Covid-19 prolongada é comum e persistente, e exigirá reavaliação do sistema de saúde, aponta revisão sistemática

Marcia Frellick

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26 de outubro de 2021

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Mais da metade dos pacientes com sequelas da covid-19 (covid-19 prolongada) referiu eventos por mais de seis meses após a resolução da fase aguda da doença, de acordo com uma revisão sistemática de 57 estudos que somou mais de 250.000 pacientes.

Os resultados indicam que covid-19 prolongada é comum e persistente, e exigirá uma reavaliação das demandas futuras no sistema de saúde, dizem especialistas.

De acordo com os pesquisadores, metade dos sobreviventes (quase 80% dos pacientes avaliados neste estudo foram hospitalizados por covid-19) desenvolveu uma "série de manifestações clínicas pulmonares e extrapulmonares, incluindo distúrbios neurológicos, cognitivos, psiquiátricos, cardiovasculares, gastrointestinais, cutâneos e sinais e sintomas associados ao comprometimento do bem-estar geral, tal como mal-estar, fadiga, dor musculoesquelética e redução da qualidade de vida."

Os achados foram publicados on-line em 13 de outubro no periódico JAMA Network Open.

Os efeitos "podem sobrecarregar a capacidade existente de cuidados de saúde"

“Esses eventos tardios da chamada covid-19 prolongada ocorrem em uma escala que pode sobrecarregar a atual capacidade de assistência médica, particularmente em países de baixa e média renda”, escreveram os autores.

Os pesquisadores identificaram 2.100 estudos, dos quais, 57 (total de 250.351 sobreviventes da covid-19) preencheram os critérios de inclusão. A média de idade dos pacientes era de 54 anos; 197.777 (79%) foram hospitalizados na fase aguda da covid-19. Não houve limitações em relação ao país ou idioma no qual os estudos foram publicados; artigos em outros idiomas foram traduzidos para o inglês.

O desfecho primário foi a frequência de covid-19 prolongada, definida como a ocorrência de pelo menos uma alteração clínica diagnosticada por meio de investigação laboratorial, achados radiológicos patológicos e sinais e sintomas clínicos.

A mediana (intervalo interquartil) da proporção de sobreviventes que tiveram pelo menos um sintoma de covid-19 prolongada dentro de um mês após a resolução do quadro agudo foi de 54,0% (45,0% a 69,0%); de dois a cinco meses foi de 55,0% (34,8% a 65,5%); e a partir de seis meses foi de 54,0% (31,0% a 67,0%).

"Extraordinariamente debilitante"

Os autores classificaram a prevalência por grupos de renda do Banco Mundial e constataram que a frequência de covid-19 prolongada (intervalo interquartil) foi de 54,6% (33,0% a 68,3%) em países de alta renda e de 56,0% (43,5% a 67,0%) em países de baixa e média renda. As taxas de covid-19 prolongada foram semelhantes nos estudos em que a prevalência de pacientes hospitalizados foi maior (60%) e naqueles em que a prevalência foi menor (< 60%).

Dr. David Putrino

"Precisamos dar atenção a este problema o mais rápido possível. Precisamos entender que uma grande quantidade de pessoas está tendo sintomas persistentes após a infecção aguda por covid-19, e muitos desses sintomas são extraordinariamente debilitantes, podendo levar à incapacidade de realizar atividades diárias", disse o Dr. David Putrino, Ph.D., diretor de inovação em reabilitação do Mount Sinai Health System, no EUA.

"Houve uma grande expectativa de que esse novo vírus seria como a gripe – de que as pessoas poderiam ficar muito doentes, mas quando se recuperassem, estariam totalmente recuperadas", disse o Dr. David, que não participou do estudo. "O engano tem sido o que acontece quando um novo tipo de vírus assola o corpo humano e cobra o seu preço."

Ele pontuou que os sintomas persistentes vêm ocorrendo em pacientes que precisaram ser hospitalizados ou não e que apresentaram sintomas ou foram assintomáticos, e isso tem sido uma espécie de alerta.

