Adoçante artificial pode aumentar apetite de mulheres e pessoas com obesidade

Marlene Busko

Notificação

18 de outubro de 2021

Um novo estudo sugere que a substituição do açúcar (sacarose) pelo adoçante não nutritivo sucralose pode não ter o efeito desejado de perda ponderal, e na verdade, parece aumentar o apetite de mulheres e pessoas com obesidade.

Estas são novas descobertas, sendo necessário fazer outros estudos, dizem os especialistas.

Depois de consumir uma bebida adoçada com sucralose em vez de sacarose, mulheres e pessoas com obesidade apresentaram aumento da atividade no centro de recompensa no cérebro – e as mulheres comeram mais em um buffet após um período de jejum.

“Pudemos demonstrar que as mulheres e as pessoas com obesidade talvez sejam mais sensíveis aos adoçantes artificiais”, resumiu a autora sênior, Dra. Kathleen Page, médica e professora associada de medicina na Keck School of Medicine, University of Southern California, nos Estados Unidos, em um comunicado de imprensa da universidade.

“Para estes grupos, consumir bebidas adoçadas artificialmente pode induzir o cérebro a sentir fome, o que, por sua vez, pode resultar no aumento do consumo de calorias”, acrescentou Dra. Kathleen.

Embora muitas pessoas usem adoçantes artificiais para tentar perder peso, a Dra. Kathleen percebeu que o seu papel em uma alimentação saudável é controverso. Alguns estudos sugerem que possam ser úteis, enquanto outros mostram que podem contribuir para o ganho ponderal, o diabetes tipo 2 e outros distúrbios metabólicos.

Os novos achados podem explicar em parte essas diferenças anteriores, disse a autora.

Os resultados também ressaltam a necessidade de considerar o sexo e o índice de massa corporal nas próximas pesquisas com adoçantes artificiais.

O estudo, feito por Alexandra G. Yunker, mestranda em nutrição na Harvard University, nos EUA, e colaboradores, foi publicado on-line em 28 de setembro no periódico JAMA Network Open.

Achados inovadores – a necessidade de considerar o sexo e a gordura nas próximas pesquisas

O estudo em tela “é muito importante, pois traz novos conhecimentos sobre como a gordura e o sexo estão associados aos circuitos neurais e comportamentais da ingestão adoçantes artificiais”, escreveu a Dra. Stéphanie Kullmann, Ph.D., convidada redigir o comentário que acompanha o estudo.

“Os dados mostram pela primeira vez que as pessoas do sexo feminino com obesidade são particularmente vulneráveis à resposta neural causada pelo consumo da sucralose, particularmente nas regiões pré-frontais do cérebro, associadas às recompensas”, disse Dra. Stéphanie, pós-doutora no Institute of Diabetes Research and Metabolic Diseases de Helmholtz Zentrum München, na Eberhard Karls Universität Tübingen, na Alemanha.

Isto sugere que “o acréscimo de adoçantes artificiais à nossa alimentação pode prejudicar as respostas neurais aos alimentos, com consequências negativas para o comportamento alimentar e para o metabolismo, particularmente entre as mulheres”.

Entretanto, antes de desaconselhar o uso de adoçantes artificiais como parte de uma alimentação saudável, Dra. Stéphanie advertiu: “Precisamos de mais estudos sobre seus efeitos em vários desfechos neurocomportamentais e metabólicos”.

O estudo em pauta “indica claramente a importância de considerar o sexo e a gordura nas próximas pesquisas para podermos fazer recomendações nutricionais personalizadas para o controle do peso corporal”.

Convidado a comentar, o médico Dr. John L. Sievenpiper, Ph.D., professor associado do Departamento de Ciências Nutricionais e Medicina da University of Toronto, no Canadá, concordou que os dados precisam ser reproduzidos.

Várias questões estão em aberto, disse o comentarista por e-mail para o Medscape: “É a sucralose per se ou a ausência de calorias que explica estes achados? E a questão maior é se essas diferenças de gordura e sexo se traduzem em ganho ponderal?"

