Queda no TSH é sinal de alerta de suicídio em pacientes com ansiedade + transtorno do humor?

Liam Davenport

Notificação

26 de outubro de 2021

Mesmo quando “dentro da normalidade”, a queda dos níveis séricos do hormônio estimulante da tireoide (TSH, do inglês Thyroid-Stimulating Hormone) em pacientes com ansiedade e transtornos do humor coexistentes pode aumentar o risco de ideação suicida, sugere nova pesquisa.

Em um estudo transverso, foram coletados dados clínicos sobre diagnóstico, uso de medicamentos e pontuação de sinais e sintomas, além de verificados os níveis séricos dos hormônios tireoidianos de pacientes com ansiedade + transtorno do humor.

Após considerarem idade, sexo, sinais e sintomas, uso de medicamentos e outros potenciais fatores de confusão, os pesquisadores identificaram que a probabilidade de os pacientes com ideação suicida apresentarem altos níveis de TSH era 54% menor. Não foi observada associação com os demais hormônios tireoidianos.

De acordo com os resultados, a avaliação dos níveis de hormônios tireoidianos “pode ser importante para a prevenção do suicídio, permitindo que os médicos avaliem a potencialidade do risco de ideação suicida em pessoas com transtornos da ansiedade e do humor”, segundo a pesquisadora do estudo Vilma Liaugaudaité, doutoranda do Instituto de Neurociências da Lietuvos sveikatos mokslų universitetas, e colaboradores.

Estes achados foram apresentados no 34º congresso do European College of Neuropsychopharmacology (ECNP).

"Mecanismo complexo"

Vilma disse ao Medscape que os hormônios tireoidianos são conhecidos por ter um efeito "profundo" no humor e no comportamento.

Estudos recentes mostram que “vários graus de desequilíbrio no eixo hipotálamo-hipófise-tireoide estão associados a comportamento suicida” nos pacientes com depressão, acrescentou a pesquisadora.

Ressaltando que as alterações no sistema da serotonina “constituem a anomalia bioquímica mais comum associada ao comportamento suicida”, Vilma disse que se acredita que os hormônios tireoidianos “façam parte de um complexo mecanismo compensatório para corrigir a redução da atividade central da 5-hidroxitriptamina” por meio da diminuição dos níveis de TSH.

Além disso, o aumento da secreção do hormônio liberador de tireotrofina, que estimula a liberação do TSH, “tem sido considerado um mecanismo compensatório para manter a secreção normal do hormônio tireoidiano e normalizar a atividade da serotonina nos pacientes deprimidos”, disse a doutoranda.

Para investigar as associações entre os hormônios tireoidianos e a tendência suicida em pessoas com ansiedade e transtornos do humor concomitantes, os pesquisadores avaliaram pacientes consecutivos atendidos em uma clínica de transtornos do estresse.

Foram coletadas informações sociodemográficas e clínicas, e os pacientes preencheram a Mini International Neuropsychiatric Interview, o Patient Health Questionnaire-9 (PHQ-9) e a escala General Anxiety Disorder-7 (GAD-7).

Também foram testadas amostras de sangue em jejum para tiroxina ou tetraiodotironina livre (T4L), triiodotironina livre (T3L) e TSH.

Associação significativa

O estudo contou com 77 pacientes entre 18 e 73 anos de idade, dos quais, 59 eram mulheres. Quarenta e dois pacientes foram diagnosticados com ideação suicida. Os níveis séricos de T4L, T3L e TSH estavam dentro da faixa normal.

Não houve diferenças significativas entre pacientes com e sem ideação suicida em termos de idade, sexo, escolaridade, obesidade, tabagismo e uso de medicamentos.

A presença de ideação suicida foi associada a pontuações mais altas no PHQ-9 (15,5 vs. 13,3; P > 0,085) e a níveis mais baixos de TSH (1,54 UI/L vs. 2,04 UI/L; P > 0,092).

A associação entre os níveis séricos de TSH e a ideação suicida foi significativa após a análise multivariada de regressão logística levando em consideração idade, sexo, pontuações obtidas no PHQ-9 e na escala GAD-7, escolaridade, índice de massa corporal e tabagismo, além do uso de antidepressivos, tranquilizantes, estabilizadores do humor e neurolépticos.

Especificamente, os pacientes com ideação suicida tiveram uma probabilidade significativamente menor de apresentar níveis mais altos de TSH do que os participantes sem ideação, com razão de chances (OR, do inglês Odds Ratio) de 0,46 (P = 0,027). Não houve associação significativa entre os níveis séricos de T4L e T3L e ideação suicida.

Interessante, porém preliminar

Convidado a comentar os achados para o Medscape, o médico Dr. Sanjeev Sockalingam, vice-diretor e professor de psiquiatria na University of Toronto, no Canadá, disse que este é um “estudo interessante”, porque a literatura sobre a tentativa de identificar pessoas em risco de ideação ou comportamento suicida é “bem heterogênea em termos de resultados”.

Entretanto, foi um estudo transverso com tamanho de amostra relativamente pequeno, e estudos dessa natureza tipicamente são feitos com pacientes com hipotireoidismo, “que acabam tendo pensamentos suicidas”, disse o Dr. Sanjeev, que não participou da pesquisa.

“Eu me pergunto – dado o tamanho da amostra e a população de pacientes –, se existem outros fatores que possam ter sido relacionados a isso”, acrescentou o comentarista.

O Dr. Sanjeev observou que gostaria de ver mais dados sobre os medicamentos que os pacientes estavam tomando, e ressaltou que os níveis dos hormônios tireoidianos estavam na faixa normal, “então é um pouco difícil desvendar o que isso significa em termos dessas alterações sutis dos níveis dos hormônios tireoidianos”.

O médico Dr. Robert Levitan, catedrático Cameron Wilson in Depression Research no Centre for Addiction and Mental Health, no Canadá, também reforçou que os níveis dos hormônios tireoidianos estavam na faixa normal.

O Dr. Robert disse ao Medscape que “parece improvável haver algum efeito fisiológico afetando suficientemente o cérebro a ponto de” influenciar a ideação suicida. E continuou, “o que provavelmente está acontecendo é há algum outro quadro clínico aqui, que simplesmente não foi identificado, e está promovendo a ideação suicida – e talvez alterando em parte os níveis do TSH”.

Embora o estudo seja, portanto, “preliminar”, os achados são “interessantes”, concluiu o comentarista.

O estudo não teve financiamento externo. Vilma Liaugaudaité, Dr. Sanjeev Sockalingam e Dr. Robert Levitan informaram não ter conflitos de interesses.

34º congresso do European College of Neuropsychopharmacolology (ECNP): Abstract P.0070. Apresentado em 02 de outubro de 2021.

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