Infecção torácica não complicada na pediatria: antibióticos não ajudam

Kate Johnson

Notificação

12 de outubro de 2021

A menos que haja suspeita de pneumonia, os médicos não devem prescrever antibióticos para a maioria das crianças com infecção torácica, de acordo com os resultados do ensaio clínico randomizado ARTIC-PC, publicado no periódico The Lancet.

“A prescrição para crianças com infecção torácica não complicada ainda é comum na maioria dos países”, disse o primeiro autor, Dr. Paul Little, médico e professor de pesquisa de cuidados primários na University of Southampton, na Inglaterra, em uma entrevista ao Medscape.

Mas existem barreiras para interromper essa prática, disse ele. “Se você prescreve um antibiótico e a criança melhora, mesmo que o antibiótico não esteja fazendo muito, os pais pensam que foi o antibiótico o responsável pela recuperação e então esperam antibióticos da próxima vez. Então, médicos prescrevendo os antibióticos na verdade medicalizam as doenças e mantêm o ciclo de expectativas, novas consultas e prescrições subsequentes."

O estudo incluiu 432 crianças de 6 meses a 12 anos (idade mediana: 3,2 anos) que foram atendidas em 56 clínicas gerais na Inglaterra com infecção aguda do trato respiratório inferior não complicada com menos de 21 dias de duração sem suspeita clínica de pneumonia. As crianças foram randomizadas para receber sete dias de tratamento com 50 mg/kg de amoxicilina ou placebo. O desfecho primário foi a duração dos sintomas, classificados como moderadamente ruins ou piores.

Por até quatro semanas, os pais atribuíram pontos aos sintomas – incluindo tosse, catarro, falta de ar, sibilos, congestão ou descarga nasal, sono conturbado, mal-estar geral, febre e interferência nas atividades normais – em um diário. O resultado secundário foi a gravidade dos sintomas. Análises pré-especificadas foram feitas para os principais subgrupos clínicos de pacientes para os quais os médicos comumente prescrevem (aqueles com sinais no tórax, febre, avaliação médica de indisposição, expectoração ou sibilo e falta de ar).

Não houve diferença significativa entre os desfechos das crianças tratadas com antibióticos ou placebo. A duração mediana dos sintomas moderadamente ruins ou em piora foi semelhante entre os grupos; de cinco dias com o uso de antibióticos versus seis dias com o placebo (razão de risco, RR, de 1,13); assim como a mediana de tempo até que os sintomas fossem classificados como ausentes ou como irrisórios (7 versus 8 dias; RR de 1,09). Houve uma pequena diferença significativa entre os grupos na pontuação de gravidade dos sintomas no segundo ao quarto dia após consultar o médico (1,8 no grupo de antibióticos versus 2,1 no grupo de placebo), "que foi equivalente a menos de uma criança com três sintomas classificados como um pequeno problema em vez de um problema mínimo", relatam os autores do estudo.

"Os efeitos do tratamento para todos os desfechos foram semelhantes na maioria dos subgrupos, com o efeito dos antibióticos sendo ligeiramente, mas não significativamente, maior entre aqueles com febre ou aqueles que não estavam bem", acrescentaram.

Os pesquisadores concluíram que "assim como em adultos, é improvável que os antibióticos façam uma diferença clinicamente importante no impacto dos sintomas de infecções não complicadas do trato respiratório inferior em crianças – tanto em geral quanto para os principais subgrupos clínicos onde a prescrição de antibióticos é mais comum". Eles recomendam que os médicos forneçam "conselhos de rede de segurança" aos pais, como explicando qual curso de doença esperar e quando uma consulta de retorno seria necessária.

Os achados fornecem "mais evidências para fazermos menos", escreveram a Dra. Rianne Oostenbrink, Ph.D., médica da Erasmus MC-Sophia Kinderziekenhuis, na Holanda, e a Dra. Lina Jankauskaite, Ph.D., médica da Lietuvos sveikatos mokslų universitetas, na Lituânia, em um comentário que acompanha o estudo.

“A realização de exames e tratamentos prescindíveis em crianças é especialmente alta em caso de doenças infecciosas, quando a febre ou outros sintomas como tosse podem ser inespecíficos e ter origem viral ou bacteriana”, escreveram.

As autoras do comentário observam que, apesar dos antibióticos, a maioria das crianças apresentou sintomas moderadamente ruins ou piores no terceiro dia, e os sintomas de cerca de 75% das crianças em ambos os grupos havia melhorado no 14º dia. "Um achado notável deste estudo é que apenas algumas crianças apresentaram sintomas moderadamente ruins ou piores no 14º dia, e os antibióticos não aliviaram os sintomas em comparação com o placebo. Além disso, este ensaio está de acordo com outros estudos que mostraram que a redução do tratamento com antibióticos para infecção do trato respiratório inferior não está associada a morbidade prolongada ou maior incidência de complicações."

O estudo foi financiado pelo UK National Institute for Health Research. Os Drs. Paul, Rianne e Lina informaram não ter conflitos de interesses.

Lancet. Publicado on-line em 22 de setembro de 2021. Texto completoComentário

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