Pulseira detecta infecção por Influenza e rinovírus antes do início dos sintomas

Pam Harrison

Notificação

14 de outubro de 2021

Uma simples pulseira com sensores de monitoramento biométrico é capaz de detectar quadros de infecção precoce tanto por gripe como por resfriado comum antes da manifestação de sintomas. Além disso, após o início dos sintomas, o dispositivo pode prever a gravidade da doença, mostram novas pesquisas.

"As pessoas já estão infectadas antes do surgimento dos sintomas, e potencialmente podem infectar os outros", disse ao Medscape por e-mail a autora sênior do estudo, Dra. Jessilyn Dunn, Ph.D., da Duke University, nos Estados Unidos.

"Por isso é tão importante detectar a infecção mesmo na ausência de sintomas, pois ajudaria a prevenir a propagação de patógenos que ocorre antes de a pessoa tomar ciência de que está doente – razão pela qual é algo importante do ponto de vista da saúde pública", acrescentou.

O estudo foi publicado on-line em 29 de setembro no periódico JAMA Network Open.

Dois “estudos de desafio”

O trabalho em tela incluiu duas coortes de estudos de desafio: H1N1 e rinovírus. Na primeira, 31 participantes foram inoculados com o vírus Influenza A subtipo H1N1 e na segunda, 18 participantes foram inoculados com a cepa 16 do rinovírus humano. O estudo de desafio do rinovírus foi realizado em 2015 e o estudo de desafio do H1N1 foi realizado em 2018. As duas coortes receberam a inoculação dos vírus diluídos (H1N1 ou rinovírus) por meio de gotas administradas por via intranasal.

Todos os participantes usaram a pulseira E4 (Empatica Inc). Aqueles na coorte do H1N1 usaram a pulseira no dia anterior e nos 11 dias seguintes à inoculação, e aqueles na coorte do rinovírus usaram a pulseira nos quatro dias anteriores e nos cinco dias seguintes à inoculação. A pulseira E4 verifica a frequência cardíaca, a temperatura da pele, a atividade eletrodérmica e o movimento.

Os sintomas eram típicos de cada infecção e foram classificados como eventos observáveis (p. ex., coriza, tosse e chiado no peito) ou não observáveis (p. ex., mialgia e fadiga). O estado da infecção foi classificado como assintomático ou não infeccioso, leve ou moderado.

Os sensores da pulseira detectaram a presença ou ausência de infecção por H1N1 com uma precisão de 79% dentro de 12 horas após a inoculação dos vírus nos participantes e, após 24 horas, a precisão foi de 92%, relataram os autores. Portanto, "foi possível avaliar se um participante havia sido infectado ou não pelo H1N1 entre 24 e 36 horas antes do início dos sintomas", observaram os pesquisadores.

O tempo médio para o início dos sintomas após o desafio com rinovírus foi 36 horas após a inoculação. Os sensores previram a presença ou ausência de infecção por rinovírus com uma precisão de 88%, escreveram os autores. E quando os dois desafios virais foram combinados, os modelos de previsão de infecção tiveram uma precisão de 76% 24 horas após os participantes serem inoculados.

Predição de gravidade

Doze horas após a inoculação dos vírus nos participantes, o dispositivo também foi capaz de prever o desenvolvimento de status assintomático ou não infeccioso, ou infecção por H1N1 moderada com 83% de precisão. Para o rinovírus, a precisão preditiva de distinguir estado assintomático versus infecção moderada foi ligeiramente superior a 92%, enquanto para os dois vírus combinados, a tecnologia previu o desenvolvimento de estado assintomático versus infecção moderada com uma taxa de precisão de 84%.

Tal como os autores indicaram, a capacidade de identificar indivíduos com infecção viral em estágio inicial, que é um momento crítico, pode ter efeitos abrangentes. “No meio da pandemia mundial de SARS-CoV-2, a necessidade de novas abordagens como essa nunca foi tão evidente”, sugeriram eles.

E, de fato, em um estudo que ainda não foi revisado por pares que utilizou um sistema de notificação instantânea via smartwatch também projetado para detectar alterações fisiológicas e de atividade associadas à infecção inicial, pesquisadores de Stanford constataram que 78% dos mais de 3.200 pacientes avaliados em média três dias antes do início dos sintomas receberam alerta de infecção por covid-19.

Os autores também pontuaram que o sistema é escalonável para milhões de usuários, oferecendo, assim, um sistema de monitoramento de saúde pessoal que pode operar em tempo real. Convidado a comentar sobre o estudo da Dra. Jessilyn et al., Dr. Steven Steinhubl, médico, pesquisador e ex-diretor de medicina digital do Scripps Research's Translational Institute, nos EUA, disse ao Medscape que ele, pessoalmente, acredita muito nesse tipo de tecnologia.

"Infelizmente, a covid-19 mudou a nossa perspectiva sobre infecções respiratórias, mas se você lembrar das piores temporadas de gripe que tivemos, as pessoas morrem sim de infecção por influenza, então acho que esta tecnologia tem muito valor, embora o tamanho desse valor dependa da gravidade da infecção", disse ele.

Por exemplo, se as pessoas de fato voltarem a trabalhar juntas, identificar uma possível infecção por influenza ou outro patógeno altamente contagioso de forma precoce em um funcionário pode alertá-lo para a necessidade de ficar em casa e se isolar.

"Precisamos andar mais antes de chegar lá", reconheceu o Dr. Steven, "mas poderia representar um impacto realmente grande na disseminação de qualquer doença infecciosa, o que seria melhor para todo mundo".

A Dra. Jessilyn informou não ter conflitos de interesses. O Dr. Steven é diretor clínico na physIQ, uma empresa que atua com o desenvolvimento de análises personalizadas.

JAMA Network Open. Publicado on-line em 29 de setembro de 2021. Texto completo

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