Administração precoce de adrenalina na parada cardíaca ligada a melhores resultados

Marlene Busko

Notificação

14 de novembro de 2021

Pacientes com parada cardíaca fora do hospital e ritmo de choque tendo recebido adrenalina em até quatro minutos após o primeiro choque da desfibrilação tiveram melhores resultados do que os que receberam adrenalina mais tarde, em um grande estudo observacional.

Especificamente, entre mais de 6.000 adultos nos Estados Unidos que tiveram uma parada cardíaca fora do hospital com ritmo de choque de 2011 a 2015, os que receberam adrenalina mais cedo em comparação com os que receberam mais tarde tiveram maior probabilidade de retorno pré-hospitalar da circulação espontânea, sobreviveram até a alta hospitalar e receberam alta com desfechos neurológicos favoráveis.

O Dr. Shengyuan Luo apresentou o estudo no American Heart Association (AHA) Resuscitation Science Symposium (RESS) 2021 , que está sendo realizado junto com as Sessões Científicas de 2021 da American Heart Association (AHA).

"Os dados sugerem que na parada cardíaca fora do hospital com um ritmo de choque, priorizar o tratamento precoce com adrenalina após o choque elétrico pode ser aconselhável", disse por e-mail ao Medscape o Dr. Shengyuan, residente em medicina interna no Rush University Medical Center, nos Estados Unidos.

Convidado a comentar, o Dr. Amal Mattu, que não participou do estudo, observou que os autores avaliaram a administração da adrenalina logo após o primeiro choque, "mas na realidade, o fundamental é ver quanto tempo após a parada cardíaca a adrenalina é administrada".

"A adrenalina precoce logo após a parada cardíaca é a chave", reforçou o Dr. Amal, professor e vice-diretor do Departamento de Medicina de University of Maryland School of Medicine, Baltimore nos EUA.

As limitações do estudo, acrescentou, foram o fato de ter sido retrospectivo e de "não sabermos quanto tempo os pacientes estavam em parada cardíaca antes de receber o primeiro choque, observou o comentarista.

"Por exemplo, se o paciente estivesse em parada cardíaca 10 minutos antes do primeiro choque, esperamos um resultado melhor do que se o paciente estivesse em parada cardíaca há 20 minutos".

Contudo, obter melhores resultados após a administração mais precoce de epinefrina "faz sentido", e os achados "se alinham com as diretrizes e opinião da maioria dos especialistas", segundo o Dr. Amal.

A desfibrilação "deve ser feita o quanto antes", disse o comentarista ao Medscape. "Depois disso, se a adrenalina for administrada logo, p. ex., nos primeiros 15 minutos da parada cardíaca, parece trazer mais benefício, porém a adrenalina administrada 20 minutos após a parada cardíaca não ajuda muito, e sua administração continuada depois disso está associada a um prognóstico reservado".

Dr. Shengyuan esclareceu que os pacientes nos grupos de tratamento da adrenalina precoce e tardia tiveram pontuações de propensão correspondentes para o tempo de resposta dos serviços médicos de urgência e o tempo de resposta da central dos serviços médicos de urgência até o primeiro choque.

O pesquisador reconheceu que outros fatores possam estar em jogo. "Em nossa opinião, o prognóstico associado à adrenalina pode depender de muitos fatores, como dose total, via de administração, frequência de doses, etc.", disse.

"Estudar o tempo de adrenalina é apenas parte de nosso esforço para avaliar exaustivamente os efeitos do tratamento na parada cardíaca". Por conseguinte, é necessário fazer pesquisas mais aprofundadas.

Cada minuto de atraso reduziu o resultado ideal em 8%

Pesquisas anteriores sugeriram que a adrenalina deveria ser administrada após três choques elétricos sem reversão do ritmo cardíaco com um desfibrilador externo automático, mas não ficou claro se a administração mais precoce da adrenalina após o primeiro choque elétrico, seria melhor.

Para examinar o valor da administração precoce e tardia da adrenalina na parada cardíaca, os pesquisadores identificaram 6.416 pacientes com parada cardíaca fora do hospital em ritmo de choque e que receberam adrenalina.

Os pacientes tinham mediana de idade de 64 anos, e 80% eram homens. Cerca de um terço dos pacientes (35%) receberam adrenalina em até quatro minutos após o primeiro choque.

A maioria dos pacientes (80%) teve retorno pré-hospitalar da circulação espontânea, cerca de um a cada cinco (19%) sobreviveram até a alta hospitalar, e um pouco menos (16%) receberam alta hospitalar com desfecho neurológico favorável.

Após ajuste pelos fatores de confusão, para cada minuto adicional de atraso na administração da adrenalina após o primeiro choque, o retorno pré-hospitalar da circulação espontânea diminuiu 5% (razão de chances de 0,95; intervalo de confiança, IC, de 95%, de 0,94 a 0,96), a sobrevida até a alta hospitalar diminuiu 9% (razão de chances de 0,91; IC 95%, de 0,89 a 0,92), e a alta com desfecho neurológico favorável diminuiu 8% (razão de chances de 0,92; IC 95%, de 0,90 a - 0,93) – P < 0,001 para todos.

Em comparação com os pacientes que receberam adrenalina em até quatro minutos após a primeira tentativa de choque, os que a receberam mais tarde tiveram cerca de metade da chance de ter retorno pré-hospitalar da circulação espontânea (razão de chances de 0,58; IC 95%, de 0,51 a 0,68), sobreviverem até a alta hospitalar (razão de chances de 0,50; IC 95%, de 0,43 a 0,58) ou de ter alta com boa função neurológica (razão de chances de 0,51; IC 95%, de 0,43 a 0,59) – P < 0,001 para todos.

As associações permaneceram significativas em uma pontuação de propensão bem-equilibrada com pareamento das análises de coorte e de subgrupo de acordo com as paradas cardíacas testemunhadas, o tempo de resposta do serviço de emergência médica e a dose total de adrenalina.

"É crucial que sempre que houver suspeita de parada cardíaca, o sistema médico de emergência seja notificado e ativado imediatamente, para que as pessoas recebam atendimento médico em tempo hábil que salve suas vidas", disse o Dr. Shengyuan em um comunicado de imprensa da AHA.

Estes achados embasam as mais recentes diretrizes de reanimação cardiopulmonar e de atendimento cardiovascular de emergência da American Heart Association, publicadas em outubro de 2020, que recomendam a administração de adrenalina o mais cedo possível a fim de maximizar a chance de bons resultados de reanimação, de acordo com dados observacionais.

O Dr. Shengyuan Lou e o Dr. Amal Mattu informaram não ter conflitos de conflitos de interesse relevantes.

Resuscitation Science Symposium (ReSS) 2021 simultâneo às sessões científicas da American Heart Association (AHA) 2021. Apresentado em 13 de novembro de 2021. Abstract R07.

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