Nova estratégia para bebês com sintomas de autismo: achados promissores

Kate Johnson

Notificação

6 de outubro de 2021

Crianças de um ano de idade submetidas a uma intervenção conduzida por seus pais/mães direcionada a sinais preliminares de transtorno do espectro autista apresentaram uma redução significativa dos sintomas e da probabilidade de receber um diagnóstico de autismo aos três anos de idade em um novo estudo.

Esses achados, publicados no periódico JAMA Pediatrics, representam as primeiras evidências no mundo de que uma intervenção preventiva na infância pode ser tão significativa no desenvolvimento social das crianças, resultando em uma prevalência "três vezes menor de diagnósticos de autismo aos três anos" de idade, disse o primeiro autor do estudo, Dr. Andrew Whitehouse, Ph.D., em um comunicado à imprensa.

"Nenhum ensaio de intervenção preventiva em bebês, realizada antes do diagnóstico, havia mostrado um efeito como este no impacto dos desfechos diagnósticos – até agora", disse ele.

A intervenção do estudo é uma abordagem não tradicional

O Dr. Andrew, que é professor de Pesquisa do Autismo no Telethon Kids e University of Western Australia e diretor da CliniKids, disse que a intervenção é um afastamento das abordagens tradicionais. “Tradicionalmente, a terapia busca treinar as crianças para aprenderem comportamentos 'típicos'”, disse ele por e-mail.

"A diferença dessa terapia é que ajudamos os pais a compreenderem as singulares habilidades de seus bebês, e a usar essas qualidades como base para o desenvolvimento."

O estudo do Dr. Andrew incluiu 103 crianças (de aproximadamente um ano de idade), que apresentaram pelo menos três dos cinco comportamentos que indicam alta probabilidade de transtorno do espectro autista, conforme definido pela lista de verificação aos 12 meses de vida Social Attention and Communication Surveillance–Revised (SACS-R). Os bebês foram randomizados para receber cuidado habitual ou intervenção, batizada de iBASIS–Video Interaction to Promote Positive Parenting (iBASIS-VIPP). O cuidado habitual foi realizado por médicos da comunidade, enquanto a intervenção foi realizada por um terapeuta capacitado em 10 sessões na casa dos pacientes.

"O iBASIS-VIPP se vale de feedback por vídeo para ajudar os pais a reconhecerem as pistas de comunicação dos bebês, para que possam responder de modo a edificar o desenvolvimento da comunicação social", explicou o Dr. Andrew em uma entrevista. "O terapeuta então orienta os pais sobre como o bebê está se comunicando com eles, e como eles podem dar retorno à comunicação para estabelecer uma dinâmica de conversa de mão dupla."

"Sabemos que essa dinâmica de conversas de mão dupla é cruciais para apoiar o desenvolvimento da comunicação social preliminar, sendo um precursor de habilidades mais complexas, como a linguagem verbal", acrescentou ele.

A reavaliação das crianças aos três anos de idade mostrou um benefício "pequeno, mas sólido" da intervenção, observaram os autores. As crianças no grupo da intervenção apresentaram redução na gravidade dos sintomas do transtorno do espectro autista (P = 0,04) e menos chances de classificação como transtorno do espectro autista, em comparação com as crianças no grupo dos cuidados habituais (6,7% versus 20,5%; razão de chances ou odds ratio, OR, de 0,18; P = 0,02).

Os achados fornecem "evidências iniciais da eficácia de um novo modelo clínico, que utiliza uma intervenção específica focada no desenvolvimento", observaram os autores. "As crianças que caíram abaixo do limiar de diagnóstico ainda tinham dificuldades de desenvolvimento, mas, ao trabalhar as singularidades de cada criança, em vez de tentar combatê-las, a terapia apoiou foi eficaz em dar apoio ao desenvolvimento destas crianças na primeira infância", observou o Dr. Andrew no comunicado.

Outra pesquisa mostrou benefícios da abordagem do novo estudo

Este é um estudo "sólido", "mas, como reconhecido pelos autores, a magnitude dos principais efeitos é pequena e será importante avaliar os desfechos em longo prazo", disse a Dra. Jessica Brian, Ph.D., professora associada no Departamento de Pediatria da University of Toronto, uma das líderes do Autism Research Centre, psicóloga e pesquisadora clínica do Holland Bloorview Kids Rehab Hospital, no Canadá.

A Dra. Jessica referiu que seu artigo publicado no periódico Autism Research, entre outros, e realizado em colaboração com outros autores, mostra que a estratégia usada no estudo em pauta pode ser útil para melhorar diferentes áreas do desenvolvimento infantil, mas "o achado específico sobre a redução da probabilidade de diagnóstico de transtorno do espectro autista é um pouco diferente".

O objetivo de reduzir a probabilidade de diagnóstico de autismo "precisa ser considerado com cuidado, do ponto de vista da aceitação do autismo", acrescentou ela. "Do ponto de vista da aceitação, o objetivo principal da intervenção precoce no transtorno do espectro autista pode ser melhor descrito como melhorar ou apoiar o desenvolvimento da criança, ajudá-la a progredir no desenvolvimento, desenvolver seus pontos fortes, otimizar os resultados ou reduzir os prejuízos. Acho que os autores fazem um bom trabalho em equilibrar essa perspectiva."

Novo estudo mostra o valor das intervenções mediadas pelos pais

No geral, Dra. Jessica, coautora da declaração de posicionamento da Canadian Paediatric Society sobre o diagnóstico de transtorno do espectro autista, elogiou os achados como uma boa notícia.

"Isso mostra o valor do uso de intervenções mediadas pelos pais, que são muito menos caras e são mais eficientes em termos de recursos do que a maioria dos modelos administrados por terapeutas", disse ela.

"Nos casos em que as abordagens mediadas pelos pais são disponibilizadas às famílias antes do diagnóstico, há potencial para efeitos fortes, quando o cérebro é mais receptivo à aprendizagem. Esses modelos também podem ser um ajuste ideal antes do diagnóstico, uma vez que usam menos recursos intensivos do que os modelos entregues por terapeutas, que só podem ser financiados pelos governos após a confirmação do diagnóstico”, disseram ela.

"Finalmente, os programas mediados pelos pais têm o potencial de apoiar os pais durante o que, para muitas famílias, é um momento particularmente desafiador, pois eles identificam as diferenças de desenvolvimento de seus filhos ou recebem um diagnóstico. Esses programas têm potencial para aumentar a confiança dos pais na criação de filhos com necessidades especiais de aprendizagem."

A Dra. Jessica acredita que o artigo deixou de reconhecer que, "apesar dos ganhos iniciais de desenvolvimento com as intervenções mediadas pelos pais, é provável que a maioria das crianças com transtorno do espectro autista precise de suporte adicional ao longo do desenvolvimento".

O estudo foi financiado pelo Telethon Kids Institute. O Dr. Andrew informou não ter conflitos de interesses. A Dra. Jessica desenvolveu uma intervenção mediada pelos pais para lactentes com transtorno do espectro autista suspeito ou confirmado (Social ABCs), pela qual ela não recebe royalties.

JAMA Pediatr. Publicado on-line em 20 de setembro de 2021. Texto completo

Este conteúdo foi originalmente publicado em MDedge.com Medscape Professional Network.

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