Estimulação cerebral personalizada: nova esperança para depressão grave

Megan Brooks

Notificação

22 de outubro de 2021

A estimulação cerebral profunda personalizada parece melhorar de forma rápida e eficaz os sinais e sintomas da depressão refratária ao tratamento, sugere nova pesquisa.

Em um estudo demonstrativo preliminar, os pesquisadores identificaram padrões específicos de atividade cerebral responsáveis pela depressão grave de uma paciente e personalizaram um protocolo de estimulação cerebral profunda para modular os padrões. Os resultados mostraram melhora rápida e sustentada verificada por meio de escalas de depressão.

“Este estudo indica o caminho para um novo paradigma absurdamente necessário na psiquiatria”, disse em um comunicado à imprensa o pesquisador do estudo, Dr. Andrew Krystal, Ph.D., médico do Weill Institute for Neurosciences na University of California, San Francisco (UCSF), nos Estados Unidos.

“Criamos uma abordagem de medicina de precisão que conseguiu tratar com sucesso a depressão refratária da nossa paciente, identificando e modulando um circuito no seu cérebro que está especificamente associado aos seus sinais e sintomas”, acrescentou Dr. Andrew.

Os achados foram publicados on-line em 04 de outubro no periódico Nature Medicine.

Estimulação em circuito fechado, sob demanda

A paciente foi uma mulher de 36 anos com transtorno depressivo maior de longa data, grave e refratário ao tratamento. Ela não respondeu a várias associações de antidepressivos, nem à eletroconvulsoterapia.

Pesquisadores utilizaram a eletrofisiologia intracraniana e a estimulação elétrica focal para identificar o padrão específico da atividade cerebral elétrica se correlacionando com seu humor deprimido.

Eles identificaram a parte ventral direita do corpo estriado – que participa da emoção, da motivação e da recompensa – como local de estimulação que promoveu melhora sistemática, sustentada e proporcional à dose dos sinais e sintomas da paciente, e serviu como o biomarcador neural.

Além disso, os pesquisadores identificaram um padrão de atividade neural na amígdala que previu os sinais e sintomas do humor, a gravidade dos sintomas e a eficácia da estimulação.

A paciente recebeu o implante NeuroPace RNS System, aprovado pela Food and Drugs Administration (FDA) dos EUA. O dispositivo foi colocado no hemisfério cerebral direito. Um único sensor de detecção foi posicionado na amígdala e o segundo eletrodo de estimulação foi colocado na parte ventral do núcleo estriado.

Quando o sensor detectou o padrão de atividade associado à depressão, o outro sensor liberou uma pequena carga de eletricidade (1 miliampere/1 mA) durante seis segundos, o que alterou a atividade neural e aliviou os sintomas do humor deprimido.

Remissão alcançada

Quando este procedimento em ciclo fechado e personalizado estava totalmente operacional, a pontuação da paciente na Montgomery- Åsberg Depression Rating Scale (MADRS) caiu de 33 antes de iniciar o tratamento para 14 na primeira avaliação do tratamento feita 12 dias depois da estimulação. A pontuação caiu para < 10, significando remissão, vários meses depois.

O tratamento também melhorou rapidamente a gravidade dos sinais e sintomas, de acordo com as avaliações diárias pela Hamilton Depression Rating Scale (HAMD-6) e por escalas visuais analógicas.

“O sucesso se fundamentou em uma etapa de mapeamento clínico antes do implante do dispositivo, estratégia que tem sido utilizada na epilepsia para mapear os focos de convulsão de modo personalizado, mas ainda não tinha sido usada em outras doenças neuropsiquiátricas”, escreveram os pesquisadores.

Esta paciente representa “um dos primeiros exemplos da psiquiatria de precisão – tratamento personalizado para um paciente”, disse ao Medscape a primeira autora do estudo, a médica Dra. Katherine Scangos, Ph.D., também do Weill Institute for Neurosciences na UCSF.

A autora acrescentou que o tratamento “foi personalizado tanto no espaço”, significando a localização cerebral, como no tempo – o momento de sua administração.

