Transtorno por uso de substâncias é associado a aumento do risco de hospitalização e morte por covid-19 após vacinação

Batya Swift Yasgur

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25 de outubro de 2021

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Pessoas com transtorno por uso de substâncias têm o dobro do risco de hospitalização e morte por covid-19, mesmo depois de terem sido vacinadas contra a doença, mostra nova pesquisa.

Os pesquisadores analisaram dados de mais de 10.000 pacientes com diferentes tipos de transtorno por uso de substâncias e quase 600.000 controles sem essas patologias – todos vacinados contra a covid-19. Eles identificaram que cerca de duas vezes mais pacientes com transtorno por uso de substâncias tiveram covid-19 após a vacinação do que seus pares sem a doença: 7,0% versus 3,6%.

Além disso, o risco de hospitalização e morte por covid-19 após a vacinação também foi maior entre as pessoas com transtorno por uso de substâncias do que entre os controles.

"É crucial que os médicos sigam priorizando a vacinação de pessoas com transtorno por uso de substâncias, mas também reconheçam que mesmo após a vacinação este grupo tem mais risco e deve continuar tomando medidas de proteção contra a covid-19", disse ao Medscape a pesquisadora Dra. Nora Volkow, médica e diretora do National Institute on Drug Abuse, nos Estados Unidos.

"Além disso, os médicos deveriam rastrear os pacientes para transtornos por uso de substâncias, a fim de compreender melhor os riscos e necessidades terapêuticas, já que muitos não rastreiam ou indagam os pacientes sobre esses transtornos, o que é uma tremenda perda de oportunidade, que pode até comprometer a capacidade do médico de cuidar de seus pacientes de forma eficaz", disse ela.

O estudo foi publicado on-line em 05 de outubro no periódico World Psychiatry.

Fase preocupante da pandemia de covid-19

Os transtornos por uso de substâncias "frequentemente estão associados a várias comorbidades reconhecidas como fatores de risco de desfechos graves na covid-19", observaram os pesquisadores.

Pesquisas publicadas no início da pandemia mostram que pacientes com transtorno por uso de substâncias, inclusive por consumo de bebidas alcoólicas, Cannabis, cocaína, opioides e tabaco, tinham "maior risco de infecção por covid-19 e desfechos graves associados, especialmente a população afro-americana", acrescentaram.

Ainda não havia nenhuma pesquisa focada no risco de covid-19 entre pessoas com transtornos por uso de substâncias após a vacinação. Além disso, embora as vacinas anticovídicas sejam "muito eficazes", há registro de casos de infecção após a vacinação, o que "destaca a necessidade de identificar as populações potencialmente mais vulneráveis, já que entramos em uma nova fase preocupante da pandemia", escreveram os autores.

Para o estudo, os pesquisadores usaram uma plataforma de análise de dados com informações anônimas de 63 centros de saúde nos EUA para estimar o risco de covid-19 após a vacinação entre pacientes com transtorno por uso de substâncias (N = 30.183; média de idade de 59,3; 51,4% do sexo masculino; 63,2% brancos; 26,2% afro-americanos) versus indivíduos sem transtorno por uso de substâncias (N = 549.189; média de idade de 54,7; 43,2% homens; 63,4% brancos; 14,3% afro-americanos) entre dezembro de 2020 e agosto de 2021.

Também foram realizadas análises estatísticas para avaliar como a taxa de casos de infecção após o recebimento da vacina anticovídica mudou ao longo desse período.

As coortes foram pareadas por dados demográficos, determinantes socioeconômicos de saúde adversos, história de comorbidades em geral e psiquiátricas e tipo de vacina recebido.

Entre os pacientes com transtorno por uso de substâncias, três quartos receberam a vacina anticovídica da Pfizer-BioNTech, um quinto recebeu a vacina da Moderna e 3,3% receberam a vacina da Johnson & Johnson.

Em contraste, entre os controles, quase todos (88,2%) receberam a vacina anticovídica da Pfizer-BioNTech, 10,0% receberam a da Moderna e apenas 1,2% recebeu a vacina da Johnson & Johnson.

Fatores subjacentes

A prevalência de determinantes socioeconômicos de saúde adversos foi maior entre as pessoas com transtorno por uso de substâncias do que entre os controles (7,9% versus 1,2%). Além disso, a prevalência de história de todas as comorbidades avaliadas, bem como de transplante, foi maior entre os pacientes do primeiro grupo (todos os P < 0,001).

O risco de covid-19 após a vacinação foi significativamente maior entre os pacientes com transtorno do que entre os controles (todos os P < 0,001).

Tabela. Risco de covid-19 após o recebimento da vacina no escore de propensão pareado entre as populações com e sem transtornos por uso de substâncias.

