Finerenona e sotagliflozina trazem benefícios na insuficiência cardíaca apesar da disfunção renal

Dr. Mitchel L. Zoler

Notificação

15 de novembro de 2021

Novas análises dos resultados do ensaio clínico para os medicamentos cardiorrenais finerenona e sotagliflozina mantiveram o padrão mostrando que trazem benefícios sistemáticos na insuficiência cardíaca (IC) em pacientes que se estendem por um amplo espectro de função renal, desacreditando ainda mais a ideia de que estágios mais avançados da doença renal crônica contraindicam uma conduta clínica agressiva.

A análise dos dados combinados de dois ensaios de aprovação do antagonista dos receptores mineralocorticoides não esteroides (MRA) finerenona (Kerendia), que juntos recrutaram mais de 13.000 pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal crônica, mostraram em maior detalhe que o tratamento com finerenona reduziu a incidência de hospitalização por insuficiência cardíaca e morte cardiovascular "no espectro" dos estágios 1 a 4 da doença renal crônica (DRC).

Esse espectro englobou pacientes com taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) de até 25 mL/min por 1,73m2 e pacientes com microalbuminúria ou macroalbuminúria, bem como pacientes com níveis normais de albumina urinária, disse o Dr. Gerasimos Filippatos, nas sessões científicas da American Heart Association.

E em outro relatório sem relação com o primeiro, a combinação de dados de dois ensaios clínicos de aprovação, com um total de quase 12.000 pacientes com diabetes tipo 2, para avaliar a sotagliflozina (Zynquista), novo fármaco ainda não aprovado que inibe as enzimas 1 e 2 do cotransportador de sódio-glicose (SGLT, do inglês Sodium-Glucose Cotransporter), mostrou um efeito homogêneo na redução significativa da morte de origem cardiovascular, da hospitalização por insuficiência cardíaca ou de eventos ambulatoriais urgentes de insuficiência cardíaca em pacientes com taxa de TFGe tão baixa quanto 25 mL/min por 1,73m2 disse o Dr. Deepak L. Bhatt na reunião.

A estes dois trabalhos soma-se um terceiro, apresentado apenas uma semana antes durante a “semana do rim”, mostrando que as vantagens do inibidor de empagliflozina (Jardiance) SGLT2 para a prevenção da hospitalização por insuficiência cardíaca ou morte de origem cardiovascular em pacientes com insuficiência cardíaca e fração de ejeção preservada permaneceram sistemáticas, mesmo em pacientes com TFGe tão baixa quanto 20 mL/min/1,73m2 , nos resultados do ensaio clínico EMPEROR-Preserved. Achados semelhantes com empagliflozina em pacientes com insuficiência cardíaca e redução da fração de ejeção no ensaio clínico EMPEROR-Reduced foram descritos há quase um ano.

Uma mensagem para os médicos evidenciada por estes relatos é: "não esperem que os pacientes tenham insuficiência cardíaca" para iniciar esses medicamentos, de acordo com a Dra. Dipti Itchhaporia médica e diretora do controle de doenças do Hoag Heart and Vascular Institute em Newport Beach nos Estados Unidos.

"É hora de começar a usar esses medicamentos antes de um quadro franco para ter menos pacientes com insuficiência cardíaca", disse a médica em uma entrevista.

Finerenona tem mecanismo de ação diferente da espironolactona

A nova análise da finerenona foi feita com 5.734 pacientes recrutados no ensaio clínico FIDELIO-DKD e 7.437 no ensaio clínico FIGARO-DKD, dois ensaios muito semelhantes que diferiram pela transposição do desfecho primário de um para o desfecho secundário do outro, e vice-versa. A análise combinada é conhecida como FIDELITY.

Dando mais informações sobre uma relatório apresentado pela primeira vez no congresso anual da European Society of Cardiology em agosto de 2021, Dr. Gerasimos trouxe alguns detalhes adicionais sobre a análise revelando um efeito sistemático da finerenona na prevenção da hospitalização por insuficiência cardíaca, e na prevenção do desfecho combinado de hospitalização por insuficiência cardíaca e morte cardiovascular, independentemente da gravidade da doença renal crônica até 25 mL/min por 1,73 m2. A análise estatística não mostrou nenhum indício de interação entre o efeito da finerenona nesses desfechos em pacientes com TFGe de 60 mL/min por 1,73 m2 ou mais e os pacientes com redução da função renal. As análises também não mostraram interação em termos de razão entre a albumina e a creatinina urinária, seja mais ou menos de 300 mg/g, informou Dr. Gerasimos, professor e diretor da unidade de insuficiência cardíaca do Hospital Universitário Attikon, em Atenas.

