Ensinar o cérebro que a dor lombar crônica é um alarme falso pode ser uma estratégia eficaz de controle

Megan Brooks

Notificação

21 de outubro de 2021

Alterar as crenças pessoais a respeito da dor por meio de psicoterapia não só alivia a dor crônica por tempo prolongado como modifica as regiões do cérebro relacionadas à dor, mostra pesquisa.

No primeiro estudo controlado randomizado de terapia de reprocessamento da dor, a dor lombar crônica de dois terços dos pacientes que fizeram quatro semanas de terapia foi total ou quase totalmente resolvida. Na maioria dos casos a dor foi controlada por um ano, constataram os pesquisadores.

"A dor lombar crônica primária pode ser drasticamente reduzida ou mesmo eliminada por meio de tratamento psicológico focado em mudar a percepção do tamanho da ameaça que a dor representa", disse ao Medscape o primeiro autor do estudo, Dr. Yoni Ashar, Ph.D., Departamento de Psiquiatria, Weill Cornell Medical College, nos Estados Unidos.

"Ficamos muito surpresos" com o impacto, admitiu o Dr. Yoni, visto que estudos avaliando terapias psicológicas para o controle da dor crônica raramente demonstram grandes reduções na dor.

O estudo foi publicado on-line em 29 de setembro no periódico JAMA Psychiatry.

Repensando a dor

A dor lombar crônica é uma das principais causas de incapacidade, e os tratamentos muitas vezes são ineficazes. A etiologia da dor não é identificada em cerca de 85% dos casos de dor lombar crônica primária. Nesses casos, fatores como medo, evitação e crença de que a dor é decorrente de uma lesão, podem contribuir para a persistência do quadro.

A terapia de reprocessamento da dor ensina os pacientes sobre o papel do cérebro na dor crônica, contribui para que reavaliem a própria dor ao tentarem movimentos que vêm temendo realizar e os ajuda a lidar com sentimentos que podem exacerbar a dor.

O estudo incluiu 151 adultos (54% mulheres; média de idade de 41 anos) com história de dor lombar crônica primária leve a moderada (intensidade média da dor: 4 de 10) há uma média de 10 anos.

Cinquenta participantes foram randomizados para receber terapia de reprocessamento (uma sessão remota com um médico e oito sessões de terapia por quatro semanas), 51 para receber placebo (injeção subcutânea de solução salina nas costas) e 50 para continuar sua rotina, o tratamento habitual.

Foram observadas grandes diferenças entre os grupos após o tratamento. A pontuação média de dor foi 1,18 no grupo da terapia, 2,84 no grupo do placebo e 3,13 no grupo de tratamento habitual. O g de Hedges foi -1,14 para terapia versus placebo e -1,74 para terapia versus tratamento habitual (P < 0,001).

Dois terços (66%) dos adultos no grupo da terapia tiveram o quadro de dor resolvido inteiramente ou quase após o tratamento (pontuação de intensidade da dor de 0 ou 1 em 10), em comparação com 20% daqueles no grupo de placebo e 10% daqueles que receberam tratamento habitual.

Os efeitos do tratamento perduravam no acompanhamento de um ano. A pontuação média de dor foi 1,51 no grupo da terapia, 2,79 no grupo placebo e 3,00 no grupo de tratamento habitual. Nem a idade nem o sexo moderaram o efeito da terapia na intensidade da dor.

Retreinando o cérebro

Os pesquisadores afirmaram que os efeitos da terapia de reprocessamento da dor foram mediados pela diminuição da crença de que a dor indica dano ao tecido. Vale ressaltar que a terapia também reduziu a dor lombar evocada experimentalmente e a dor espontânea durante a ressonância nuclear magnética funcional (RNMf), com grandes tamanhos de efeito.

"A ideia é que, ao pensar na dor como algo seguro em vez de ameaçador, os pacientes podem alterar as redes cerebrais que reforçam a dor e neutralizá-la", disse o Dr. Yoni em um comunicado à imprensa.

Os autores observaram que os participantes do estudo eram relativamente bem instruídos e eram ativos. Os participantes referiram dor de longa data de intensidade leve a moderada, e incapacidade ao início do estudo.

O médico e os terapeutas eram especialistas em terapia de reprocessamento da dor. Estudos futuros devem testar a generalização para outras populações de pacientes, terapeutas e contextos de tratamento.

"Nossa experiência clínica mostra que a terapia de reprocessamento da dor também é eficaz para outros tipos de dor crônica primária", disse o Dr. Yoni, incluindo dor primária no joelho e cefaleia tensional.

Função de restauração

Comentando sobre os achados para o Medscape, o Dr. Shaheen E. Lakhan, Ph.D., neurologista e especialista em dor nos Estados Unidos, disse que tem vasta experiência com o uso de abordagens psicológicas para controle da dor, com bons resultados.

"Imagine dizer a uma pessoa com dor crônica há décadas que a sua dor está toda em sua cabeça. Eu fiz isso por anos como médico especialista em dor certificado lidando apenas com as formas mais graves e debilitantes de dor. Quando usado para retreinar, eu podia finalmente restaurar a função de pessoas com dor crônica", disse o Dr. Shaheen.

"A afirmação é verdadeira – o cérebro, em última análise, processa sinais de todo o corpo, forma a percepção da dor e a liga aos centros emocionais do cérebro, entre outros. A dor é um mecanismo de sobrevivência importante para que, quando o corpo está sob ameaça de lesão, você se proteja de mais danos e se retire. O problema é quando a dor dura mais do que os estímulos e cronifica", explicou o Dr. Shaheen, vice-presidente sênior de pesquisa e desenvolvimento da Click Therapeutics, nos EUA.

Os pesquisadores neste estudo "provam eloquentemente" que com quatro semanas de terapia de reprocessamento da dor os pacientes podem aprender que a dor crônica é em grande parte um "alarme falso gerado pelo cérebro, e que afirmar constantemente esta verdade pode realmente reduzi-la ou eliminá-la", disse o Dr. Shaheen.

"Além disso, as áreas do cérebro envolvidas na dor são acalmadas depois de passar pela terapia, tanto para a dor em repouso quanto para a dor induzida pelo alongamento das costas", observou ele.

"A terapia de reprocessamento da dor pode melhorar a vida dos pacientes com dor crônica de intensidade leve a moderados de dor e incapacidade. No entanto, muito trabalho precisa ser feito para tornar isso escalonável e universalmente disponível, bem como coberto pelas seguradoras, como uma modalidade de tratamento", acrescentou.

Ele advertiu que não viu terapias como essa funcionarem quando há depressão significativa, retração ou falta de controle sobre a situação de alguém, de forma que a pessoa se comporte de maneira desamparada – "um terrível estado de espírito chamado desamparo aprendido".

O estudo foi financiado pelos National Institutes of Health, National Center for Advancing Translational Sciences, Radiological Society of North America, German Research Foundation, Psychophysiologic Disorders Association, Foundation for the Study of the Therapeutic Encounter, e por doações comunitárias. O Dr. Yoni recebeu fundos dos National Institutes of Health durante o estudo e taxas pessoais do UnitedHealth Group, Lin Health, Inc, Pain Reprocessing Therapy Center, Inc, e Mental Health Partners of Boulder County não relacionados ao trabalho submetido. O Dr. Shaheen informou não ter conflitos de interesses.

JAMA Psychiatry. Publicado on-line em 29 de setembro de 2021. Texto completo

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