O Dr. David disse que sua equipe atende principalmente pacientes que apresentam sintomas "invisíveis", mas debilitantes, após a covid-19, apesar de as provas de função de diferentes órgãos terem sido normais.

"Temos trabalhado com a reabilitação prolongada de uma população de cerca de 1.600 pacientes em Nova York", disse ele.

Os pacientes frequentemente referem fadiga intensa ou exacerbação dos sintomas pós-exercionais, o que se fizerem esforço cognitivo, emocional ou físico, os sintomas se manifestam por dias a fio. Outros sintomas muito relatados são dor no peito, distúrbios cognitivos, sensação repentina de calor e depois frio, ou desconforto após comer.

A equipe do Dr. David trabalha em estreita colaboração com o Centro de Cuidados Pós-Covid do Mount Sinai, que tem um grupo muito maior de pacientes com quadros complexos, mas explicados através de condições clínicas estabelecidas.

Para a covid-19 prolongada, são necessários melhores testes, como exames de sangue que possam indicar algumas complicações descritas neste artigo, disse Dr. David.

Ele acrescentou que o monitoramento remoto contínuo será importante, porque os sintomas "atingem os pacientes com força e depois retrocedem".

"É aqui que reside muito da disfunção fisiológica que podemos deixar de ver em um exame físico de rotina no consultório médico", disse Dr. David.

"Todos os órgãos"

O coautor do estudo, Dr. Paddy Ssentongo, Ph.D., médico e professor assistente do Center for Neural Engineering da Pennsylvania State University, nos EUA, disse que o dado mais surpreendente do artigo talvez seja a quantidade de sobreviventes da covid-19 com sintomas persistentes por tanto tempo.

Dr. Paddy Ssentongo

Ele afirmou que outro ponto crucial do artigo diz respeito à vasta gama de sintomas sendo apresentados pelos pacientes: "Todos os órgãos são acometidos, até mesmo o cérebro."

Isso representa um desafio. Devido à falta da integralidade no sistema de saúde nos EUA, esses pacientes precisarão procurar atendimento em dias diferentes, com diferentes médicos, a menos que recebam cuidados em um centro de atendimento a covid-19 prolongada ou outro centro de atendimentos coordenados, disse Dr. Paddy.

Os efeitos psiquiátricos subsequentes à covid-19 prolongada são muito subestimados, disse ele. "Não estamos preparados para os desfechos neuropsiquiátricos ou psiquiátricos dos sobreviventes", observou.

Se esses problemas não forem encarados, o resultado poderá ser um aumento no número de pacientes com depressão, disse Dr. Paddy. Ele ressaltou que a saúde mental não era priorizada mesmo antes da pandemia.

O médico disse ainda que a pandemia de covid-19 pode levar à integração dos cuidados de saúde mental e da saúde física. "Esta é a nossa melhor oportunidade, já que todos estão focados na covid-19", disse.

Estudos anteriores foram limitados em relação à duração dos efeitos da covid-19. Os autores afirmaram que, até onde sabem, esta é a primeira revisão a consolidar as tendências e caracterizar sistematicamente a evolução das sequelas de curto para o longo prazo.

As limitações incluem o fato de a definição de covid-19 prolongada variar de um estudo para o outro. Alguns trabalhos definem o quadro como sintomas que duram mais de três semanas, outros definem como mais de 12 semanas. Os pesquisadores também não conseguiram estratificar os casos com base na gravidade da doença inicial e se, por exemplo, houve necessidade de de cuidados intensivos ou medidas avançadas de suporte à vida. Também não foi possível estratificar casos com base no número de comorbidades preexistentes.

Um coautor prestou consultoria para a Allergan sem relação com o estudo apresentado. Os outros autores e Dr. David informaram não ter relações financeiras relevantes.

Marcia Frellick é jornalista freelancer residente de Chicago. Ela já assinou artigos em Chicago Tribune, Science News e Nurse.com, e atuou como editora no Chicago Sun-Times, Cincinnati Enquirer e no St. Cloud Times. Acompanhe seu trabalho no Twitter: @mfrellick

JAMA Netw Open. Publicado on-line em 13 de outubro de 2021. Texto completo

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