Trombocitose súbita pode ser alerta para câncer oculto?

Helen Leask

Notificação

13 de outubro de 2021

Um hemograma completo de rotina pode ter um impacto maior do que se pensava, sugere uma recente análise de mais de três milhões de prontuários canadenses.

Um achado de trombocitose (contagem de plaquetas > 450 × 109/L) foi associado a um risco muito aumentado de alguns tipos de câncer dentro de até cinco anos.

No total, uma alta contagem de plaquetas aumentou em 2,7 vezes a probabilidade diagnóstico de câncer de tumor sólido dentro de dois anos (intervalo de confiança, IC, de 95% de 2,6 a 2,8).

Os tumores com maior probabilidade de estarem associados a trombocitose súbita foram aqueles notórios pelo diagnóstico tardio devido à falta de sintomas iniciais.

O risco foi maior para câncer de ovário: aumento de 23,3 vezes. O risco foi 3,8 vezes maior para câncer de pâncreas e 3,5 vezes maior para câncer cervical.

A probabilidade de câncer de pulmão em dois anos foi 4,4 vezes maior entre os pacientes com trombocitose em comparação com os pacientes com contagem normal de plaquetas.

Por outro lado, tumores de mama, próstata e tireoide não foram associados ao achado de trombocitose.

Os resultados do estudo foram publicados on-line em 12 de agosto no periódico JAMA Network Open.

Um dos autores do artigo, Dr. Stephen Narod, médico e diretor da Familial Breast Cancer Research Unit, do Women's College Research Institute, no Canadá, disse que os resultados não foram inesperados, mas que foram "muito impressionantes".

"Tive um palpite de que teríamos este resultado, porque eu já havia visto isso em outros bancos de dados", disse o Dr. Stephen. "Acho que o que me impressionou foi a o tamanho da onipresença."

O Dr. Stephen solicitou que os médicos, especialmente os da atenção primária, fiquem atentos: "Se as plaquetas estiverem altas, eu certamente pensaria em câncer de pulmão, de cólon e de ovário."

O Dr. Stephen e o coautor Vasily Giannakeas apontaram que não foi possível identificar na análise em quais casos o exame de sangue foi realizado porque o paciente apresentava queixas associadas ao câncer. Nesses casos, a trombocitose pode ter sido diagnóstica, em vez de um achado ocasional que salva vidas.

Achados semelhantes foram relatados recentemente no Reino Unido.

Um estudo da Dra. Sarah Bailey, Ph.D., e seus colaboradores, publicado em 2020 no periódico British Journal of General Practice, também encontrou uma conexão entre a incidência de câncer e a contagem de plaquetas. Dra. Sarah é pesquisadora sênior da University of Exeter, no Reino Unido.

No entanto, ao contrário do estudo canadense, a equipe liderada pela Dra. Sarah conseguiu distinguir os pacientes que apresentavam sintomas sugestivos de câncer. A equipe constatou que dois terços dos homens com mais de 65 anos "não tinham sintomas sugestivos de câncer registrados nos 21 dias anteriores à contagem de plaquetas índice".

Embora isso sugira que um achado rotineiro de trombocitose pode revelar tumores ocultos, a Dra. Sarah é cautelosa quanto a considerar a contagem de plaquetas como uma nova ferramenta de rastreamento de câncer.

Em comentários enviados por e-mail, ela disse: "A parte crucial do nosso estudo é que foi conduzido com pacientes que estavam doentes o suficiente para consultarem seu clínico geral. A verificação oportunista em pacientes assintomáticos seria uma coisa bem diferente. Precisaríamos estudar a contagem de plaquetas e tumores subsequentes em pacientes assintomáticos para saber se vale a pena fazer isso."

Talvez mais útil, o estudo do Reino Unido mostrou que o risco de câncer aumentou mesmo entre alguns pacientes com contagens normais de plaquetas. Por exemplo, para homens com 60 anos ou mais, o câncer de pulmão foi 4,7 vezes mais provável entre aqueles com contagens normais altas (≥ 326 x 109/L).

Por causa dessa descoberta um tanto alarmante, a Dra. Sarah sugeriu abandonar o foco em valores absolutos. O aumento da contagem de plaquetas pode ser mais útil clinicamente, disse ela.

“Os médicos devem estar atentos a qualquer aumento inexplicável na contagem de plaquetas de um indivíduo, independentemente de o valor aumentado estar acima ou abaixo do limite de referência local da trombocitose”, concluiu.

O Dr. Stephen informou não ter conflitos de interesses. A Dra. Sarah é fellow em pesquisa da CanTest Collaborative.

JAMA Netw Open. Publicado on-line em 12 de agosto de 2021. Texto completo

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