Covid-19: terapia antitrombótica não preveniu AVC

Daniel M. Keller

Notificação

2 de novembro de 2021

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Anticoagulação e/ou terapia antiplaquetária com diferentes tipos de medicamentos não previne acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico agudo em idosos com covid-19 que apresentam comorbidades, sugere nova pesquisa.

Desde o início da pandemia, a covid-19 vem sendo associada a um estado de hipercoagulabilidade, e os pacientes vêm recebendo terapia antiplaquetária e/ou anticoagulante de rotina, observaram os pesquisadores.

No entanto, os resultados de um estudo de coorte mostram que a "antiagregação profilática" com heparina de baixo peso molecular (HBPM) ou a anticoagulação oral "não reduziu estatisticamente o risco de AVC" em pacientes com covid-19, disse a pesquisadora Dra. Martina Di Pietro, médica residente de neurologia no Ospedale Santissima Annunziata, na Itália.

Os resultados foram apresentados on-line no XXV World Congress of Neurology (WCN 2021).

Possíveis mecanismos de ação

Em vários estudos anteriores, a incidência de AVC isquêmico agudo em pacientes com covid-19 variou de 0,9% a 2,7%, e esta incidência foi de 1,2% em uma análise agrupada com dados de 54 casos entre 4.466 pacientes, observou a Dra. Martina.

Um dos estudos estimou que o risco de AVC isquêmico agudo entre pacientes com covid-19 seria mais de sete vezes maior do que entre pacientes com influenza (razão de chances, RC, de 7,6; intervalo de confiança, IC, de 95% de 2,3 a 25,2).

A Dra. Martina indicou três possíveis mecanismos para o aumento do risco de AVC isquêmico agudo na covid-19: ligação do vírus aos receptores da enzima conversora de angiotensina 2 (ECA2) nas paredes dos vasos sanguíneos, causando vasculite; embolia cardíaca ou embolia paradoxal; e o reconhecido estado de hipercoagulabilidade que ocorre na covid-19.

Ela ponderou que, se a embolia cardíaca ou paradoxal fossem a causa do AVC, a anticoagulação deveria ter um efeito preventivo. Se a hiperagregação plaquetária desempenhasse um papel, os antiplaquetários poderiam ser benéficos.

Assim, o objetivo do estudo em tela foi investigar o papel da tromboprofilaxia na prevenção primária de eventos cerebrovasculares em pacientes com covid-19.

Uma coorte de 240 desses pacientes foi avaliada entre março de 2020 e março de 2021 para avaliar se a profilaxia antitrombótica previamente prescrita os protegeu da ocorrência de AVC isquêmico agudo e, em particular, qual foi a estratégia mais eficaz, antiagregação ou anticoagulação.

Sem redução do risco

Dentre os participantes do estudo, todos os quais tiveram covid-19, 11 (4,6%) também apresentaram AVC isquêmico agudo (nove mulheres; média de idade de 80 anos).

Os pacientes tinham fatores de risco cardiovascular anteriores: nove tinham história de pneumonia intersticial grave, quatro tinham história de múltiplos infartos cerebrais e dois não tinham evidência de oclusão vascular ou arterite. Entre os fatores de risco cardiovascular, o mais comum foi hipertensão, depois fibrilação atrial, diabetes, cardiopatia e estenose carotídea.

Os participantes com AVC isquêmico agudo receberam diferentes tipos de terapia antitrombótica, incluindo ácido acetilsalicílico (N = 3), HBPM + ácido acetilsalicílico (N = 2), um novo anticoagulante oral + ácido acetilsalicílico (N = 1), varfarina (N = 1) e doses profiláticas de HBPM  (N = 3). Um participante não estava recebendo nenhum antitrombótico.

Cinco pacientes tiveram alta para casa ou para outro centro de saúde; os outros seis morreram no hospital.

Como a profilaxia com antiagregação ou anticoagulação falhou em reduzir o risco de AVC isquêmico agudo na covid-19 e devido ao efeito protrombótico da ativação do receptor da ECA2, a Dra. Martina observou que bloquear a ligação do SARS-CoV-2 ao receptor pode ser benéfico.

Ela também sugeriu que os estudos angiográficos e post-mortem da vasculatura cérvico-cerebral podem lançar luz sobre o papel da vasculite como um potencial mecanismo de AVC isquêmico agudo.

Covid-19 ou outros fatores?

Comentando sobre o estudo para o Medscape, a Dra. Louise McCullough, Ph.D., médica e presidente do Departamento de Neurologia do University of Texas Health Science Center, nos EUA, observou que o achado mais importante foi a prevalência de 4,6% de AVC isquêmico agudo na coorte do estudo.

"Mas é devido à própria covid-19?", questionou a Dra. Louise, que não participou da pesquisa.

Ela observou que muitos dos pacientes tinham fatores de risco tradicionais, como hipertensão, fibrilação atrial e diabetes, "todos os quais podem levar ao AVC". Além disso, "esses pacientes também eram bastante idosos", disse ela.

A Dra. Louise não descartou a ideia de que a covid-19 possa causar AVC, mas disse que talvez apenas provoque inflamação, o que também aumenta o risco de AVC.

Ela também observou que, com apenas 11 pacientes que tiveram AVC, e diante do fato de eles terem recebido diferentes tipos de anticoagulantes e antiplaquetários, é impossível avaliar qual pode ter sido a melhor terapia.

A Dra. Louise sugeriu que os próximos estudos usem amostras correspondentes de pacientes com doença igualmente grave, como a síndrome do desconforto respiratório agudo ou outras infecções pulmonares não relacionadas à covid-19, e avaliem a taxa de AVC nesses pacientes.

A Dra. Martina e a Dra. Louise informaram não ter conflitos de interesses.

XXV World Congress of Neurology (WCN 2021). Apresentado de 03 a 07 de outubro de 2021.

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