Lúpus pode aumentar o risco de morte por covid-19

Sara Freeman

Notificação

27 de outubro de 2021

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Pacientes com lúpus eritematoso sistêmico (LES) apresentam risco significativamente maior de morte por síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) associada a covid-19 do que a população geral, segundo os dados coletados no Brasil em 2020.

“Portanto, é necessário prestar atenção especial a esses pacientes, bem como reforçar a importância das medidas preventivas durante a pandemia para esta população”, disse a reumatologista Dra. Eloísa Bonfá, Ph.D., no 14th International Congress on Systemic Lupus Erythematosus (LUPUS 2021), que foi realizado junto com o 6th International Congress on Controversies in Rheumatology and Autoimmunity (CORA).

“Sabemos que os pacientes com lúpus são mais suscetíveis a infeção por desequilíbrio autoimune e uso de imunossupressores”, explicou a Dra. Eloísa, diretora médica do maior centro de referência terciário para doenças reumatológicas autoimunes na América Latina, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

“Nosso estudo demonstra pela primeira vez que os pacientes com lúpus apresentam aumento da gravidade da síndrome do desconforto respiratório agudo”, acrescentou a especialista.

O estudo foi publicado no periódico ACR Open Rheumatology.

Cotejando as evidências

Desde o início da pandemia da covid-19, houve mais de 20 milhões de casos confirmados de infecção pelo SARS-CoV-2 no Brasil, e mais de meio milhão de mortes.

A Dra. Eloísa apresentou os resultados de um estudo transverso, parte do Sistema de Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep). Foram utilizados dados de 2020, com pouco mais de 252.000 pacientes com infecção pelo SARS-CoV-2 confirmada via teste por reação em cadeia da polimerase (PCR, do inglês Polymerase Chain Reaction). Dentre estes pacientes, 319 com lúpus eritematoso sistêmico foram recrutados de modo consecutivo.

O objetivo foi observar o efeito de ser internado por SDRA associada a covid-19 nos desfechos dos pacientes com lúpus eritematoso sistêmico em comparação aos da população geral.

A SDRA associada a covid-19 foi definida como: obter resultado positivo para infecção pelo SARS-CoV-2 no PCR e apresentar sinais e sintomas gripais, com dispneia, desconforto respiratório, sensação de pressão torácica persistente ou saturação < 95% em ar ambiente ou cianose nos lábios ou na face.

Outros sinais reveladores de infeção respiratória grave que foram avaliados, mas não foram obrigatórios para a elegibilidade para o estudo, foram anosmia, disgeusia, achados típicos na tomografia computadorizada (TC) ou contato com algum caso confirmado de covid-19 nas duas semanas anteriores.

Principais conclusões

O risco de morte por SDRA associada a covid-19 foi “mais de duas vezes maior” em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico em comparação com a população geral, informou a Dra. Eloísa. O risco relativo (RR) na análise plenamente ajustada, com pontuação de propensão, foi de aproximadamente 2,25.

Essa análise não levou em consideração outras comorbidades, mas foi plenamente ajustada por idade, sexo e local de residência no Brasil. Este último dado foi importante, disse a Dra. Eloisa, porque “temos uma grande disparidade entre as regiões de acesso à saúde e ao tratamento”.

As comorbidades consideradas como parte das análises foram hipertensão arterial sistêmica, diabetes, câncer, doença neurológica e doenças que acometem os órgãos vitais: coração, pulmão, fígado e rim.

Os pesquisadores também ajustaram por tabagismo, consumo de bebida alcoólica, peso corporal, gestação e história de transplante, e o lúpus eritematoso sistêmico teve maior impacto nos desfechos dos pacientes do que todas as outras comorbidades consideradas.

“Avaliamos o lúpus como uma comorbidade comparada a todas as outras comorbidades”, explicou Dra. Eloísa.

Ter lúpus eritematoso sistêmico “mais do que duplicou a probabilidade” de morte por SDRA, disse a pesquisadora. “Este é um achado muito expressivo.”

Os pesquisadores observaram que o lúpus eritematoso sistêmico foi associado a um risco relativo de morte de 1,73, em comparação ao lúpus eritematoso não sistêmico, ao utilizar a correspondência da pontuação de propensão sem ajuste para comorbidades. O risco relativo de óbito caiu para 1,40, mas ainda foi significativo quando os pesquisadores incluíram as comorbidades.

Dra. Eloísa e sua equipe também analisaram um desfecho combinado de morte, internação na unidade de tratamento intensivo (UTI) e necessidade de ventilação mecânica. Os pesquisadores identificaram aumento do risco entre os pacientes com lúpus eritematoso sistêmico versus a população geral em todas as suas análises, variando de 1,70 caso as comorbidades fossem incluídas no modelo a 1,27 se não fossem, e a 1,39 se a pontuação de propensão fosse usada isoladamente.

Tem lúpus? Vacine-se

“Os dados que temos são de pacientes não vacinados", disse Dra. Eloísa. “Não tínhamos vacinas em 2020.”

Se a vacinação puder fazer diferença nos riscos identificados neste estudo é uma “questão interessante”, que precisa ser avaliada no futuro.

Certamente, outro trabalho no qual a Dra. Eloísa participou parece indicar um provável benefício da vacinação nos pacientes com doenças autoimunes em termos de redução da mortalidade por covid-19, mesmo com o aumento do número de infecções.

“Existe uma hesitação vacinal considerável entre os pacientes com lúpus eritematoso sistêmico”, observou o médico Dr. Chi-Chiu Mok, do Hospital Tuen Mun, em Hong Kong, em outra apresentação no congresso.

Isto pode ocorrer por várias razões, como a preocupação de que a doença possa se agravar ou a vacina possa comprometer o tratamento farmacológico ou causar complicações inesperadas.

Entretanto, “devemos estimular nossos pacientes com lúpus eritematoso sistêmico a tomar a vacina anticovídica em um momento de remissão clínica ou de baixa atividade da doença”, orientou Dr. Chi-Chiu.

“O distanciamento físico, as máscaras e as medidas de higiene pessoal” também devem ser mantidos.

A questão dos pacientes com lúpus eritematoso sistêmico é se vacinar, reforçou a médica Dr. Sandra Navarra, do Hospital da Universidade de Santo Tomas nas Filipinas, durante a discussão.

“Ainda não sabemos de muitas coisas”, disse a médica. “Simplesmente se vacine.”

O estudo não teve financiamento externo. A Dra. Eloísa Bonfá, o Dr. Chi-Chiu Mok, e a Dra. Sandra Navarra informaram não ter conflitos de interesses.

LUPUS and CORA 2021. Apresentação oral. 07 de outubro de 2021.

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