Tipo de transtorno Risco na coorte com transtorno por uso de substâncias Risco na coorte de controles

Razão de risco
(IC de 95%)

Álcool
(N = 7.802)
7,2% 3,7% 1,17 (de 1,01 a 1,35)
Cannabis
(N = 2.055)
7,8% 2,3% 1,92 (de 1,39 a 2,66
Cocaína
(N = 1.011)
7,7% 2,4% 2,06 (de 1,30 a 3,25)
Opioide
(N = 2.379)
7,1% 3,2% 1,31 (de 1,00 a 1,71)
Tabaco
(N = 21.935)
6,8% 3,9% 1,06 (de 0,98 a 1,15)

Depois de controlar para determinantes socioeconômicos de saúde adversos e comorbidades, o risco de covid-19 após a vacinação "deixou de diferir entre a coorte com transtorno por uso de substância e a de controles, exceto para pacientes com transtorno por uso de Cannabis, que continuaram apresentando risco significativamente maior", relataram os autores.

Em ambas as populações, o aumento da taxa de casos de covid-19 após a vacinação ocorreu de forma constante entre janeiro e agosto de 2021.

Mês Coorte com transtorno por uso de substâncias Coorte de controle
Janeiro de 2021 0 casos/pessoas-dia 0 casos/pessoas-dia
Junho de 2021 0,001 casos/pessoas-dia 0,0009 casos/pessoas-dia
Agosto 2021 0,0025 casos/pessoas-dia 0,0049 casos/pessoas-dia

O risco de hospitalização e morte foi maior entre os pacientes que tiveram covid-19 após a vacinação do que entre aqueles na coorte correspondente sem covid-19 após a vacinação, mas o risco de hospitalização e morte foi maior no grupo com transtorno por uso de substâncias do que no grupo de controle.

Desfecho Risco global: coorte com transtorno por uso de substância Risco global: coorte de controle
Hospitalização Coorte com covid-19 após a vacinação: 22,5%;
Coorte sem covid-19 após a vacinação: 1,6%
Coorte com covid-19 após a vacinação: 17,5%;
Coorte sem covid-19 após a vacinação: 0,5%
Morte Coorte com covid-19 após a vacinação: 1,7%;
Coorte sem covid-19 após a vacinação: 0,5%
Coorte com covid-19 após a vacinação: 1,1%;
Coorte sem covid-19 após a vacinação: 0,2%

Nos pacientes com transtorno por uso de substância, após o pareamento para uma série de fatores demográficos, socioeconômicos e clínicos, bem como para o tipo de vacina tomada, apenas o transtorno por uso de Cannabis foi associado a um risco mais alto entre afro-americanos versus caucasianos pareados (razão de risco ou hazard ratio, HR, de 1,63; intervalo de confiança, IC, de 95% de 1,06 a 2,51).

“Quando ajustamos os dados para considerar as comorbidades e a situação socioeconômica, a diferença entre os pacientes com transtornos por uso de substâncias e os controles deixou de ser observada – a não ser entre pessoas com transtorno por uso de Cannabis”, disse a Dra. Nora, completando que “isto sugere que esses fatores, frequentemente associados a transtornos por uso de substâncias, provavelmente são os motores subjacentes do aumento do risco”.

Ela acrescentou que é importante que outros estudos investiguem por que as pessoas com transtorno por uso de Cannabis têm mais risco de covid-19 após a vacinação.

Boas e más notícias

Comentando para o Medscape, a Dra. Anna Lembke, médica e professora de psiquiatria e ciências comportamentais da University of Stanford, nos EUA, disse que o estudo é importante e traz boas e más notícias.

A boa notícia, disse ela, é que depois do ajuste para comorbidades e variáveis socioeconômicas, “os pacientes com transtorno por uso de substância deixaram de apresentar maior probabilidade covid-19 após a vacinação do que os pacientes sem transtornos; e a má notícia é que, se os pacientes com transtorno por uso de substâncias apresentarem covid-19, é mais provável que acabem hospitalizados ou morram por causa disso", disse a Dra. Anna, que não participou do estudo.

“A principal mensagem para os médicos é que, se um paciente com transtorno por uso de substâncias tiver covid-19 após a vacinação, fique atento(a) a complicações clínicas e ao aumento do risco de morte”, ela alertou.

Esse estudo foi financiado pelas seguintes instituições estadunidenses: National Institute on Drug Abuse, National Institute of Aging e Clinical and Translational Science Collaborative (CTSC). Não constam declarações de conflitos de interesses no estudo original. A Dra. Anna informou não ter conflitos de interesses.

World Psychiatry. Publicado on-line em 05 de outubro de 2021. Texto completo

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