Brasil está entre países com alto risco de reintrodução da poliomielite: um alerta

Mônica Tarantino

Notificação

25 de outubro de 2021

O Brasil é um dos seis países no continente americano com alto risco de reintrodução da poliomielite, de acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS). Os outros são Equador, Venezuela, Guatemala, República Dominicana e Suriname. Mais dois países, o Haiti e a Bolívia, estão em altíssimo risco, disse a pediatra e infectologista Dra. Luiza Helena Falleiros, integrante da OPAS, durante o webinar realizado em 19 de outubro: Por que ainda precisamos falar da poliomielite? O evento foi promovido pela farmacêutica Sanofi-Pasteur (fabricante das vacinas inativadas).

Desde 2015, o Brasil enfrenta uma redução preocupante nas taxas de vacinação contra a poliomielite e outras doenças infectocontagiosas. A meta da vacinação contra a pólio é atingir pelo menos 95% da população elegível.

“Hoje temos apenas 62% de cobertura vacinal da poliomielite com o esquema primário, composto de três doses de vacina inativada poliomielite (VIP), em crianças de até um ano de idade. Fazendo um cálculo grosseiro, cerca de 40% das crianças não receberam adequadamente o esquema primário”, disse a Dra. Luiza.

“Há uma preocupação com o futuro. Precisamos pensar quais são as soluções integradas para retornarmos ao que éramos no início dos anos 2000”, alertou a especialista.

As taxas de abandono da vacinação são mais um motivo de preocupação. “O reforço da vacina contra a pólio em crianças aos 15 meses e aos quatro anos está ainda mais baixo”, informou o Dr. Juarez Cunha, pediatra e presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). De 2,7 milhões de nascidos vivos em 2020, 2,4 receberam a primeira dose da vacina e a terceira dose foi administrada a 2,2 milhões. “Se a gente for pensar nesse quantitativo, temos 500.000 crianças que não estão adequadamente vacinadas e protegidas”, disse ele.

No Brasil, o Calendário Nacional de Vacinação da Criança recomenda um esquema vacinal contra a poliomielite composto de três doses da VIP (administradas aos dois, quatro e seis meses de vida) e duas doses da vacina oral poliomielite (VOP) (administradas aos 15 meses de vida e aos quatro anos de idade).

A substituição da vacina trivalente oral (contra os três sorotipos do poliovírus) pela VOP bivalente foi recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2018. Atualmente, a OMS orienta que os países façam a substituição paulatina da VOP pelo imunizante com vírus inativado. “A vacina inativada é a única que vai dar proteção contra os três sorotipos do vírus. Vários países da América Latina já usam apenas a vacina inativada. A Europa não usa mais a vacina oral há muitos anos”, disse a Dra. Luiza. Segundo a médica, a troca se justifica no cenário atual, em que há pouquíssimos casos, para evitar um evento adverso incomum, no qual o vírus atenuado sofre uma mutação dentro do organismo humano e se torna ativo novamente. Ainda que esta seja uma situação muito rara, os especialistas receiam que a incidência de casos aumente à medida que a cobertura vacinal cai – e crescem as chances de o vírus encontrar mais crianças vulneráveis.

Em janeiro de 2021, o mundo registrou dois casos de poliovírus selvagem (PVS), um no Paquistão e outro no Afeganistão. “Em 2020, foram 63 casos”, disse o Dr. Juarez. Cinco das seis regiões da OMS foram certificadas como livres de todos os PVS, segundo a atualização global da Iniciativa Mundial de Erradicação da Poliomielite (Imep). O Brasil viu seu último caso em 1989 e as Américas receberam seu certificado de erradicação em 1994, mas, segundo relatório da Imep, em 2019 surgiu um novo desafio: uma crescente emergência de saúde pública devido ao poliovírus derivado da vacina do tipo 2 (cVDPV2). Em agosto de 2020, foram notificados por 20 países de todo o mundo 323 casos de cVDPV2 e 84 amostras ambientais positivas para o cVDPV2, especialmente em África, mas também no Paquistão, no Afeganistão e nas Filipinas.

A partir do momento em que existe a circulação do poliovírus, independentemente de ser selvagem ou derivado vacinal, a baixa cobertura vacinal pode levar à reintrodução da doença. “Levamos quase 50 anos para eliminar o sarampo, que voltou em dois anos em função de baixas coberturas vacinais. Já são 30 anos sem casos de pólio no Brasil. Não podemos nem imaginar que essa doença retorne por baixas coberturas. Temos de vacinar a nossa população – não só contra pólio, mas contra todas as doenças para as quais temos vacinas disponíveis”, disse o médico.

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