Suplementação de proteína na covid-19: estudo

Equipe Medscape Professional Network

1 de novembro de 2021

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A extensão dos danos aos órgãos causados pela infecção pelo SARS-CoV-2 tem sido investigada. Um trabalho recente, coordenado pelos Drs. Dan Waitzberg e Paulo Ribeiro, caracterizou o impacto da suplementação alimentar oral de proteínas na evolução clínica de adultos hospitalizados por covid-19 com manifestações gastrointestinais sensoriais (p.ex., diarreia, constipação intestinal, náuseas, anorexia, dor abdominal e anosmia) que não conseguiram alcançar 60% das suas necessidades energético-proteicas diárias naturalmente.

“Vimos que os pacientes com essas manifestações dificilmente atingiram 60% das suas necessidades energético-proteicas, facilitando o surgimento da desnutrição”, disse ao Medscape o Dr. Dan Waitzberg, professor da faculdade de medicina da Universidade de São Paulo (USP).

O levantamento realizado no Hospital Sírio-Libanês e no Hospital de Caridade São Vicente de Paulo apontou que 63,6% dos pacientes internados tinham manifestações gastrointestinais no momento da admissão hospitalar. A anorexia foi o sintoma mais prevalente (44%), sendo mais comum entre pacientes mais graves do que entre os moderadamente enfermos. As análises mostraram ainda que a frequência de alta hospitalar foi de 83,1% entre pacientes que tiveram apenas manifestações respiratórias e de 54,6% entre aqueles que combinaram manifestações respiratórias com gastrointestinais sensoriais.

Foram incluídos no estudo indivíduos com resultado positivo no teste por reação em cadeia da polimerase (PCR, sigla do inglês Polymerase Chain Reaction) que precisaram de suporte ventilatório, porém, os autores não incluíram pacientes internados em unidades de terapia intensiva.

Os resultados do trabalho foram apresentados no congresso de 2021 da European Society for Clinical Nutrition and Metabolism (ESPEN) e submetidos para publicação em periódico científico revisado por pares.

No primeiro dia de acompanhamento, os pacientes com anorexia + algum sintoma gastrointestinal sensorial, tiveram maior probabilidade de não alcançar 60% das necessidades energético-proteicas. A suplementação alimentar oral com uma fórmula industrial foi dada aos pacientes que não conseguiram atingir esse patamar por dois dias consecutivos.

O quadro inflamatório intenso da covid-19 modifica o consumo energético dos pacientes. “Quando há inflamação, o organismo precisa basicamente de glicose como fonte energética, e ela só pode ser dada pelos carboidratos ou pela degradação das proteínas.”

Agrava essa situação o fato de o paciente não conseguir se alimentar para obter o aporte necessário de nutrientes para a produção de adenosina trifosfato (ATP), principal molécula carreadora da energia química utilizada nas mais diversas reações celulares.

“Embora só se fale de músculos (a chamada massa magra), a perda proteica é generalizada. A gente não enxerga o que está acontecendo lá dentro, mas o fígado, o baço, o rim, o intestino, tudo está diminuindo. E à medida que você perde função, a sua capacidade de reação diminui”, disse o Dr. Dan ao Medscape

Os resultados evidenciaram que a suplementação de proteína energética teve um impacto positivo nos participantes do estudo. Apesar de o tempo de permanência hospitalar desses pacientes ter sido maior do que o daqueles que não tiveram problemas em relação ao aporte de nutrientes diário (média de três dias a mais), a taxas de alta hospitalar foi semelhante entre os dois grupos: 90,8% versus 91,3%, respectivamente.

 "Quando conseguimos intervir precocemente com a suplementação adequada, como fizemos nestes casos, estamos nutrindo o organismo para que produza ATP e evite maior degradação proteica, dando condições para que o sistema imunológico se defenda melhor, porque tem energia e proteína para fazer novas células. Tudo isso pode reduzir o tempo de hospitalização e eventualmente a mortalidade”, disse o especialista.

O estudo Gastrointestinal and Sensory Simptons, Nutritional Management, and Energy-Protein Intake in Hospitalized Patients With Covid-19, coordenado pelos médicos brasileiros, é parte do projeto global NutriCOVer, da Danone Nutricia – divisão de nutrição especializada da indústria alimentícia Danone. A iniciativa financiou estudos de pesquisadores independentes de pelo menos 16 países, segundo a empresa, com o objetivo de impulsionar a discussão do impacto nutricional da covid-19 e o uso de terapia nutricional especializada durante a recuperação da doença.

Para o Dr. Dan, o estado nutricional dos pacientes deveria receber mais atenção: “ainda falta consciência sobre a sua importância e as suas consequências.” 

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