Temas mais buscados em outubro de 2021: Ácido acetilsalicílico

Ryan Syrek

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29 de outubro de 2021

A cada semana nós identificamos um termo mais buscado, procuramos descobrir o que causou a sua popularidade e fazemos um infográfico sobre uma doença ou quadro clínico relacionado. Se você tiver alguma ideia sobre o que está sendo uma tendência e por que razão, compartilhe com a gente no Twitter ou Facebook !

Uma proposta de modificação das recomendações para a prevenção da doença cardiovascular (DCV), junto com estudos sobre a ação do ácido acetilsalicílico (AAS) em outras doenças, se tornaram o tema clínico mais buscado da semana. As novas recomendações preliminares da US Preventive Services Task Force (USPSTF) sobre o uso do ácido acetilsalicílico na prevenção primária da doença cardiovascular restringem a população a ser considerada para fazer a profilaxia (ver infográfico mais abaixo).

A força-tarefa afirma que baixas doses de ácido acetilsalicílico para adultos entre 40 e 59 anos de idade e risco cardiovascular ≥ 10% em 10 anos trazem pouco benefício e que a decisão de fazer a profilaxia deve ser tomada caso a caso. Além das recomendações para a prevenção da doença cardiovascular, a força-tarefa também modificou as antigas recomendações para o uso do AAS na prevenção do câncer colorretal, dadas as evidências provenientes de grandes ensaios clínicos de prevenção primária da doença cardiovascular. As recomendações preliminares estarão disponíveis para receber comentários do público até 08 de novembro. Após finalizadas, estas diretrizes irão substituir as diretrizes de 2016 da força-tarefa para uso do ácido acetilsalicílico na prevenção da doença cardiovascular e do câncer colorretal.

Alguns críticos estão preocupados com as declarações preliminares. A Dra. Melissa Walton-Shirley, médica cardiologista nos Estados Unidos, disse que embora ela não veja nenhum problema com os dados, a declaração pública está, na melhor das hipóteses, incompleta, e na pior das hipóteses é perigosa.

“Como médicos, sabemos usar estas informações da melhor forma possível, mas a maioria dos leigos, alguns com risco cardiovascular importante, fechou sua caixa de remédios esta manhã e deixou o frasco de ácido acetilsalicílico dentro", escreveu a médica.

“Alguns desses pacientes nunca passaram uma hora no hospital por quadros cardíacos, mas diminuíram seu risco de infarto agudo do miocárdio ao intoxicar propositalmente suas plaquetas com 81 mg diários de ácido acetilsalicílico. E deveriam continuar fazendo isso”. Dra. Melissa pensa que a afirmação deveria ter incluído, pelo menos, a sugestão de consultar um médico antes de suspender a profilaxia com o AAS.

Uma recente metanálise sobre o ácido acetilsalicílico para a prevenção cardiovascular encontrou respaldo para o controverso “conceito de polifarmácia". Isto refere-se às associações de doses fixas de medicamentos cardiovasculares genéricos de baixo custo, em um só comprimido ou não. Uma nova análise com pacientes de três grandes ensaios clínicos randomizados, feita com mais de 18.000 participantes, discutivelmente também avaliou se o acréscimo do ácido acetilsalicílico a pelo menos dois anti-hipertensivos e um estatina teve alguma diferença nos desfechos nos ensaios clínicos (TIPS-3, HOPE-3 e PolyIran). Em conjunto, os ensaios clínicos sugerem uma queda muito importante de 38% do risco do desfecho primário da metanálise – um composto de morte de origem cardiovascular, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral ou revascularização arterial – entre os participantes recebendo esquemas de dose fixa, para um número necessário para tratar (NNT) de 52. Além disso, “os maiores efeitos foram nas estratégias de associação de doses fixas contendo ácido acetilsalicílico”, com queda de 47% do desfecho primário e menor número necessário para tratar (37), disse o Dr. Philip Joseph, médico do Population Health Research Institute, Hamilton no Canadá, ao apresentar o estudo durante o European Society of Cardiology Congress 2021, inteiramente virtual. Por outro lado, o tratamento farmacológico com associação em dose fixa também trouxe benefícios significativos em termos do desfecho primário quando o AAS não estava incluído no esquema, observou o Dr. Philip, primeiro autor do artigo sobre o estudo publicado em 29 de agosto no periódico Lancet.

Em relação ao papel do ácido acetilsalicílico em outras doenças, um estudo recente constatou que o AAS e a heparina aumentam o risco de sangramento durante procedimentos intravasculares. Novos dados mostraram que o tratamento com ácido acetilsalicílico ou heparina foi associado a aumento do risco de hemorragia intracraniana sintomática nos pacientes com acidente vascular cerebral isquêmico fazendo algum procedimento intravascular. Os pesquisadores fizeram o ensaio clínico randomizado e controlado, multicêntrico MR CLEAN-MED no intuito de avaliar o efeito da administração intravenosa de ácido acetilsalicílico e de heparina, isoladamente ou associados, durante o procedimento intravascular após um acidente vascular cerebral isquêmico agudo. O grupo do ácido acetilsalicílico apresentou risco significativamente maior de hemorragia intracraniana sintomática em comparação ao grupo sem AAS (14,0% versus 7,2%; razão de chance ajustada = 1,95). A incidência de hemorragia intracraniana sintomática foi de 11% no grupo que recebeu baixa dose de heparina; de 26% no grupo que recebeu dose moderada de heparina (razão de chance ajustada de 6,05). Os índices de evolução para o óbito foram de 23% no grupo da baixa dose e de 47% no grupo da dose moderada (razão de chance ajustada = 5,45).

Outro estudo também identificou benefícios com o uso de ácido acetilsalicílico em baixa dose para mulheres com lúpus eritematoso sistêmico com risco de pré-eclâmpsia. Em um estudo prospectivo na vida real contando com 190 gestações de 148 mulheres, o ácido acetilsalicílico iniciado em torno da 16ª semana de gestação foi associado a menor risco de pré-eclâmpsia do que não usar ácido acetilsalicílico (razão de chance ajustada = 0,21; P < 0,05). A prevalência global de pré-eclâmpsia na população do estudo foi de 13,2%. Os índices de cada um dos quatro grupos de tratamento foram de 15,4% com o ácido acetilsalicílico isolado, 7,7% com a hidroxicloroquina isolada, 14% com os dois medicamentos e 14,5% sem nenhum dos dois.

De novas recomendações sobre a prevenção primária da doença cardiovascular a outros potenciais riscos e benefícios, possíveis notícias de mudança de conduta tornaram o ácido acetilsalicílico o tema clínico mais buscado da semana.

Leia mais sobre a prevenção da doença cardíaca.

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