AHA publica declaração sobre controle da hipertensão associada à obesidade

Marlene Busko

Notificação

5 de outubro de 2021

Enquanto as declarações científicas anteriores da American Heart Association (AHA) abordaram como a alimentação, a prática de atividades físicas e o controle do peso corporal podem contribuir para a prevenção e o controle da hipertensão, uma nova declaração da entidade se volta para a hipertensão associada à obesidade.

O documento, que foi publicado on-line em 20 de setembro no periódico Hypertension, também identifica lacunas no conhecimento e sugere direções para as próximas pesquisas.

"Visto que a obesidade é um importante fator de risco de hipertensão, e que a hipertensão é um dos maiores (senão o maior) fatores de risco atribuíveis para a maioria das doenças cardiovasculares, achamos que seria importante focar em estratégias de perda ponderal e atualizar o que sabemos sobre as opções terapêuticas disponíveis para tratar a hipertensão associada à obesidade", disse ao Medscape por e-mail o presidente do grupo redator, Dr. Michael E. Hall.

“Estratégias clínicas e cirúrgicas podem contribuir para o controle do peso corporal e da pressão arterial em longo prazo, junto com uma alimentação saudável para o coração e a prática de atividade física”, observou o médico em uma declaração da AHA à imprensa.

“Muitas vezes não consideramos medicamentos ou cirurgia metabólica até que haja danos a órgãos-alvo, como lesão cardíaca ou um acidente vascular cerebral (AVC)."

No entanto, agindo mais cedo, "podemos conseguir prevenir essas complicações", acrescentou Dr. Michael, que é diretor da Divisão de Doenças Cardiovasculares da University of Mississippi Medical Center, nos EUA.

“Este não é um apelo para aumentar o uso de uma terapia específica”, esclareceu. “No entanto, sabemos que tratamentos mais agressivos, incluindo com medicamentos antiobesidade ou cirurgia metabólica, são subutilizados”.

De acordo com Dr. Michael, "tratamos o problema secundário (ou seja, a hipertensão ou diabetes), mas não estamos tratando a causa (obesidade) de forma tão agressiva."

"Esperamos que esta declaração aumente a conscientização de que existem várias opções terapêuticas e chame a atenção para este grande problema de saúde", disse ele.

Ele acrescentou que a questão mais importante, em sua opinião, é a melhor forma de combater a obesidade entre crianças e adolescentes para diminuir o risco de hipertensão e outras complicações associadas.

A declaração é dirigida a profissionais de saúde da atenção primária e especialistas.

Alimentação e atividade física ajudam, mas o ganho ponderal subsequente é comum

A perda de 5% a 10% do peso corporal pode levar a uma redução de mais de 5 mmHg da pressão arterial sistólica e 4 mmHg da pressão arterial diastólica, segundo a declaração. Perder 10 kg pode reduzir a pressão arterial sistólica em 5 a 20 mmHg.

Para controlar o peso corporal, a hipertensão e reduzir o risco de doenças cardiovasculares, as diretrizes recomendam a dieta mediterrânea ou a Dietary Approach to Stop Hypertension (DASH), que priorizam o consumo de frutas, vegetais, legumes, oleaginosas e sementes, com uma ingestão moderada de peixes, frutos do mar, aves e laticínios, e baixo consumo de carnes vermelhas, processadas e de doces. A dieta mediterrânea também inclui azeite e consumo moderado de vinho (principalmente tinto).

O efeito do jejum intermitente no controle da pressão arterial não está claro, pontua o comunicado.

O texto acrescenta que, normalmente, de 150 a 225 minutos e de 225 a 420 minutos de atividade física por semana podem resultar em perda ponderal de 2,0 a 3,0 kg ou 5,0 a 7,5 kg, respectivamente, e 200 a 300 minutos de atividade física por semana são necessários para manter a perda ponderal.

“A manutenção da perda ponderal bem-sucedida ao longo dos anos, portanto, normalmente requer bastante atividade física e tempo ocioso limitado, monitoramento de peso frequente e restrição alimentar”, e a recuperação do peso é comum, resumiram os autores.

Outras opções para tratar a obesidade e a hipertensão

Farmacoterapia para perda ponderal e cirurgia metabólica são outras opções para tratar a obesidade e reduzir a hipertensão.

A declaração informa que há quatro medicamentos aprovados pela Food and Drug Administration (FDA) dos EUA para perda ponderal em longo prazo: orlistate, fentermina/topiramato de liberação estendida, naltrexona/bupropiona e 3,0 mg de liraglutida. Em 04 de junho, a FDA aprovou um quinto medicamento, a semaglutida.

Os efeitos de longo prazo dos medicamentos antiobesidade sobre a pressão arterial são mistos.

No entanto, "as taxas de prescrição desses medicamentos permanecem baixas, provavelmente devido à cobertura limitada dos planos de saúde e aos baixos níveis de proficiência clínica no tratamento da obesidade", escreveram Dr. Michael e colegas.

A cirurgia metabólica pode ser uma opção de perda ponderal para alguns pacientes e está associada à redução da pressão arterial.

No ensaio Gastric Bypass to Treat Obese Patients With Steady Hypertension (GATEWAY) feito com 100 pacientes, que foi publicado no periódico Circulation em 2018, mais pacientes no grupo de by-pass gástrico em Y-de-Roux do que no grupo de controle (84% versus 13%) atingiram o desfecho primário de redução do número de anti-hipertensivos > 30% em 12 meses, enquanto se mantinha uma pressão arterial aferida no consultório < 140/90 mmHg.

Perguntas não respondidas e orientações de pesquisas futuras

Estima-se que em 2015/2016, 18,5% das crianças e adolescentes norte-americanos (entre 2 e 19 anos) tinham obesidade, segundo a declaração. Crianças com obesidade têm o dobro do risco de hipertensão incidente, e aquelas com obesidade grave têm o quadruplo do risco deste desfecho, em comparação com crianças com peso saudável.

O Dr. Michael e seus colegas enfatizaram que "à medida que a prevalência da obesidade continua a aumentar, a hipertensão e as doenças cardiorrenais associadas também aumentarão, a menos que estratégias mais eficazes para prevenir e tratar a obesidade sejam desenvolvidas."

Eles identificaram 17 questões não respondidas (lacunas no conhecimento) que podem orientar as próximas pesquisas:

  • Que novas estratégias e diretrizes baseadas na ciência são necessárias para conter as evidências crescentes de obesidade infantil?

  • A perda ponderal intencional com farmacoterapia ou cirurgia metabólica na infância e no início da idade adulta previne a hipertensão e subsequente dano a órgãos-alvo na vida adulta?

  • Qual é o tempo ideal até a recomendação de estratégias de controle de peso mais agressivas (ou seja, medicamentos antiobesidade ou cirurgia metabólica) ou estratégias terapêuticas de hipertensão além das mudanças no estilo de vida?

"Para mim", disse Dr. Michael, "abordar a hipertensão da obesidade infantil e determinar o momento ideal das terapias antiobesidade são as questões mais importantes."

"Certamente, essas terapias (ou seja, dietas, medicamentos, cirurgias) têm alguns riscos, mas não temos um entendimento claro se seus benefícios superam esses riscos em pessoas obesas mais jovens ou se iniciar essas terapias antes do início de danos a órgãos-alvo, como a insuficiência cardíaca, supera os riscos.”

O Dr. Michael informou não ter relações financeiras relevantes. As declarações de conflitos de interesses dos demais autores constam no artigo.

Hypertension. Publicado on-line em 20 de setembro de 2021. Texto completo

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