Estudo ANCHOR pavimenta caminho para novas condutas no câncer anal em pessoas com HIV

Liz Scherer

Notificação

8 de novembro de 2021

O tratamento ou a remoção de lesões intraepiteliais escamosas de alto grau pode reduzir a probabilidade de câncer anal entre pessoas que vivem com HIV?

Dr. Joel Palefsky

“Em teoria, procurar e tratar as lesões de alto grau (como sabemos que funciona no colo do útero) é uma forma de potencialmente prevenir o câncer anal em pacientes de alto risco”, disse ao Medscape o Dr. Joel Palefsky, médico, pesquisador responsável do estudo Anal Cancer/HSIL Outcomes Research (ANCHOR) e fundador/diretor da Clínica de Neoplasia Anal da University of California, San Francisco (UCSF). “Mas nunca tivemos nenhuma evidência direta de que isso funciona", disse o especialista.

Os achados iniciais do ANCHOR – primeiro ensaio clínico randomizado a demonstrar que o câncer anal pode ser evitado nos pacientes de alto risco infectados pelo HIV – prometem mudar este paradigma e podem até mesmo pressagiar um novo tipo de conduta.

Sem dúvida, esta é uma notícia bem-vinda para a comunidade de pessoas que vivem com HIV, que não apenas têm maior risco global de lesões anais intraepiteliais escamosas de alto grau, como entre as quais os casos de câncer anal vêm aumentando na última década. Isto é especialmente verdade para as mulheres, que se presume deter grande parte da quantidade total de carcinoma anal de células escamosas associado ao papilomavírus humano (HPV, do inglês Human Papillomavirus) nos próximos 10 a 20 anos.

No estudo, 4.446 pessoas a partir de 35 anos de idade com HIV e lesões anais precursoras intraepiteliais escamosas de alto grau foram randomizadas para tratamento tópico (imiquimode intra-anal, perianal ou ambos; ou fluorouracila) ou ablativo (coagulação por raios infravermelhos, emissão de ondas de alta frequência/eletrocautério) ou conduta expectante, com acompanhamento semestral durante cinco anos. A população estudada foi muito representativa, contendo homens que fazem sexo com homens (HSH), mulheres cisgênero, pessoas transgêneros e minorias historicamente subrepresentadas, fator que reforça a importância do estudo especificamente nessa população.

Como o desfecho primário foi alcançado (ou seja, a determinação de se o tratamento e a remoção de lesões intraepiteliais escamosas de alto grau reduz de modo eficaz a incidência de câncer anal nos homens e nas mulheres infectados pelo HIV), o Comitê de Dados de Segurança suspendeu o recrutamento e recomendou que os participantes do grupo da conduta expectante também fizessem o tratamento. Embora os pesquisadores estejam atualmente trabalhando na publicação dos resultados, o estudo está em andamento.

Ainda assim, o estudo ANCHOR, que é um dos maiores estudos de rastreamento do câncer feito com pessoas vivendo com o HIV, também evidenciou desafios expressivos da forma como o câncer anal é abordado em geral.

Dr. Joseph Sparano

“O câncer anal tem muitas semelhanças com o câncer do colo do útero, para o qual o rastreamento das lesões pré-cancerosas e seu tratamento vêm demonstrando uma redução substancial da morbimortalidade”, disse o Dr. Joseph Sparano, oncologista especializado em câncer na infecção pelo HIV e no câncer de mama na Icahn School of Medicine at Mount Sinai, nos Estados Unidos. O Dr. Joseph é diretor e pesquisador responsável do AIDS Malignancy Consortium, mas não participou do estudo ANCHOR.

No entanto, ele explicou em uma entrevista para o Medscape que, “é muito mais difícil e tecnicamente complexo filtrar e avaliar a histologia do canal anal”, observando que Nova York é atualmente o único estado dos EUA a recomendar o rastreamento da displasia anal por anoscopia de alta resolução em homens e mulheres infectados pelo HIV.

A disponibilidade e o acesso à anoscopia de alta resolução são limitados, disse o Dr. Robert Yanchoan, médico e chefe do HIV and AIDS Malignancy Branch do National Cancer Institute’s Clinical Cancer Research Division e diretor do Office of HIV and AIDS Malignancy (que, aliás, copatrocinou o ANCHOR).

“Há relativamente poucas pessoas que fazem isso neste momento”, acrescentou o Dr. Robert em entrevista ao Medscape, indicando que, entre os que o fazem, a maioria é de ginecologistas/obstetras.

Dr. Robert Yarchoan

Cavar um pouco nos bastidores do ANCHOR revelou que este era um ponto de discórdia no início do estudo. Embora os médicos que participaram do estudo tenham recebido formação especializada em anoscopia de alta resolução, os ginecologistas/obstetras foram os mais rápidos a dominar a técnica e/ou tinham mais experiência prévia, sobretudo pela experiência de rastreamento para câncer cervical nas mulheres.

Mas as objeções iniciais do American Board of Obstetricians and Gynecologists (que à época insistiu que seus membros tratassem apenas mulheres e ameaçou cancelar o registro de quem participasse da pesquisa), quase puseram a perder o início do estudo, segundo uma reportagem do New York Times. Embora a razão tenha prevalecido e o conselho tenha voltado atrás em relação às suas declarações anteriores, a falta de formação especializada no procedimento pode sinalizar futuras barreiras ao tratamento.

Outro desafio reside em como os achados do estudo podem ser aplicáveis a outros grupos além da população com HIV/aids, como os pacientes com outras formas de imunodepressão apresentando lesões intraepiteliais escamosas de alto grau, ou mesmo mulheres ou homens saudáveis que estejam em risco devido a contacto sexual (com ou sem penetração) ou não sexual (p. ex., secreção vaginal para o ânus).

Embora não tenha podido compartilhar detalhes neste momento, o Dr. Joel disse que quando projetaram o estudo ANCHOR, estavam cientes de que “apenas mostrar eficácia não seria necessariamente suficiente para estabelecer uma conduta, enquanto outras informações seriam, sem dúvida, consideradas pelas entidades que fazem as diretrizes” (p. ex., a avaliação dos eventos adversos, os riscos e benefícios, e os fatores que influenciam a qualidade de vida).

“Com isso em mente, estamos fazendo um estudo de qualidade de vida e, na verdade, colaboramos, desenvolvemos e validamos o que acredito que seja o primeiro instrumento de qualidade de vida específico para doenças anais", disse Dr. Joel. “O trabalho ainda está em andamento, porque não completamos o recrutamento do estudo, mas estamos continuando como parte do acompanhamento.”

Os pesquisadores também obtiveram amostras para um biorrepositório de amostras que esperamos que facilite a melhor compreensão dos eventos moleculares que impulsionam a progressão das lesões pré-cancerosas para o câncer. "Muitas pessoas com HIV têm essas lesões de alto grau", disse Dr. Joel. “Se conseguimos identificar quem tem o maior risco de todos, seria muito importante, porque preferimos não tratar todos com doença de alto grau”, observou o pesquisador, acrescentando que a “esperança é que os biomarcadores encontrados nestes casos também sejam relevantes para outros tipos de câncer relacionados com o HPV", especialmente nas mulheres.

O Dr. Robert concordou. “Um dos desafios será digerir esta informação e ver como usá-la para poder resolver o crescente problema das mulheres com HIV", disse.

O Dr. Joel Palefsky, o Dr. Joseph Sparano e o Dr. Robert Yarchoan informaram não ter conflitos de interesses.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....