COMENTÁRIO

AHA21 foi mais simples, mas não menos importante

Dr. Bruno Valdigem

Notificação

15 de novembro de 2021

As Sessões Científicas de 2021 da American Heart Association (AHA) terminam hoje com uma cara diferente. Eu acompanho esses eventos mais de perto desde 2015, e então posso falar como parte da minha geração. Nos primeiros anos que acompanhei, a tecnologia parecia mais desconectada do nosso uso habitual na clínica. Grandes trials com medicamentos caros e ainda indisponíveis tomavam boa parte das salas e das sessões de Late-Breaking Science. O espaço era quase que igualmente dividido com válvulas implantáveis (em 2015 o uso ainda estava limitado a pacientes de mais alto risco e raros grupos faziam no Brasil).

Corte seco para o congresso de 2021. Alguns estudos foram interrompidos precocemente, como o CHIEF-HF (canagliflozina na insuficiência cardíaca), e foram conduzidos quase que totalmente à distância. Um mérito conseguir manter a linha científica em meio a hospitais fechados, tendas improvisadas para o atendimento de pacientes com covid-19 e tanta confusão administrativa.

Sobre o evento deste ano, podemos dizer que, se não tivemos muitos resultados primordiais, por outro lado a maioria dos estudos buscou responder a perguntas que mereciam respostas fundamentadas. Os late-breakers apresentados pareceram se aproximar dos clínicos que queriam saber quanto tempo de suspensão do ticagrelor é seguro antes de enviar o paciente para cirurgia cardíaca (estudo RAPID-CABG). Hoje, esse trabalho vai ajudar grupos a montar novos protocolos institucionais para alta precoce pós cirurgia cardíaca.

Os cirurgiões, aliás, brilharam neste congresso. O estudo AVATAR sugere benefício na abordagem (cirúrgica) precoce da estenose aórtica. O CTCR-MVS chamou a atenção para a válvula tricúspide, e se posiciona como estudo negativo ao final de dois anos, mas humildemente entende que o resultado de abordagem de tricúspide associada a cirurgia mitral pode ser relevante ao final de cinco anos. Um estudo perdido no bloco de arritmias, o PALACS sugere uma técnica simples para redução de fibrilação atrial no pós-operatório (pequena incisão no pericárdio para reduzir a coleção de líquido no pós-operatório imediato). O cirurgião, que em vários momentos pareceu afastado do cardiologista clínico, se aproxima dele novamente.

Um estudo nacional, o GIRAF, mostra equivalência entre dabigatrana e varfarina na prevenção de déficit cognitivo na fibrilação atrial (desde que bem controlada, com INR na faixa terapêutica em 70% do tempo), o que é relevante em estratégias de tratamento populacional. Ainda que o tempo de seguimento seja curto (dois anos), os resultados são importantes.

Dois estudos no bloco de hipertensão chamaram minha atenção: o Remotely Delivered Hypertension and Lipid Program In 10,000 Patients Across a Diverse Health Care Network e o VILLAGE BP. O primeiro aproximou os pacientes de informação e de uma rede de atendimento a hipertensão (com pouco suporte médico) e demonstrou benefício quando comparado ao atendimento usual. O segundo treinou médicos dos vilarejos, também conhecidos como médicos descalços, na China, para tratar hipertensão e ampliar o suporte às comunidades rurais – resultando em 60% de controle da HAS comparado com menos de 20% no tratamento usual. O resultado não pode deixar de ser comparado ao do Black Barbershop Trial, apresentado no ACC em 2018. Pacientes que eram tratados por profissionais de saúde diretamente nas barbearias que frequentavam, tinham melhores resultados do que quando passavam com médicos nas clínicas de saúde.

Por que os estudos que não têm atendimento direto dos médicos têm tido mais sucesso? A resposta mais razoável é a acessibilidade. Aplicativos de atendimento on-line se multiplicaram como gremlins na pandemia. Muitos grupos tentaram se firmar no teleatendimento, com programas que parecem muito com os “concierge doctors”, muito populares nos Estados Unidos. Isso foi uma forma de encontrar o nicho de usuários com renda reduzida, que não tinham mais atendimento disponível pelos meios usuais.

O estudo VILLAGE BP mostrou uma visão na China que poderia ser reconhecida facilmente em regiões mais pobres do Brasil. Pessoas com pouco treinamento ajudando mais que médicos, pelo simples fato de estarem presentes. Eles foram adequadamente treinados e conseguiram um resultado superior ao publicado no estudo Prevalence, awareness, treatment and control of hypertension in rural and urban communities in Latin American countries, com dados de Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Peru e Uruguai (J Hypertens 2019 Sep;37(9):1813-1821).

Sem divagar mais, acessar o paciente via digital ou presencial pode ser a chave para o controle de doenças crônicas. Em locais ou cenários onde o contato não pode ser presencial, precisamos criar formas de trazer o paciente até o tratamento ou fazer com que a abordagem passe a ser parte da rotina dele (indo na barbearia ou abordando o cuidador mais especializado).

Mas é muito bom ter participado de um evento que buscou interagir com os seus maiores "clientes", os médicos que cuidam dos pacientes. Com certeza nós médicos não sentiremos falta do distanciamento entre quem vê o paciente no consultório e quem produz as informações relevantes. 

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