Para especialistas, grande desafio do laboratório de microbiologia é fazer muito com pouco

Pamella Lima (colaboraram Teresa Santos e Dra. Ilana Polistchuck)

Notificação

26 de outubro de 2021

O 2° Congresso Virtual da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML), realizado em setembro, reservou espaço para algumas controvérsias em microbiologia. Os especialistas destacaram a importância do controle de qualidade nos laboratórios de microbiologia e os desafios enfrentados pelos profissionais diante da escassez de recursos.

A biomédica e microbiologista Carmen Paz Oplustil, diretora da Formato Clínico, enfatizou a importância de mapear o fluxo dos processos da microbiologia para que seja realizada uma avaliação financeira do que precisa ser feito. Isso quer dizer que a microbiologia não é um mundo à parte, devendo ser contemplada tanto no sistema de gestão laboratorial como nas ações de gestão de qualidade do laboratório. Para a especialista, o maior desafio é a garantia da qualidade interna – o controle de insumos e a verificação de métodos, que é o que mais causa discussão de como fazer e como viabilizar.

“Temos que atestar que estamos obtendo bons resultados, confiar no que temos e estamos fazendo. Em caso de qualquer dúvida no resultado, precisamos ter certeza de que não há desvio de algum insumo, mas que se trata de um resultado anormal. É nisso que precisamos pensar quando falamos de qualidade”, explicou, lembrando que os reagentes devem ser testados de rotina, pois boa parte dos erros ocorrem em consequência de problemas nesses produtos.

A biomédica também apontou que o ideal é implementar um sistema de controle de qualidade com testagem de reagentes, corantes e kits, no mínimo, uma vez por semana ou sempre que houver um novo lote. “Fazer microbiologia é muito caro e manter a qualidade também”, disse.

Microbiologia: cara ou mal remunerada?

O laboratório em microbiologia foi apresentado por dois pontos de vista: do serviço público e serviço privado. A médica e patologista Dra. Maria Gabriela de Luca Oliveira, coordenadora do Laboratório de Análises Clínicas do Hospital de Base de São José do Rio Preto, mostrou algumas características do hospital que está alocado na faculdade de medicina da cidade. Segundo ela, a instituição é referência na área de transplantes no noroeste paulista, realiza cerca de seis mil atendimentos por mês e uma média de 327 mil exames, sendo 9.255 da microbiologia. Dentro da área microbiológica, urocultura, hemocultura e cultura de orofaringe e outras secreções estão entre os exames mais solicitados.

Sobre as dificuldades enfrentadas, a patologista resumiu: “Nosso verdadeiro desafio é fazer muito com pouco”, concluiu. Para ela, existe um déficit mensal contínuo para tentar manter insumos de qualidade, metodologias analíticas e pessoal capacitado. “Quem paga essa conta? Independentemente de a remuneração não ser a ideal, temos que fazer o melhor”, argumentou.

Para a farmacêutica Cassia Maria Zoccolli, analista clínica do Laboratório Santa Luzia/Dasa, a vantagem do serviço privado talvez seja a escolha do melhor insumo, sempre objetivando maior qualidade, além de maior poder de barganha com as operadoras de planos de saúde. Ela reconheceu que existem defasagens, e chegou a apresentar algumas tabelas de referência comparando o Sistema Único de Saúde (SUS) e o setor privado. “A vantagem do laboratório privado é tentar melhorar o cenário”, alegou.

Para a especialista, não existem apenas diferenças entre público e privado, mas particularidades atuais no laboratório da microbiologia, independentes da gestão. “Apesar dos avanços tecnológicos, ainda temos muitas atividades manuais e, por exemplo, uma cultura pode levar de algumas horas até 14 dias, ou pode se desdobrar em até três exames. Então, obviamente temos que avaliar essa cultura todos os dias para liberar, e preciso ter um time adequado para o volume de trabalho que isso demanda”, disse.

Com relação aos desafios em um futuro próximo, a farmacêutica foi taxativa ao ressaltar a ameaça crescente das resistências bacterianas, do aumento da expectativa de vida e da população idosa, do maior número de pacientes imunocomprometidos e do aumento do uso de antimicrobianos e da maior resistência aos mesmos. Para ela, é fundamental rever tabelas e preços em preparo para o futuro. Enquanto isso, afirmou, “nosso desafio é identificar o verdadeiro agente etiológico daquela infecção, no menor tempo possível, utilizando métodos confiáveis; portanto, precisamos entender que o cenário atual e as tendências são preocupantes. Como os laboratórios estão se preparando para isso pode ser a questão central”. 

Fungos

As bactérias são microrganismos de grande importância no campo da microbiologia médica, no entanto, não são os únicos agentes de relevância. Segundo o infectologista e médico assistente do Laboratório de Microbiologia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), Dr. João Nóbrega Almeida Junior, embora fungos como a Candida raramente causem pneumonia, tal como evidenciado em um grande estudo retrospectivo que avaliou pacientes internados em unidades de terapia intensiva (UTI), [1] a colonização por esses agentes merece atenção.

O médico apresentou os resultados de um estudo feito com pacientes cirúrgicos que evidenciaram que os pacientes que apresentaram altas taxas de colonização tenderam a evoluir para um estado infeccioso causado pelo mesmo agente. [2] Os autores desenvolveram índices de colonização, considerando o número de sítios colonizados e os sítios testados, que foram capazes de detectar quais pacientes evoluiriam para infecção por Candida seis dias antes do início efetivo do quadro infeccioso, ou seja, os pesquisadores concluíram que a triagem sistemática com identificação etiológica ajuda a prever infecções subsequentes e é importante para oferecer uma oportunidade de intervenção médica.

A colonização por Candida, segundo o Dr. João, também tem sido reportada em pacientes com covid-19. Outro fungo que vem sendo observado nesses pacientes é o Aspergillus. Dados de autópsia apontaram, por exemplo, alta frequência de aspergilose pulmonar associada à covid-19 entre pacientes com quadro grave de covid-19. [3] Por outro lado, trabalhos que avaliaram o aspirado traqueal de pacientes com infecção pelo SARS-CoV-2 admitidos em UTI alertam que cultura positiva, detecção molecular e/ou detecção de antígeno de espécies de Aspergillus não significam necessariamente infecção, portanto, ainda há necessidade de entender a relevância clínica da detecção desses microrganismos em amostras respiratórias nessa população. [4]

De acordo com o palestrante, também na covid-19 não é comum que os fungos sejam agentes causadores de pneumonia e de infecção, e é preciso cautela para que resultados positivos no aspirado traqueal não sejam supervalorizados.  “Temos que ter bom senso para não induzir ao uso desnecessário de antifúngicos nos pacientes”, alertou.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

processing....