Revisões sistemáticas e metanálises dos ensaios disponíveis randomizados controlados com adoçantes de baixa e nenhuma caloria, como a sucralose, mostraram a esperada diminuição da ingestão calórica com perda ponderal subsequente, tanto para o sexo masculino quanto para o feminino, com sobrepeso ou obesidade, observou o comentarista.

“Seria útil compreender se existem interações importantes relacionadas com a gordura e o sexo nos futuros ensaios clínicos", acrescentou Dr. John.

Homens e mulheres jovens com pesos diferentes

Os adoçantes artificiais são utilizados hoje em dia por mais de 40% dos adultos estadunidenses, escreveram os pesquisadores, mas os estudos têm informado resultados mistos sobre o apetite, o metabolismo da glicose e o peso corporal, e não está claro se estes adoçantes são benéficos ou prejudiciais à saúde.

Pesquisas anteriores, que foram majoritariamente feitas com homens e participantes magros, mostraram que as áreas cerebrais que participam da regulação do sabor, da sensação de recompensa e da homeostase podem responder diferentemente aos açúcares artificiais em comparação aos açúcares nutritivos.

Os pesquisadores buscaram investigar a questão utilizando dados iniciais do estudo Brain Response to Sugar (clinicaltrials.gov).

Eles analisaram dados de 74 pessoas saudáveis entre 18 e 35 anos (58% mulheres) com média de idade de 23 anos. No total, 37% tinham peso saudável, 32% tinham sobrepeso e 31% tinham obesidade.

Os participantes compareceram a três consultas no centro de estudos após uma noite de 12 horas de jejum.

Em cada consulta tomaram 300 mL de água, uma bebida adoçada com sucralose ou uma bebida adoçada com sacarose.

Fizeram coleta de sangue ao início de cada consulta e 10, 35 e 120 minutos após a ingestão da bebida. Vinte minutos após tomar a bebida, os participantes foram submetidos a uma ressonância magnética funcional, durante a qual lhes foram mostradas 12 imagens de alimentos doces, salgados e de alta caloria, de baixa caloria e quatro imagens que não continham alimentos, e foram solicitados a classificar a própria fome.

Aos 125 minutos após a ingestão da bebida, os participantes tiveram acesso a uma refeição em um buffet.

“Como previsto, as respostas endócrinas” – níveis séricos de glicose, insulina e peptídeo 1 glucagonoide – “foram maiores após a ingestão da sacarose do que a ingestão da sucralose”, observou Dra. Stéphanie, “mas não houve diferença significativa por sexo ou gordura”. Entretanto, “os achados mais novos e proeminentes foram observados em nível neurocomportamental", disse ela.

Ou seja, as pessoas com obesidade (mas não as com sobrepeso ou peso saudável) tiveram maior atividade neural na região pré-frontal do cérebro relacionada com a recompensa em resposta às imagens de alimentos saborosos após a ingestão de uma bebida contendo sucralose em comparação à sacarose.

Da mesma forma, depois de consumir a bebida adoçada com sucralose, em vez de adoçada com sacarose, as participantes do sexo feminino tiveram maior atividade nas regiões de sensação de recompensa do cérebro em resposta a indicações alimentares, especialmente aos alimentos doces e com alto teor calórico.

As mulheres também consumiram mais calorias na refeição feita no buffet após a ingestão de uma bebida adoçada com sucralose do que após uma bebida adoçada com sacarose.

O estudo foi financiado com verbas do National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases, National Institutes of Health (NIH). O banco de dados Research Electronic Data Capture (REDCap) utilizado é mantido pelo Southern California Clinical and Translational Science Institute por meio de verbas do NIH. Os pesquisadores e o editorialista informaram não ter conflitos de interesse.

JAMA Netw Open. 2021;4:e2126313, e2128047. Artigo, Editorial

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