"Usamos antagonista dos receptores mineralocorticoides como a espironolactona nos pacientes com insuficiência cardíaca, mas é difícil usar por causa do risco para os pacientes com hiperpotassemia", observou Dra. Dipti, que acrescentou que a relutância em usar espironolactona é especialmente alta para os pacientes com comprometimento da função renal, o que poderia exacerbar a reação de hiperpotassemia. Evidências mostram que a finerenona apresenta um risco significativamente menor de aumentar os níveis séricos de potássio, tornando a finerenona um medicamento mais atrativo para uso em pacientes com doença renal crônica com alto risco de insuficiência cardíaca, bem como maior risco de hipercalemia, como os que participaram nos dois ensaios clínicos da finerenona, disse a especialista.

A sotagliflozina inibe exclusivamente a SGLT1 e a SGLT2

As novas análises da sotagliflozina descritas pelo Dr. Deepak combinaram dados de mais de 11.800 pacientes randomizados em um dos dois ensaios clínicos, SCORED, que randomizaram mais de 10.000 pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal crônica, e SOLOIST, que randomizou mais de 1.000 pacientes com diabetes tipo 2 que foram recentemente hospitalizados por piora da insuficiência cardíaca.

Uma análise pré-especificada para os dados combinados de ambos os estudos analisou o impacto do tratamento com a sotagliflozina no desfecho combinado de morte de origem cardiovascular, hospitalização por insuficiência cardíaca ou consulta ambulatorial de urgência por insuficiência cardíaca de acordo com a função renal no início do estudo. A análise mostrou que a sotagliflozina foi pelo menos tão eficaz para 8% dos pacientes estudados que ao início do estudo tinham TFGe de 25 a 29 mL/min por 1,73 m2, assim como em pacientes com função renal mais preservada.

Os benefícios do tratamento com a sotagliflozina "foram sistemáticos em toda a gama da TFGe", disse Dr. Deepak Bhatt, professor da Harvard Medical School nos EUA e diretor executivo de programas cardiovasculares intervencionistas no Brigham and Women's Hospital, também nos EUA.

Os resultados de uma segunda análise que Dr. Deepak apresentou também mostraram um efeito homogêneo da sotagliflozina na redução dos níveis de hemoglobina A1c nos pacientes recrutados, mesmo aqueles com os menores níveis de função renal, um efeito não visto anteriormente com a classe relacionada de inibidores do cotransportador 2 de sódio-glicose (empagliflozina, canagliflozina e dapagliflozina). Dr. Deepak sugeriu que, embora os inibidores do cotransportador 2 (da bomba) de sódio-glicose atuem inteiramente nos rins e, portanto, seu efeito sobre o controle glicêmico seja atenuado pela disfunção renal, a sotagliflozina também inibe a enzima SGLT1, que funciona no intestino para transportar a glicose do trato digestivo e para o sangue, constituindo uma via de controle glicêmico independente da função renal.

Os ensaios clínicos FIDELIO-DKD, FIGARO-DKD e FIDELITY foram patrocinadas pela Bayer, a empresa que comercializa a finerenona (Kerendia). Os ensaios clínicos SCORED e SOLOIST foram patrocinados pela Sanofi e, mais tarde, pela Lexicon, as empresas que criaram a sotagliflozina (Zynquista). Os ensaios clínicos EMPEROR-Preserved e EMPEROR-Reduced foram patrocinados pelas empresas Boehringer-Ingelheim e Lilly, que comercializam a empagliflozina (Jardiance). Dr. Gerasimos Filippatos tem tido relações financeiras com as empresas Bayer e Boehringer-Ingelheim, bem como com as empresas Amgen, a Medtronic, a Novartis, a Servier e Vifor. Dr. Deepak L. Bhatt recebeu financiamento de pesquisa das empresas Sanofi, Lexicon, Bayer, Boehringer-Ingelheim, Lilly e várias outras empresas, e prestou consultoria para a Boehringer-Ingelheim e várias outras empresas.

Este conteúdo foi originalmente publicado no MDedge.com parte da Medscape Professional Network .

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