Inibidores do SGLT2 versus agonistas do receptor do GLP-1 na proteção contra doenças cardíacas em pacientes com diabetes

Sara Freeman

Notificação

11 de outubro de 2021

Quando se trata da proteção contra doenças cardíacas em pacientes com diabetes, os inibidores do cotransportador 2 de sódio-glicose (SGLT2, sigla do inglês Sodium-Glucose Cotransporter-2) podem ter uma ligeira vantagem em relação aos agonistas do receptor do peptídeo 1 semelhante ao glucagon (GLP-1, sigla do inglês Glucagon-Like Peptide-1), de acordo com os resultados de um grande estudo observacional de coorte de base populacional.

Foi obtida uma redução de cerca de 30% no risco de hospitalização por insuficiência cardíaca em pessoas com diabetes tipo 2 tratadas com um inibidor do SGLT2 em relação a um agonista do receptor do GLP-1, independentemente da história de doença cardíaca.

Os achados, publicados no periódico Annals of Internal Medicine, também revelaram um risco 10% menor de infarto do miocárdio ou acidente vascular cerebral (AVC) entre os pacientes tratados com algum inibidor do SGLT2 que tinham doença cardiovascular preexistente – apesar de não ter havido diferença no risco entre as duas classes farmacológicas em relação aos pacientes sem história de doença cardiovascular.

"Esses achados são importantes, pois sugerem que os inibidores do SGLT2 e os agonistas do receptor do GLP-1 oferecem benefícios semelhantes na prevenção de infarto do miocárdio e AVC em pacientes com diabetes", disse a pesquisadora do estudo, Dra. Elisabetta Patorno, médica do Brigham and Women's Hospital e Harvard Medical School, nos Estados Unidos.

Eles também mostram "que os inibidores do SGLT2 oferecem maior eficácia na prevenção da insuficiência cardíaca, o que corrobora as atuais diretrizes", acrescentou ela.

O Dr. Paul S. Jellinger, médico do Center for Diabetes and Endocrine Care e professor de medicina na University of Miami, nos EUA, disse que esses dados provavelmente seriam "adicionais às diretrizes, mas não transformadores". Os resultados globais da análise "não foram surpreendentes". Era de se esperar que os inibidores do SGLT2 proporcionassem um benefício robusto para insuficiência cardíaca crônica em indivíduos com história de doença cardiovascular, disse ele.

O Dr. Paul observou que "o benefício cardiovascular semelhante em ambas as classes farmacológicas em pacientes sem doença cardiovascular conhecida contribui para o nosso conhecimento nesta área um tanto controversa, e pode ser útil para o médico na avaliação da terapia de um indivíduo com diabetes e sem evidência de ou com alto risco de insuficiência cardíaca crônica."

Além disso, "o estudo também nos lembra que, conforme demonstrado em uma metanálise publicada, também há um modesto benefício no tratamento da insuficiência cardíaca crônica associado ao uso de agonistas do receptor do GLP-1, particularmente em pacientes com história de doença cardiovascular."

Resolvendo a lacuna de conhecimento

Graças aos resultados de muitos grandes estudos prospectivos de desfechos cardiovasculares, tanto os inibidores do SGLT2 como os agonistas do receptor do GLP1 são recomendados como tratamento para pessoas com diabetes e doença cardiovascular estabelecida. Entretanto, como nenhum ensaio clínico direto (head-to-head) foi realizado, há uma lacuna no conhecimento, e atualmente há poucas orientações para os médicos a respeito da classe farmacológica de escolha para um paciente específico.

Para tentar esclarecer as coisas, Dra. Elisabetta e colaboradores analisaram dados de mais de 370.000 pessoas com diabetes tipo 2 que foram tratadas entre abril de 2013 e dezembro de 2017 com algum inibidor do SGLT2 (canagliflozina, dapagliflozina ou empagliflozina) ou agonista do receptor do GLP-1 RA (albiglutida, dulaglutida, exenatida ou liraglutida).

O escore de propensão com pareamento um para um foi usado para criar os grupos de estudo: os participantes foram primeiro agrupados de acordo com sua história de doença cardiovascular e, em seguida, pela classe farmacológica que havia sido prescrita. Os desfechos primários foram hospitalização por infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral ou insuficiência cardíaca.

Comparando o início de uso de um inibidor do SGLT2 com o de um agonista do receptor do GLP-1, a razão de risco (HR, do inglês Hazard Ratio) de infarto do miocárdio ou de AVC entre pacientes com e sem história de doença cardiovascular foi de, respectivamente, 0,90 (intervalo de confiança, IC, de 95% de 0,82 a 0,98) e 1,07 (IC de 95% de 0,97 a 1,18).

A HR correspondente de hospitalizações por insuficiência cardíaca foi de 0,71 (IC de 95% de 0,64 a 0,79) para aqueles com história de doença cardiovascular e de 0,69 (IC de 95% de 0,56 a 0,85) para aqueles sem história de doença cardiovascular.

Os estudos do mundo real têm “valor crescente”

“Como em outros estudos não randomizados baseados em dados do mundo real, a confusão residual não pode ser completamente descartada”, reconheceu a Dra. Elisabetta. Ela acrescentou, no entanto, que "estratégias metodológicas de ponta foram implementadas para minimizar essa possibilidade".

Apesar das limitações, "os estudos do mundo real estão demonstrando um valor crescente", observou o Dr. Paul. Outros grandes estudos de desfechos cardiovasculares que comparem diretamente essas duas classes de farmacológicas "são improváveis, dada a qualidade das informações disponíveis", sugeriu o Dr. Paul.

Este estudo retrospectivo "head-to-head" pode ser o mais próximo possível de um estudo comparativo entre as duas classes de farmacológicas, e representa o primeiro esforço de comparação entre elas.

Sobre as potenciais implicações clínicas a Dra. Elisabetta disse: "Como as duas classes são igualmente eficazes para acidente vascular cerebral e infarto do miocárdio, mas os inibidores do SGLT2 são superiores para insuficiência cardíaca, quando considerados em conjunto, os inibidores do SGLT2 provavelmente previnem mais eventos cardiovasculares adversos do que os agonistas do receptor do GLP-1".

O estudo não recebeu financiamento comercial e foi financiado pelo Brigham and Women's Hospital e pela Harvard Medical School Division of Pharmacoepidemiology and Pharmacoeconomics. A Dra. Elisabetta e o Dr. Paul informaram não ter conflitos de interesses.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....