COMENTÁRIO

Doutor, quero parar o remédio para a depressão! O que fazer?

Dr. Mauricio Wajngarten

Notificação

15 de outubro de 2021

A depressão é um quadro comum, que tem impactos sobre a saúde, piora o prognóstico de outras doenças e dificulta tratamentos. Clínicos gerais e cardiologistas enfrentam dificuldades com pacientes deprimidos, que vão desde a interpretação das queixas até a falta de adesão às orientações médicas.

Apesar de a depressão ser subdiagnosticada (especialmente entre jovens), fármacos antidepressivos vêm sendo cada vez mais prescritos por não especialistas.

Muitos pacientes resistem a iniciar o uso de medicamentos e, entre aqueles que aceitam, mais cedo ou mais tarde surge o questionamento sobre a duração do tratamento. Vários motivos os fazem desejar parar de tomar antidepressivos, entre eles, efeitos colaterais, medo de se “viciar”, receio de estigmatização etc. Nos casos em que há falha terapêutica ou ocorrência de efeitos colaterais a demanda é justificável, mas como proceder quando obtivemos bons resultados? Por quanto tempo a intervenção deve ser mantida?

Estas são perguntas recorrentes não apenas entre os pacientes, mas também entre os médicos.

O maior objetivo do tratamento da depressão é a remissão. Mantê-lo por pelo menos seis meses reduz a chance de recaída, mas a taxa de recidiva é alta.

Até o momento, os estudos que buscaram respostas apresentavam limitações, em particular em relação aos pacientes atendidos por clínicos gerais na atenção primária. Agora, o estudo Antidepressants to Prevent Relapse in Depression (ANTLER) enfrenta a questão. [1]

O estudo

Trata-se de um estudo randomizado feito em 150 clínicas de atenção primária no Reino Unido, que buscou avaliar os efeitos da manutenção versus descontinuação do tratamento antidepressivo em pacientes ambulatoriais em uso de antidepressivos há mais de nove meses. Os participantes deveriam se sentir suficientemente bem para considerar a interrupção do medicamento.

Os pacientes elegíveis para o estudo tinham entre 18 e 74 anos e relataram pelo menos dois episódios anteriores de depressão ou tomaram antidepressivos por mais de dois anos. Todos estavam recebendo e aderindo a um esquema terapêutico com 20 mg de citalopram, 100 mg de sertralina, 20 mg de fluoxetina ou 30 mg de mirtazapina há pelo menos nove meses, haviam se recuperado de seu episódio depressivo mais recente e sentiam-se bem. O ensaio foi realizado durante um período de 52 semanas, com acompanhamento de 6, 12, 26, 39 e 52 semanas.

O desfecho primário foi a primeira recaída da depressão durante o acompanhamento de 52 semanas.

Após uma cuidadosa seleção, 478 pacientes foram randomizados: 238 para o grupo de manutenção e 240 para o grupo de descontinuação. A maioria era de mulheres, com média de idade de 54 anos. Quase três quartos tomavam antidepressivos há mais de três anos.

Os resultados mostraram:

  • Recaída da depressão em 39% no grupo de manutenção e 56% no grupo de descontinuação (razão de risco = 2,06).

  • Recaída mais precoce no grupo de descontinuação do que no grupo de manutenção (13 semanas vs. 19 semanas).

  • A chance de recaída dos pacientes com pelo menos três episódios depressivos anteriores foi duas vezes maior do que a daqueles com história de menos episódios.

  • Na 12ª semana, 21% dos pacientes no grupo de manutenção e 44% no grupo de descontinuação referiram piora da qualidade de vida.

Implicações

Os autores concluíram que os riscos de recaída, piora da qualidade de vida, surgimento de mais sintomas de depressão e ansiedade, e abstinência da medicação foram maiores entre os pacientes que descontinuaram o tratamento do que aqueles que o mantiveram.

Um editorial interessante discute como esses resultados afetam a prática clínica. [2] Em resumo, o texto diz que a alta taxa de recidiva após a descontinuação do tratamento é algo esperado, principalmente entre pacientes com história de vários episódios depressivos anteriores.

Os editorialistas propõem que o desmame seja considerado após seis meses de tratamento entre pacientes com história de apenas um episódio – população não incluída no estudo em questão, visto que os pacientes selecionados tinham história de pelo menos dois episódios anteriores – e que, para pacientes com história de múltiplos episódios, o tratamento seja prolongado ou mantido por toda a vida.

Diante da alta taxa de recaída também entre pacientes em tratamento, os editorialistas recomendam acompanhamento rigoroso de todos os pacientes deprimidos, e, por fim, salientam que o estudo em pauta, como muitos outros, indica a carência de tratamentos “ideais” para a depressão; portanto, a nós, clínicos, resta conhecer bem os medicamentos, acompanhar os deprimidos cuidadosamente, manter pelo menos seis meses de tratamento para os pacientes sem episódios prévios, prolongar o tratamento para os casos com episódios prévios e encaminhar para um especialista os pacientes que nos deixam em dúvida.

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