Declaração de consenso adverte contra o uso de paracetamol durante a gestação

Diana Swift

Notificação

5 de outubro de 2021

Gestantes devem usar paracetamol apenas em caso de indicação clínica, na menor dose eficaz e pelo menor tempo possível, de acordo com uma declaração de consenso internacional publicada on-line em 23 de setembro no periódico Nature Reviews Endocrinology.

Com altas taxas globais de uso e riscos considerados insignificantes, o grupo de especialistas composto de 13 autores dos Estados Unidos e da Europa solicita a realização de pesquisas focadas em como este analgésico e antitérmico pode comprometer o desenvolvimento fetal e levar a desfechos adversos em crianças. Os autores descrevem várias medidas de precaução a serem tomadas neste ínterim.

De acordo com a primeira autora e epidemiologista, Dra. Ann Z. Bauer da University of Massachusetts, nos Estados Unidos, e seus colegas, o medicamento é usado por cerca de 65% das gestantes nos Estados Unidos, e mais de 50% no mundo todo. Atualmente, é o princípio ativo em mais de 600 medicamentos de venda livre e controlada, incluindo o Tylenol, que é historicamente considerado seguro em todos os trimestres da gestação.

Mas um crescente corpo de evidências experimentais e epidemiológicas sugere que a exposição pré-natal ao paracetamol (N-acetil-p-aminofenol – APAP) pode alterar o desenvolvimento fetal e elevar os riscos de distúrbios do desenvolvimento neurológico, reprodutivos e urogenitais em ambos os sexos. A exposição in utero foi associada, por exemplo, a potenciais problemas comportamentais em crianças.

As novas recomendações são baseadas em uma revisão de pesquisas experimentais em animais e em culturas de células, bem como em dados epidemiológicos humanos publicados de janeiro de 1995 a outubro de 2020. Dentre os autores constam médicos, epidemiologistas e cientistas especializados em toxicologia, endocrinologia, medicina reprodutiva e neurodesenvolvimento.

Recomendações

Apesar de as novas diretrizes não serem claramente contrárias às atuais, os autores acreditam na necessidade de uma comunicação mais incisiva e maior conscientização sobre os riscos. Além de restringir o uso do paracetamol a baixas doses por curtos períodos quando clinicamente necessário, as gestantes devem ser orientadas antes da concepção ou no início da gestação. Em caso de dúvidas sobre o uso, devem consultar seus médicos ou farmacêuticos.

Em outras recomendações, o grupo disse:

  • As recomendações da FDA Drug Safety Communication de 2015 devem ser atualizadas com base na avaliação de todas as evidências científicas disponíveis.

  • O Comitê de Avaliação de Risco de Farmacovigilância da European Medicines Agency deve revisar as pesquisas epidemiológicas e experimentais mais recentes e emitir uma Comunicação de Segurança de Medicamentos atualizada.

  • As associações de ginecologia e obstetrícia devem atualizar suas diretrizes após revisar todas as pesquisas disponíveis.

  • A Acetaminophen Awareness Coalition (campanha Know Your Dose) deve adicionar advertências padronizadas e aconselhar especificamente as gestantes a não tomar paracetamol, a menos que seja indicado por um médico.

  • Todas as vendas de medicamentos contendo paracetamol devem ser acompanhadas de recomendações específicas para uso durante a gestação. Essas informações devem incluir rótulos de advertência na embalagem e, se possível, o paracetamol deve ser vendido apenas em farmácias (como na França).

Mecanismo de ação

O paracetamol é um desregulador endócrino (Neuroscientist. 2020 Set 11. doi: 10.1177/1073858420952046).

"Substâncias químicas que desregulam o sistema endócrino são preocupantes, porque podem interferir na atividade dos hormônios endógenos, que são essenciais para o desenvolvimento saudável dos sistemas neurológico, urogenital e reprodutivo", escreveram os pesquisadores.

"O mecanismo preciso não está claro, mas acredita-se que a toxicidade se deva principalmente à desregulação hormonal", disse a Dra. Ann em uma entrevista.

Além disso, o paracetamol atravessa prontamente a barreira placentária e hematoencefálica, e as mudanças no metabolismo do paracetamol durante a gestação podem deixar as mulheres e os fetos mais vulneráveis aos efeitos tóxicos do medicamento. Por exemplo, a fração da dose molar de paracetamol convertida no metabólito N-acetil-p-benzoquinona imina (NAPQI), que é pró-oxidante, aumenta durante a gestação. Além da hepatotoxicidade, acredita-se que este subproduto tóxico seja uma genotoxina que aumenta a clivagem do DNA ao atuar na enzima topoisomerase II.

Solicitada a compartilhar seu ponto de vista sobre a declaração, a Dra. Kjersti Aagaard, professora de obstetrícia e ginecologia do Baylor College of Medicine e do Texas Children's Hospital, nos Estados Unidos, disse que a declaração do grupo de especialistas é cuidadosa e abrangente, mas pediu cautela na interpretação do papel de paracetamol.

O desafio de vincular qualquer medicamento comumente usado a efeitos colaterais e defeitos congênitos, disse ela, é "arrancar uma associação de causalidade. Dada a elevada frequência do uso de paracetamol com a relativa raridade dos desfechos, está claro que nem todos os casos de exposição resultam em desfechos adversos."

Quanto ao uso criterioso, disse ela, um seria a redução da febre alta, que pode causar aborto, defeitos do tubo neural e possíveis doenças cardíacas na idade adulta.

O paracetamol é o medicamento de escolha neste caso, uma vez que os anti-inflamatórios não esteroides, como o ibuprofeno, não são recomendados devido aos seus riscos conhecidos para o coração fetal.

A Dra. Kjersti enfatizou que, embora o uso de paracetamol esteja temporariamente associado a problemas de aprendizagem, comportamentais e distúrbios urogenitais ao nascimento em bebês do sexo masculino, como hipospádia, o mesmo ocorre com a exposição a várias substâncias químicas e poluentes ambientais, bem como com as mudanças climáticas.

"Seria um tremendo erro, com implicações na vida real, associarmos qualquer doença ou distúrbio congênito a um medicamento comumente usado e com benefícios reconhecidos, se o verdadeiro vínculo causal estiver em outro lugar."

Ela disse que as declarações de precaução se enquadram no consagrado princípio terapêutico de, antes de mais nada, não prejudicar o paciente. "No entanto, o apelo à ação de pesquisa deve ser realizado com seriedade e sinceridade."

De acordo com Dra. Ann, a principal mensagem da declaração é que "os médicos devem educar-se e educar as mulheres sobre o que estamos aprendendo a respeito dos riscos do paracetamol na gestação." O risco pode ser minimizado por meio do uso da menor dose eficaz, pelo menor período possível e somente em caso de indicação clínica. “As gestantes devem falar com seus médicos sobre o paracetamol. É sobre empoderamento e decisões inteligentes", disse ela.

Este estudo não recebeu financiamento específico. O coautor RT Mitchell é apoiado por uma bolsa do UK Research Institute.

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