42% dos adultos dos EUA tendo um IMC que os qualificam como obesos, precisamos de um esforço amplo e orquestrado para resolver este problema, e isso começa com todos em sintonia sobre o que é obesidade (...) e um consenso sobre a base biológica da obesidade. É hora de levar a obesidade a sério", resumiu ela, reiterando a fala do Dr. Lee.

Uma questão de biologia

"A fisiopatologia da obesidade resulta da regulação inadequada da massa adiposa corporal", quando o corpo protege a adiposidade, explicou o Dr. Lee no início de sua palestra.

A estratégia de tratamento para a obesidade sempre foi uma abordagem gradual, começando com mudanças no estilo de vida, depois farmacoterapia e, então, possivelmente, cirurgia bariátrica – cada etapa com uma chance potencialmente maior de perda ponderal. Mas agora, ele explicou, a medicina está prestes a ter um arsenal de medicamentos mais potentes para emagrecer.

Em comparação com fentermina/topiramato, orlistate, naltrexona/bupropiona e liraglutida, que permitem uma perda ponderal de aproximadamente 5% a 10%, a administração de 2,4 mg de semaglutida por semana (um agonista do peptídeo 1 semelhante ao glucagon – GLP-1) tem o potencial de quase dobrar esta perda ponderal. A semaglutida foi aprovada pela Food and Drug Association (FDA) dos Estados Unidos em junho de 2021.

Dois novos agentes, que podem fornecer uma "perda ponderal nunca vista", de 25% do peso corporal, podem entrar no mercado em 2025: o agonista de amilina, cagrilintida e a tirzepatida (um polipeptídeo combinato insulinotrópico dependente de glicose e agonista do receptor de GLP-1).

Além disso, quando a liraglutida perder a patente, há o potencial de introdução de uma versão genérica do medicamento, e a liraglutida genérica + fentermina/topiramato genéricos pode ser uma opção de tratamento para perda ponderal mais barata no futuro, observou ele.

Não há um modelo universal

É importante ressaltar que a perda ponderal varia amplamente entre os pacientes.

Um gráfico de potencial perda ponderal com diferentes tratamentos (por exemplo, cirurgia bariátrica ou liraglutida) versus a porcentagem de pacientes que atingem a perda ponderal é aproximadamente em forma de sino, explicou Dr. Lee. Por exemplo, no estudo da semaglutida, STEP1, cerca de 7,1% dos pacientes perderam menos de 5% do peso inicial, 25% dos pacientes perderam 20% a 30% e 10,8% dos pacientes perderam 30% ou mais; ou seja, os pacientes na extremidade superior tiveram perda ponderal comparável à observada com a cirurgia bariátrica.

Adicionar farmacoterapia após a cirurgia bariátrica pode ser sinérgico. Por exemplo, no estudo GRAVITAS de pacientes com diabetes tipo 2 submetidos à cirurgia de redução do estômago, aqueles que receberam liraglutida após a cirurgia aumentaram a perda ponderal em comparação com aqueles que receberam placebo.

Pessoas chegam até o Dr. Lee em eventos sociais e dizem: “Quero perder 3 ou 5 kg", ele contou na sessão de perguntas e respostas. "Isso não é obesidade", enfatizou. A obesidade é o excesso de gordura corporal que representa um risco para a saúde. Uma pessoa com obesidade pode ter ≥ 25 kg em excesso, e o corpo está tentando manter esse peso.

“Se quisermos tratar a obesidade com mais eficácia, temos que entender plenamente por que esta é uma doença e como ela difere do desejo cultural pela magreza”, reiterou.

"Temos que manter as necessidades e objetivos de todas as pessoas que vivem com obesidade em primeiro lugar em nossas mentes, mesmo que muitas tenham sido previamente enganadas pelo preconceito, estigma, culpa e discriminação que as cerca."

"Precisamos reavaliar o que pensamos que sabemos sobre a obesidade e abrir nossas cabeças para novas ideias", acrescentou.

O Dr. Lee informou que é membro do painel consultivo da Eli Lilly, Gelesis, GI Dynamics, Novo Nordisk e Pfizer; presta consultoria para a Eli Lilly, Gelesis, IntelliHealth, Johnson & Johnson, Novo Nordisk, Pfizer e Rhythm Pharmaceuticals; e possui ações da Gelesis. A Dra. Donna informou prestar consultoria para a Novo Nordisk, Pfizer, Real Appeal, Epitomee, Gila Therapeutics, Xeno Biosciences, Calibrate, Wondr Health, Lilly, YSOPIA, Altimmune, IFA Celtic, Ro, Scientific Intake, Amgen e Zealand, e pertencer a um gabinete de palestrantes da Novo Nordisk, com participação acionária na Gila Therapeutics, Xeno Biosciences, Epitomee, Calibrate, Roman e Scientific Intake, e fazer parte do comitê diretor do SELECT da Novo Nordisk.

ObesityWeek® 2021. Simpósio apresentado em 02 de novembro de 2021.

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