“Esta é a primeira vez que um biomarcador neural foi usado para acionar automaticamente o estímulo terapêutico na depressão como tratamento bem-sucedido em longo prazo”, disse a Dra. Katherine. No entanto, “temos muito trabalho a fazer”, acrescentou a pesquisadora.

“Este foi um estudo preliminar de eficácia que podemos utilizar uma estratégia multimodal de mapeamento cerebral para identificar um circuito de depressão personalizado e direcionar o tratamento para esse circuito com sucesso. Precisamos testar esta estratégia em mais pacientes antes de podermos determinar sua eficácia”, disse a Dra. Katherine.

Primeiro biomarcador confiável na psiquiatria

Em uma declaração da Science Media Center, uma organização sem fins lucrativos do Reino Unido, o biólogo Dr. Vladimir Litvak, Ph.D., do Wellcome Center for Human NeurothImaging, University College London, disse que o estudo é interessante, destacando que se trata de “um dos principais grupos neste campo".

Os sinais e sintomas da depressão poderem ser tratados em alguns pacientes por estimulação elétrica da parte ventral do núcleo estriado não é algo novo, disse o Dr. Vladimir. Entretanto, é “emocionante” o fato de os autores terem identificado um padrão peculiar de atividade neural na amígdala como fator de previsão confiável da gravidade dos sinais e sintomas, bem como a eficácia da estimulação, observou o professor.

“Os padrões de atividade cerebral correlacionados aos sinais e sintomas da doença costumam ser descobertos ao serem testados em um grande grupo de pacientes. Mas existem apenas alguns exemplos de padrões suficientemente confiáveis para serem preditivos em um curto espaço de tempo em uma única paciente”, disse o Dr. Vladimir, que não participou da pesquisa.

“Além disso, até onde sei, este é o primeiro exemplo de um biomarcador tão confiável para sinais e sintomas psiquiátricos. Os outros exemplos foram todos para distúrbios neurológicos, como doença de Parkinson, distonia e epilepsia", acrescentou o especialista.

O Dr. Vladimir advertiu que este é um caso isolado, mas que “se for reproduzido em outros pacientes, trará ao menos algumas doenças psiquiátricas para o domínio das doenças cerebrais que podem ser caraterizadas e diagnosticadas objetivamente, em vez de somente pelos sinais e sintomas”.

O Dr. Vladimir apontou dois outros aspectos cruciais do estudo: o uso de registros e estímulos exploratórios para determinar a estratégia de tratamento mais eficaz, e o uso de um dispositivo de ciclo fechado que só libera o estímulo ao detectar o biomarcador amigdaliano.

“É difícil dizer somente com um caso qual será sua importância no futuro. Não existe comparação com a estimulação constante, que poderia ter funcionado também, porque o dispositivo implantado usado no estudo não é adequado para isso", disse Dr. Vladimir.

Deve-se notar também que o implante de eletrodos em diferentes profundidades e diferentes locais no cérebro é um “procedimento invasivo traumático, até o momento reservado apenas para casos graves de epilepsia refratária aos medicamentos", disse. “Além disso, só permite aos pesquisadores testarem um pequeno número de possíveis localização, de modo que depende em muito do conhecimento prévio.”

“Quando os médicos souberem melhor o que procurar, poderá ser possível evitar inteiramente este procedimento usando métodos não invasivos”, como a ressonância magnética funcional ou o eletroencefalograma, para escolher a opção terapêutica certa para cada paciente, concluiu Dr. Vladimir.

A pesquisa foi financiada pelos National Institutes of Health, Brain & Behavior Research Foundation e Ray and Dagmar Dolby Family Fund, por meio do Department of Psychiatry at UCSF. A Dra. Katherine Scangos revelou não ter conflitos de interesses financeiros relevantes ao tema. A lista completa de conflitos de interesses dos autores consta no artigo original. O Dr. Vladimir Litvak participa atualmente em uma aplicação de financiamento de pesquisa para identificar biomarcadores eletrofisiológicos dos sinais e sintomas da depressão usando métodos de registro invasivos.

Nature Med. Publicado on-line em 04 de outubro de 2021. Abstract

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